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Catálgo Veludo ricochete - Paulo Whitaker

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Veludo ricochete Paulo Whitaker Texto crítico: Tálisson Melo


Quando Paulo Whitaker me propôs escrever para esta sua exposição individual, trouxe já com um título definido a partir de um dos trabalhos selecionados para a mostra, uma de suas raras pinturas que levam nome — Veludo ricochete. Antes mesmo de me debruçar sobre o conjunto de obras, percebi que meu corpo respondia de tal forma que seria inevitável lançar um “olhar” tátil e proprioceptivo aos trabalhos, uma vez que as duas palavras, por si só e combinadas, aguçaram essas camadas dos sentidos antes mesmo que eu chegasse a ver as pinturas. Para mim, o veludo evoca logo o toque macio, o caimento pesado, profundidade e densidade, a absorção e acolhimento do impacto; enquanto o ricochete é um desvio de trajetória causado pelo choque de algo em movimento contra uma superfície em certo ângulo, multiplicando direções para além da única reta, algo também leve, súbito, rápido, fugaz... Diante da junção dessas duas experiências aparentemente contraditórias, não pude evitar associações imediatas à dinâmica das bolas de sinuca sobre a mesa de feltro, os estalos das colisões mais brutas ou mais sutis traçando caminhos entre o cálculo, a destreza, o acidente e o acaso. A partir dessa ideia sinestésica, passei a intuir que abordar o trabalho do Paulo como jogo seria um caminho instigante para compartilhar impressões sobre sua pintura como acontecimento. Considero que sua obra pulsa nessa ambiguidade latente, na absorção do olhar ao mesmo tempo que na percepção de rebotes e derivações, variações e repetições que se fundem, colidem, se afastam, se apagam e reaparecem em outras partes. E por que essas formas retornam, quase como figuras, símbolos de uma gramática? Creio que pelo fato de serem peças de um jogo que nunca termina

When Paulo Whitaker invited me to write for this solo exhibition, he already had a title in mind, drawn from one of the works selected for the show, one of his rare paintings that bears a title — Velvet Ricochet. Even before immersing myself in the body of works, I realized that my own body was responding in such a way that it would be inevitable to cast a tactile and proprioceptive “gaze” upon them, since the two words, both individually and in combination, sharpened these sensory layers before I had even seen the paintings. For me, velvet immediately evokes a soft touch, a heavy drape, depth and density, the absorption and cushioning of impact; while ricochet refers to a change in trajectory caused by the collision of something in motion against a surface at a certain angle, multiplying directions beyond a single straight line — something also light, sudden, swift, fleeting. Faced with the conjunction of these seemingly contradictory experiences, I could not avoid immediate associations with the dynamics of billiard balls moving across a felt-covered table, the snaps of rougher or subtler collisions tracing paths between calculation, skill, accident, and chance. From this synesthetic idea, I began to sense that approaching Paulo’s work as a game would be an intriguing way to share impressions of his painting as an event. I believe that his oeuvre pulses within this latent ambiguity, in the absorption of the gaze while simultaneously eliciting the perception of rebounds and deviations, variations and repetitions that merge, collide, drift apart, disappear, and reappear elsewhere. And why do these forms return, almost as figures, as symbols of a grammar? I believe it is because they are pieces in a game that never ends, one that establishes a space apart from the ordinary world.


termina, e que instaura um espaço separado do mundo ordinário. A mesa de jogo me faz lembrar de três pinturas que considero fundamentais para a história da emergência da abstração — todas elas feitas em 1937, coincidentemente ou não: Le Jeu de Cartes de Maria Helena Vieira da Silva, com a vertigem dos naipes de baralhos se tornando formas autônomas e criando um espaço virtual; Überschach de Paul Klee, em que as formas e cores das peças e do próprio xadrez constroem a iminência do movimento; e Trente de Wassily Kandinsky, um grid no qual o artista organiza as várias formas de um vocabulário que rearticula ao longo de sua produção como recombinação, configurando uma espécie de jogo da memória em que as correspondências vão se dar em outras de suas pinturas. Não sei se esses artistas estão no radar de referências formais do Paulo nem se ele já viu essas obras, mas há uma afinidade estrutural com seu trabalho: geram uma situação lúdica e apontam para o jogo como um modo de construção, de conhecimento em experimentação. Nesse ponto encontrei uma chave para ler seus trabalhos ao longo de pelo menos três décadas como cenas de uma grande partida de um jogo sem desfecho, cuja regra principal é não parar de jogar. A imagem da mesa de sinuca com as bolas coloridas em ricochetes fica muito evidente quando olho para as fotos de sua sala na 25ª Bienal de São Paulo, em 2002, com telas grandes em que formas circulares empilhadas ou encadeadas se repetem em diferentes equilíbrios de composição — ora chegando a evocar ainda um strike com pinos de um boliche que não podem parar em pé. Isso persiste nos trabalhos recentes, de 2020 para cá, embora neles comece também a encontrar

