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Catálogo Vida Paralela de Mateus Moreira

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Convite à prece.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 195 x 300 cm. 2026

VIDA PARALELA

Estamos em um cemitério de automóveis. A cordilheira composta de ferro-velho circunda uma porção de água radioativa. As carrocerias amassadas, montadas umas sobre as outras, limitam o horizonte, anulam o ponto de fuga, assomam-se monstruosas, avançando sobre nós. Essas máquinas de carregar gente agora estão paradas, seus pneus girando em falso, cada pedaço parte de uma ruína total. No entanto, à medida que o olhar se demora sobre essa massa metálica, a pintura revela uma profusão de detalhes: figuras humanas surgem entre os destroços, pequenas ações se insinuam, o cotidiano se estabelece. A montanha de carros deixa de ser apenas um bloco compacto e passa a funcionar como um campo narrativo. Cada personagem parece carregar uma história possível. São sobreviventes de um mundo que ruiu ou nativos desse caos? Eles circulam entre as carcaças como quem procura um futuro perdido ou como quem já aprendeu a viver entre restos? A pintura oferece um cenário para as indagações de quem observa, abrindo espaço para múltiplas hipóteses: talvez esperem reconstruir algo, talvez terminem de destruir.

Esse universo figurativo é resultado do itinerário técnico de Mateus Moreira, que se apresenta aqui nesta nova série de pinturas. O artista parece ver na ambiguidade das coisas seu motor, aquilo que motiva a pintura. Às vezes é uma mancha de cor que se parece com um cachorro; outras, um acidente que se assemelha a um rio.

PARALLEL LIFE

IWe are in a car cemetery. A mountain range composed of scrap metal surrounds a portion of radioactive water. The crumpled car bodies, stacked atop one another, limit the horizon, nullify the vanishing point, and loom monstrously, advancing upon us. These people-carrying machines are now at a standstill, their tires spinning in vain, every piece part of a total ruin. However, as the gaze lingers over this metallic mass, the painting reveals a profusion of details: human figures emerge from the wreckage, small actions insinuate themselves, and the mundane establishes itself. The mountain of cars ceases to be a mere compact block and begins to function as a narrative field. Each character seems to carry a possible story. Are they survivors of a world that collapsed or natives of this chaos? Do they move among the carcasses like those searching for a lost future or like those who have already learned to live among remains? The painting offers a stage for the observer’s inquiries, opening space for multiple hypotheses: perhaps they hope to rebuild something, perhaps they will finish destroying it.

This figurative universe is the result of Mateus Moreira’s technical itinerary, presented here in this new series of paintings. The artist seems to see the ambiguity of things as his engine—the very thing that motivates the painting. Sometimes it is a smudge of color that looks like a dog; at others, an accident that resembles a river. There are also those images that arise from his experiences, whether awake or asleep: enigmatic scenes caught between despair and

Naufraga-me a razão.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 195 x 300 cm. 2026

rio. Há ainda aquelas imagens que surgem de suas experiências, acordadas ou dormindo: cenas enigmáticas entre o desespero e a esperança, o sucesso e o fracasso, o progresso e a destruição. Diante desses polos, é surpreendente que ele não aplique um juízo, não feche cada quadro em uma narrativa moral que denuncie a falência da civilização ou pregue sua resiliência. Ao contrário, ele tem a coragem de deixar que as cenas se abram para a relação com o público que - saturado de contemplar imagens de começo e fimpode agora se posicionar frente a elas.

No percurso que Mateus habilmente constrói, dragandonos para dentro de seu mundo, há a demonstração do duplo aspecto característico de qualquer experiência estética. De um lado, o olho percebe a narrativa. De outro, a mesma superfície se afirma diante de nós como trabalho de arte, feito de linhas, massas de cor, espalhadas com a espátula ou resultantes de gestos do pincel. Quem olha precisa oscilar continuamente entre esses dois registros. O próprio artista se equilibra nessa fronteira o tempo todo. Desde os esboços em seu pequeno caderno até as grandes telas, ele produz acidentes, pequenos cataclismos, que vão corrompendo a imagem, apagando partes construídas, somando elementos dissonantes, no limite entre terminar e começar um novo trabalho do zero.

and hope, success and failure, progress and destruction. Faced with these poles, it is surprising that he does not apply judgment, nor does he lock each painting into a moral narrative that denounces the bankruptcy of civilization or preaches its resilience. On the contrary, he has the courage to let the scenes open up to a relationship with the public who—saturated with contemplating images of beginnings and ends—can now take a stand before them.

In the path that Mateus skillfully constructs, dredging us into his world, there is a demonstration of the dual aspect characteristic of any aesthetic experience. On one hand, the eye perceives the narrative. On the other, the same surface asserts itself before us as a work of art, made of lines and masses of color, spread with a palette knife or resulting from brushstrokes. The viewer must continuously oscillate between these two registers. The artist himself balances on this frontier at all times. From the sketches in his small notebook to the large canvases, he produces accidents, small cataclysms that corrupt the image, erasing constructed parts and adding dissonant elements, on the threshold between finishing and starting a new work from scratch.

This tension is a constituent of the represented scenes. The wreckage may indicate a civilization that has collapsed—or the raw material from which something new is about to be rebuilt

Essa tensão é constituinte das cenas representadas. Os destroços podem indicar uma civilização que colapsouou a matéria bruta a partir da qual algo novo está prestes a ser reconstruído. Ainda que as pinturas não se remetam a qualquer lugar do mundo (e ao mesmo tempo a todos), o modo de habitar essa ambiguidade é certamente próprio da sobrevivência no Brasil: país precário que converte o fracasso em modo de vida, arranjando-se como dá; onde a falha é recurso para a imaginação. Como na própria pintura, também aqui o sentido permanece suspenso entre dois polos: ruína e possibilidade.

Although the paintings do not refer to any specific place in the world (and at the same time to all of them), the way of inhabiting this ambiguity is certainly characteristic of survival in Brazil: a precarious country that converts failure into a way of life, getting by as it can; where the flaw is a resource for the imagination. As in the painting itself, here too the meaning remains suspended between two poles: ruin and possibility.

Fulgor extinto.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 200 x 150 cm. 2026
Auréola artificial. Óleo sobre tela. Oil on canvas. 200 x 150 cm. 2026
Cálidos perfumes.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 200 x 150 cm. 2026
Estrelas despertas.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 195 x 300 cm. 2026
Soluço solitário.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 40 x 30 cm. 2026
Visões e lendas.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 200 x 150 cm. 2026
Sussurro. Óleo sobre tela. Oil on canvas. 200 x 150 cm. 2026
Somente existo.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 30 x 40 cm. 2026
Parou de chover.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 195 x 300 cm. 2026
Cantigas de penúria.
Óleo sobre tela. Oil on canvas. 200 x 150 cm. 2026

VIDA PARALELA

Mateus Moreira

26 de março a 16 de maio de 2026

March 26, 2026 to May 16, 2026

Albuquerque Contemporânea

Rua Antônio de Albuquerque 885 - Savassi

30112-011, Belo Horizonte - Minas Gerais, Brasil albuquerquecontemporanea.com

ISBN: 978-65-976492-0-4

Equipe • Team

Flavia Albuquerque

Lucas Albuquerque

Angelita Bauer

Carlos Donato

Cristina Rovesse

Jackson Cardoso

Jade Liz

Julia Zanon

Maria Silva

Raphaella Bauer

Sarah James

Washington Amador

Texto curatorial • Curatorial text: Yuri Quevedo

Fotografias • Photographs: Ícaro Moreno Ramos

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