Entrevista Especial Silvia Novais .............................................................................. 8 Internacional Ano Internacional do Afrodescendente ............................... 12
Perfil Em defesa das africanidades – Marcilene Garcia de Souza .................................................................................................. 54 História viva – Carlos Moore ............................................... 58
Ano Internacional do Afrodescendente. Será que temos o que comemorar? – José Vicente ................................................... 18
Cultura Música negra para todos os gostos ..................................... 60
Educação Novo começo – Vice presidente da República, Michel Temer, na Zumbi .................................................................................. 22
Homenagem Em memória a Paulo Renato ............................................... 66
O negro também merece o mundo ...................................... 32 Ciência sem Fronteira Plural .................................................. 36 Ações afirmativas sem fronteiras – Naomar de Almeida Filho ........................................................... 38 Racismo na escola ....................................................... 40 Cidadania Negro sim! ..................................................................... 46
Veículos Chegou o J6 ........................................................................... 68 Turismo Reino de Angola, berço do Brasil ........................................ 70 Opinião Um novo discurso para o Brasil na ONU: o fim do racismo! – Rosenildo Gomes Ferreira ............................... 76
Cultura e conscientização – Andrea Matarazzo ........ 48
Afirmativo África e Brasil, um encontro necessário – Miguel Jorge ... 78
Especial Afrodescendentes em foco .......................................... 50
Preto e Branco Marcus Mosiah Garvey ......................................................... 82
ndice Afirmativa Plural é uma publicação da Afrobras - Sociedade Afro Brasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural, Centro de Documentação, através da: Editora Unipalmares Ltda., CNPJ nº 08.643.988/ 0001-52. Com periodicidade bimestral. Ano 8, Número 39 - Av. Santos Dumont, 843 - Bairro Ponte Pequena - São Paulo/SP - Brasil CEP 01101-080 - Tel. (55 - 11) 3325-1000. www.afrobras.org.br
REDAÇÃO: Vivian Zeni (Mtb. 51.518 - vivian@afrobras.org.br), Glaucia Lopes (Estagiária - glaucia@afrobras.org.br)
CONSELHO EDITORIAL: José Vicente • Francisca Rodrigues • Cristina Jorge • Nanci Valadares de Carvalho • Humberto Adami • Sônia Guimarães.
PUBLICIDADE: Maximagem Mídia Assessoria em Comunicação Tel.(11) 3325-1000.
DIREÇÃO EDITORIAL E EXECUTIVA: Jornalista Francisca Rodrigues (Mtb.14.845 - francisca@afrobras.org.br).
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CAPA: Hereros_Divulgação_04MIDRes
FOTOGRAFIA: J. C. Santos e Divulgação.
EDITORAÇÃO: Alvo Propaganda e Marketing (revistas@alvopm. com.br).
COLABORADORES: Daniela Gomes e Eliane Almeida.
IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Vox Editora.
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Afirmativa Plural • Edição 39
editorial
Ano Inter nacional do Internacional odescendente? Afr Afrodescendente? A Organização das Nações Unidas – ONU – decretou este ano de 2011 como o Ano Internacional do Afrodescendente. Qual a intenção desta data? Fazer com que as autoridades pensem em políticas afirmativas para melhorar as condições, muitas vezes, subumanas em que vivem milhões de pessoas com ascendência africana espalhados pelo mundo, dando sua contribuição de alguma forma no desenvolvimento de países que não os seus de origem? Fazer com que neste ano as pessoas consigam ao menos reduzir sua intolerância em relação aos negros? Será que a luta contra o racismo, a xenofobia, a intolerância foi dobrada ou redobrada? Será que houve essa preocupação mundo afora? Aqui no Brasil, não conseguimos ver nada sendo feito nem falado que lembrasse a institucionalização dessa data,
nuam dando sua contribuição ao país. Neste Ano Internacional do Afrodescendente, que já está terminando, pois estamos no nono mês de 2011, nada aconteceu, nada foi feito por autoridades ou empresas que se dizem responsáveis socialmente... Mas a Afirmativa Plural resolveu fazer uma edição especial para registrar o Ano de 2011. Trazemos matérias de negros vencedores, que mesmo sofrendo o preconceito, deram a volta por cima. Trazemos artigos importantes sobre a situação atual da África e dos negros e sobre as possibilidades de negócios que poderemos fazer com nossos irmãos africanos. Trazemos o lançamento pela Presidente Dilma Rousseff, do Programa Ciência sem Fronteira, que visa formar e especializar brasileiros na educação e que como sempre, quase deixa os negros de fora em função das exigências