The game table brings to mind three paintings that I consider fundamental to the history of the emergence of abstraction — all made in 1937, coincidentally or not: Le Jeu de Cartes by Maria Helena Vieira da Silva, with the vertigo of playing-card suits becoming autonomous forms and creating a virtual space; Überschach by Paul Klee, in which the forms and colors of both the pieces and the chessboard itself construct the imminence of movement; and Trente by Wassily Kandinsky, a grid in which the artist organizes the various forms of a vocabulary that he would continue to rearticulate throughout his production through recombination, configuring a kind of memory game in which correspondences emerge elsewhere in his paintings. I do not know whether these artists are among Paulo’s formal references or whether he has ever seen these works, but there is a structural affinity with his practice: they generate a playful situation and point to the game as a mode of construction, a mode of knowledge through experimentation. At this point, I found a key for reading his work over at least three decades as scenes from a vast match in a game without resolution, whose principal rule is never to stop playing. The image of a billiard table with colored balls ricocheting becomes particularly evident when I look at photographs of his room at the 25th São Paulo Biennial in 2002, featuring large canvases in which stacked or chained circular forms repeat themselves in different compositional balances — at times even evoking a bowling strike with pins that can no longer remain standing. This persists in the recent works, from 2020 onward, although in them I also begin to find the card suits and other pieces invented through his own repetitions-with-variations of scale, color, texture, and precision. With the masks, cutouts, and stencils that Paulo has employed for years in his painting process, it is as though he creates his own game


encontrar os naipes e outras peças inventadas por suas próprias repetições-com-variações de escala, cor, textura e precisão. Com as máscaras, recortes e moldes vazados que Paulo utiliza há anos para pintar, é como se criasse seu próprio tabuleiro, as peças e as regras do jogo que ele mesmo pode vir a quebrar para chegar em outras combinações e manter a partida em andamento. Nós também podemos fazer isso por meio do olhar tátil que seu trabalho nos impele, desdobrando as cenas do jogo em outros rumos da imaginação — seria uma espécie de pacto em torno da absorção e do desvio imbricados em Veludo ricochete, tanto na obra que leva esse título quanto na exposição como um todo. E, em alguns casos, cada obra parece encenar um conjunto de outros quadros dentro de si (já existentes fora dele, no mundo, ou na imaginação, na ficção que este jogo materializa), com diferentes tratamentos do gesto pictórico. Se a recepção crítica do trabalho de Paulo Whitaker frequentemente descreveu suas formas como um vocabulário em constante transformação, por uma lógica estratigráfica ou palimpséstica; talvez agora seja possível pensar que elas operam como peças de um jogo. Isso evidencia como cada tela cria um pequeno universo autônomo, além do interesse do artista por aquilo que escapa ao controle no curso do acúmulo de decisões: o encontro inesperado entre as cores, a sobreposição imprevista, a interrupção do gesto e a persistência dos acidentes — os escorridos, manchas, borrões, vazados... O que atravessa sua trajetória, ademais da recorrência de certas figuras que vão compondo seu arquivo também com resíduos, incorporando os acidentes a sua memória gramatical, é a persistência de uma

game board, the pieces, and the rules of a game that he himself may later choose to break in order to arrive at new combinations and keep the match in motion. We, too, can do this through the tactile gaze that his work compels, unfolding the scenes of the game into other trajectories of imagination — a kind of pact around the intertwined dynamics of absorption and deviation embedded in Velvet Ricochet, both in the work that bears this title and in the exhibition as a whole. In some cases, each work seems to stage within itself a constellation of other paintings (whether already existing outside it, in the world, or in imagination, in the fiction materialized by this game), each with different treatments of the pictorial gesture. If the critical reception of Paulo Whitaker’s work has often described his forms as a vocabulary in constant transformation, operating through a stratigraphic or palimpsestic logic, perhaps it is now possible to think of them as pieces in a game. This highlights how each canvas creates a small autonomous universe, while also revealing the artist’s interest in that which escapes control over the course of accumulated decisions: the unexpected encounter between colors, unforeseen superimpositions, interruptions of gesture, and the persistence of accidents — drips, stains, smudges, voids. What traverses his trajectory, beyond the recurrence of certain figures that gradually compose his archive through residues as well, incorporating accidents into his grammatical memory, is the persistence of a match that has spent decades reinventing its own combinations, between new dynamics and returning ghosts. In the game proposed by Whitaker’s painting, no one wins and no one loses, for possibilities and relationships are continuously reshuffled and redistributed. Every gesture is absorbed even as it ricochets across the surface and keeps the whole in motion. It also requires our willingness to play.


uma partida que há décadas reinventa suas próprias combinações, entre dinâmicas novas e fantasmas que retornam. Nesse jogo que a pintura de Whitaker nos propõe, ninguém ganha nem perde, pois as possibilidades e relações são continuamente reembaralhadas e redistribuídas, cada gesto é absorvido ao mesmo tempo que ricocheteia a superfície e mantém o todo em movimento. O que requer também a nossa vontade de jogar. Tálisson Melo

Veludo ricochete Óleo sobre tela. Oil on canvas. 190 x 140 cm 2025


Sem título Carvão e esmalte sintético sobre papel kraft 200g. Charcoal and synthetic enamel on 200g kraft paper. 123 x 113 cm cada. Each. 2024


Sem título Carvão e esmalte sintético sobre papel kraft 200g. Charcoal and synthetic enamel on 200g kraft paper. 123 x 113 cm 2024


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 190 x 180 cm 2023


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 190 x 180 cm 2015


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 130 x 100 cm. 160 x 130 cm 2025


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 190 x 150 cm 2025


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 190 x 140 cm 2026


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 190 x 140 cm 2026


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 190 x 140 cm 2020


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 190 x 136 cm 2023


Sem título Óleo sobre tela. Oil on canvas. 240 x 380 cm 2023


Veludo ricochete Paulo Whitaker 16 de Junho a 01 de Agosto de 2026 June 16th to August 1st, 2026 Albuquerque Contemporânea Rua Antônio de Albuquerque 885 - Savassi 30112-011, Belo Horizonte - Minas Gerais, Brasil albuquerquecontemporanea.com ISBN:

Equipe • Team Flavia Albuquerque Lucas Albuquerque Angelita Bauer Carlos Donato Cristina Rovesse Jackson Cardoso Jade Liz Julia Zanon Maria Silva Raphaella Bauer Sarah James Washington Amador Texto crítico • Critical text: Tálisson Melo Fotografias • Photographs: Ícaro Moreno Ramos


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