a não ser, claro, por algumas instituições do movimento negro e mesmo assim com ações tão pequenas que não ganham destaque, não viram notícia. Aliás, a mídia só fala do negro nos meses de maio – Abolição da Escravatura – e novembro – Dia da Consciência Negra. Fora isso, os jornalistas dizem que não somos notícias, a não ser, claro, em páginas policiais, ou quando seguranças de supermercados e bancos nos agridem por causar desconfiança por termos um carro “caro” ou olhar com altivez para algum deles, esquecendo-nos por um minuto, do nosso tom de pele e ao que ela nos remete. Lembro de datas de países que foram comemoradas o ano inteiro no Brasil, inclusive com dinheiro público (também oriundo de impostos pagos por negros) sendo aplicado em eventos, publicidade etc. Para os negros, para a África, nada. Aliás, não é novidade isso para nós negros brasileiros. Na comemoração dos 500 anos de descobrimento do Brasil, muitos povos foram celebrados como parte deste descobrimento, menos os negros, que também deram e conti-
para se inscrever. Para tentar mudar esse quadro e para que a presidente se sensibilize e faça um recorte aos negros e pobres (que estão na mesma categoria), a Faculdade Zumbi dos Palmares e a Afrobras lançaram uma campanha para arrecadar 100 mil assinaturas e entregar à presidente. Quem sabe se obtivermos sucesso, o governo se sensibilize e abra as portas de alguma maneira para parte dessa população? E Prepare o seu coração, pois o Troféu Raça Negra, o nosso “Oscar”, já está nas ruas, no ar, na mídia (www.trofeuracanegra.com.br). Separe sua agenda para 13 de Novembro, a partir das 20h, na Sala São Paulo, capital paulista. Aqui, os negros são lembrados, reverenciados e celebrados. Aqui, os negros de todas as cores que trabalham por uma sociedade mais justa são homenageados. Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar! Boa leitura. Francisca Rodrigues, Diretora Executiva.
ditorial Edição 39 • Afirmativa Plural 5
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Afirmativa Plural • Edição 39
Foto: Divulgação
entrevista especial
Surpresa. Esta pode ser a palavra que exprime as emoções sentidas pela modelo Silvia Novais desde sua vitória na 21ª Edição do Concurso Miss Itália Nel Mondo. Primeiro a surpresa boa, a alegria da realização, da conquista de um prêmio tão disputado. Depois a surpresa triste, de ver a discriminação revelada de maneira irracional e estúpida na internet. Os 58 quilos muito bem distribuídos em 1,77 de altura, não foram suficientes para convencer alguns internautas de que a estudante de educação física, que trabalha como modelo em São Paulo, tem motivos mais do que plausíveis para ter sido eleita no concurso para descendentes de italianos. Bisneta por parte de pai de Francesco Milani, originário da região de Florença, na Toscana, aos 25 anos, Silvia esbanja, além da beleza que lhe é evidente, charme e carisma. Vencedora do Miss São Paulo em 2009, competiu no concurso como Miss Itália/Amazônia com 39 mulheres, entre elas outras três brasileiras - Carla Isabele Dutra (Miss Itália/Mercosul), Priscylla Vitorassi (Miss Itália/Brasil) e Vitoria Bisognin (Miss Itália/São Paulo). A escolha foi feita por um júri composto pelo ator Gerard Depardieu e pelo apresentador de televisão Carlo Conti. Com a conquista do Titulo mundial Silvia Novais – Miss Italia Nel Mondo 2011, é a mais nova contratada da TV Italiana RAI UNO. De família simples, a mãe foi lavadeira, Silvia demonstra em entrevista à Afirmativa Plural que com muita força de vontade consegue superar cada etapa que surge em sua vida.
Fotos: Divulgação
entrevista especial
Afirmativa Plural: Quando foi seu início na carreira como modelo? Silvia Novais - Foi aos 14 anos, quando participei de desfiles e fotos.
Afirmativa Plural: Como tomou conhecimento do concurso Miss Itália Nel Mondo? Silvia Novais: Algumas pessoas me
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entrevista especial
falaram muito bem sobre esse evento e procurei mais informações através do Coordenador do concurso Miss Itália Brasil.
Afirmativa Plural: Foi uma surpresa ter se sagrado vencedora? Silvia Novais: Foi uma grande surpresa! Não esperava ganhar o concurso, queria muito, mas não esperava ganhar. Foram outras 39 candidatas de vários países, meninas belíssimas, de belezas diferentes ... Foi bem difícil.
Afirmativa Plural: Qual seu sentimento e primeira reação ao tomar conhecimento das críticas e xingamentos na internet? Silvia Novais: Tristeza. Não é a primeira vez que isso acontece. Não quis nem tomar mais conhecimento, prefiro não ver esses comentários maldosos e ridículos. Vou mostrar para estas pessoas trabalhando e conquistando meu espaço. Sei que quem faz isso é uma minoria. E isso me dá mais força para lutar.
Afirmativa Plural: Já havia enfrentado preconceito racial anteriormente? Silvia Novais: Sim, no concurso de Miss Campinas e Miss São Paulo.
Afirmativa Plural: Quais seus planos para o futuro? Afirmativa Plural: Qual sua receita para enfrentar as dificuldades e superar as adversidades? Silvia Novais: Para enfrentar as dificuldades em primeiro lugar temos que ter muita fé em Deus e depois não deixar que as dificuldades nos travem e nos desanimem, muito pelo contrário. Diante delas devemos lutar ainda mais para superá-las. Quanto às adversidades, estamos no mundo para vencê-las, a vida não é feita só de momentos felizes e é nas adversidades que aprendemos e crescemos ainda mais. É lutar e não se deixar abater quando elas surgem, sempre com muita fé em Deus.
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Afirmativa Plural • Edição 39
Fotos: Divulgação
Silvia Novais: Pretendo trabalhar na TV.
Foto: Hereros_Divulgação_04MIDRes
internacional
Por Eliane Almeida
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Afirmativa Plural • Edição 39
No ano escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) dedicado aos afrodescendentes, 2011 é o número da força contra o preconceito. Deixando de lado o olhar assistencialista, volta-se para o continente e para os descendentes de africanos reconhecendo que as pessoas de ascendência africana representam um setor específico da sociedade, cujos direitos devem ser promovidos e protegidos. “Este Ano Internacional oferece uma oportunidade única para redobrar nossos esforços na luta contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e outras formas de intolerância que afetam as pessoas de ascendência africana em toda parte”, diz Navi Pillay, Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. O intuito da institucionalização de um ano que se dedique a corrigir os erros do passado escravagista é o de valorizar o papel do afrodescendente no processo de crescimento nos países onde a população negra está. Estima-se que cerca de 150 milhões de pessoas que se auto-declaram negros vivem na América Latina e no Caribe. Segundo a ONU, outros tantos milhões estão espalhados pelo mundo dando suas contribuições fora do continente africano. De acordo com Mirjana Najcevska, Presidente do Grupo de Trabalho das Nações Unidas de Peritos sobre Pessoas de Ascendência Africana “este é o ano para reconhecer o papel das pessoas de ascendência africana no desenvolvimento global e para discutir a justiça para atos discriminatórios correntes e passados que levaram à situação de hoje”, explica.
Fotos: EBC - Marcello Casal Jr / Abr
internacional
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Dinâmica Africana Atual A África está sendo redescoberta. Nada que possa entusiasmar muito. Mas se pescam aqui e ali sinais alentadores de que algum dia talvez possa superar uma das maiores deformações dos estudos sobre a escravidão no mundo negro: o silêncio acerca de sua face africana. Apesar de estudos já trazerem em seus conteúdos a dinâmica da escravidão em África como o faz o escritor norte-americano naturalizado canadense, Paul E. Lovejoy em seu livro “A escravidão da África: uma história de suas transformações”, muito ainda há que ser dito. A UNESCO há muitos anos vem elaborando obras literárias com conteúdo bastante vasto sobre a terra mãe de todas as civilizações. Somente em 2010 foi possível, através da internet, ter acesso a tal acervo. O valor maior destas obras é que são cientistas africanos escrevendo sobre a História da África. O continente africano vem sendo descortinado de diversas formas. Depois da libertação dos últimos países sob o julgo do colonialismo, os países africanos iniciam sua caminhada rumo ao desenvolvimento. Tal desenvolvimento acontece a passos lentos e sob os olhos atentos dos grandes países capitalistas que tentam se apoderar das riquezas naturais que o continente oferece. Mas o processo colonial deixou frágil o poder de sustentabilidade 14
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destes países já que o desenvolvimento natural dos povos foi interrompido pela escravidão. Atualmente, sangue ainda é derramado nos países da África Subsaariana. Estados muçulmanos estão em guerra em busca da liberdade. Os líderes autoritários estão sendo derrubados e o povo busca pela tão sonhada autonomia.
Desafios Africanos De acordo com Kabengele Munanga* no Dossiê n. 5 da Revista Le Monde Diplomatique em que o tema é “África: Desafios da democracia e do desenvolvimento”, o antropólogo africano explica que em 2010 aconteceram tanto no continente quanto nas antigas metrópoles, como França e Bélgica, diversas manifestações de alegria pelo cinquentenário de libertação de muitos países da África Subsaariana. O momento também foi de lamentações e reflexões. “Aproveitou-se para fazer um balanço crítico, não apenas para os 17 países da África que obtiveram sua independência em 1960, mas também para refletir sobre o quadro geral dos países africanos no que diz respeito aos objetivos do milênio”, diz Munanga. Ainda de acordo com o antropólogo, a imagem pessimista emitida pela grande mídia internacional tem como foco a África Subsaariana deixando de lado as mazelas que acontecem na África do Norte. Este fechar de olhos atualmente tem sido impossível por conta dos últimos acontecimentos nos países muçulmanos como Tunísia, Egito e Líbia, palcos de grandes conflitos entre população e governo. Mas o crescimento econômico em diversos países do continente tem
Foto: Hereros_Divulgacão_01MIDRes
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Fotos: EBC - Marcello Casal Jr / Abr
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sido significativo e faz encher os olhos de muitas empresas em países em crescimento como Brasil e China, por exemplo. “De modo geral, mesmo em países que acusam taxas de crescimento econômico positivamente surpreendente, como a África do Sul (4% em 2005), Angola (23% em 2007 e atualmente o que mais cresce no continente), Moçambique (8% entre 2000 e 2006), ainda se observa degradação da situação social, aumento das desigualdades econômicas, degradação e insuficiência das instalações sanitárias, de moradia e dos sistemas de saúde, de transporte público e dos meios de comunicação em geral”, explica.
Foto: Hereros_Divulgacão_13MIDRes
Continente Doente
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Afirmativa Plural • Edição 39
O continente africano vem sendo assolado por diversos tipos de epidemias. Ebola, varíola, e a pior de todas: a AIDS. Doença sexualmente transmissível, ainda é a maior causadora de mortes em diversos países africanos. Apesar do esforço de entidades internacionais na disseminação da informação como forma de prevenção, os africanos ainda não tem acesso fácil nem às informações quanto menos aos medicamentos utilizados no tratamento da doença. De acordo com o médico e exprofessor das universidades de Minnesota, Paris-V, Addis Adeba e Calcutá, Dominique Frommel, “além dos particularismos culturais e científicos, que prejudicam a luta contra o HIV em escala mundial (...), a AIDS é uma imagem emblemática de desequilíbrio econômico que aflige o planeta. Tornou-se um escândalo por causa da visão estreita dos poderes financeiros dos países do Norte e do Sul que investem mais em armas do que em saúde”, diz.
Foto: Nelson Silvestre
Frommel afirma ainda que “atualmente, o recurso aos antivirais dirige-se prioritariamente à prevenção da transmissão do HIV da mãe ao recém-nascido, uma intervenção limitada no tempo cujo custo não excede o das vacinas habituais”. “A eliminação da predisposição à AIDS, como a outros infortúnios, passa por uma longa marcha de movimentos sociais. Esse desafio, de um outro tipo, é irrealizável se o silêncio sobre a desigualdade de acesso a todas as fontes, incluídas a da medicina, não for rompido”, conclui Frommel.
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Apesar de tudo, o gigante que cresce A Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial cuja função principal é superar a pobreza e impulsionar o crescimento econômico de países em desenvolvimento tem buscado soluções práticas para o desenvolvimento dos países africanos. Dentro do Banco Mundial existem outras instituições que se encarregam de elaborar planos de ação na resolução de problemas financeiros de tais países. Umas dessas instituições é a Associação Internacional de Desenvolvimento (AID) que oferece empréstimos sem juros e a longo prazo e subvenções a 79 países do mundo que não possuem possibilidade de contrair empréstimo nas condições de mercado. ONU e Banco Mundial desenvolveram relatórios que deram conta de apresentar um retrato das necessidades dos países mais pobres da África. O relatório da ONU intitulado “Promovendo o desenvolvimento industrial num novo ambiente global” apontou para uma contribuição industrial global de apenas 1%. O estudo indica a necessidade de assen-
tamento nas bases da industrialização em debates envolvendo empresários e empreendedores. A pesquisa produzida pela Conferência para o Desenvolvimento e Comércio e a Organização para o Desenvolvimento Industrial, ambas da ONU, produziu documento que tem como objetivo estimular os empreendedores africanos a elaborar produtos para exportação. O estudo recomenda o estabelecimento de relações mais efetivas entre negócios e Estados, observação dos problemas existentes para a implantação de novas indústrias e a criação de procedimentos de monitoramento, avaliação e prestação de contas. Já as ações do Banco Mundial dizem respeito às condições financeiras dos países africanos em situação de risco e reconstrução. Para estimular os dirigentes africanos de modo criativo, o Banco Mundial divulga estudo sobre políticas de
sucesso na África. Intitulado “Sim, África Pode: Histórias de Sucesso em um Continente Dinâmico”, contam informações de 26 estudos de caso. Os estudos de caso estão organizados em quatro grupos. Moçambique e Uganda estão listados nos sucessos de recuperação pós-conflito movidos por reformas políticas. Na mesma categoria aparecem exemplos de Ruanda, com a revitalização do setor cafeeiro. Outra categoria referida pelo Banco Mundial diz respeito as abordagens participativas que provaram ser eficazes. Etiópia é citada como exemplo com a criação de um sistema de saúde com base em consultas populares. Em Uganda, foi introduzido o sistema de acesso gratuito à educação primária. O Banco Mundial frisa ainda que grande parte dos sucessos foi alcançada como resultado de ações coletivas, com fraca intervenção governamental para evitar erros anteriores. Edição 39 • Afirmativa Plural 17
internacional
Por: José Vicente*
A discriminação e o racismo têm alcançado patamares preocupantes em grande parte do planeta e os negros foram e têm sido vítimas preferenciais desse tipo de agressão na maioria desses países. O racismo e a discriminação contra os países africanos têm relação direta com os gravíssimos e permanentes problemas socioeconômicos, político e cultural, principalmente aqueles relacionados com a saúde pública, como a AIDS, a fome no chifre da África, o clima de insegurança política e o recrudescimento de choques, possíveis conflitos armados em razão das disputas pela manutenção do poder, e como também a preocupação com o grau alarmante de corrupção que tem assolado grande parte da região. Seja por xenofobia ou discriminação racial e social, os negros além de receber tratamento desigual e desvantajoso, apresentam um padrão de subjugação que não parece 18
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limitado simplesmente ao caráter regional, econômico, social ou religioso. Os países africanos, em regra, apresentam os mesmos pressupostos que redundam nas limitações e impossibilidades políticas e o negro
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O racismo e a discriminação têm aumentado e recrudescido em várias partes do mundo.
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pensado coletivo e individualmente, tem sido vítima das mesmas arbitrariedades e desvantagens em qualquer lugar do mundo. O problema é antigo e tem como pano de fundo o passado de escravidão e o tráfico negreiro e os reflexos da colonização das potências. Passou por inflexão a partir da luta de Man-
dela contra o Apartheid, mas somente recebeu um tratamento específico e de profundidade com a Conferência Mundial Contra o Racismo e Xenofobia realizada em Durban, África do Sul, em 2001, e, depois com a Revisão de Durban em 2009 na Suíça. Mas, o fato é que, as conferências pouco repercutiram no combate e na diminuição da discriminação e racismo contra o negro. Diferentemente do que se imaginou, o racismo e a discriminação têm aumentado e recrudescido em várias partes do mundo, como identificou a ONU (Organização das Nações Unidas). A campanha idealizada pela ONU designando o ano de 2011, como o Ano Internacional do Afrodescendente, tem o interesse e o desejo de reforçar o sentido de que, além dos aspectos históricos, políticos, sociais e econômicos internos e nacionais, existe um vazo comunicante estereotipado em relação à
Foto: Marcello Vitorino - Fullpress.
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O Brasil, o maior contingente de negros fora da África, tem uma dívida impagável com essa parcela de brasileiros.
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qualidade das pessoas que vivem, pertencem ou remetam às características físicas desses países, e que individualmente ou coletivamente, em qualquer dos demais países e nações, sofrem variadas agressões contra os valores da dignidade e cidadania em razão da sua raça africana ou da cor negra da sua pele. O Brasil, o maior contingente de negros fora da África, tem uma dívida impagável com essa parcela de brasileiros, e em grande medida, é a caixa de ressonância dos fundamentos dessa discussão sob qualquer aspecto. Os incipientes avanços das últimas décadas não permitem um olhar de otimismo, mas podem indicar um caminho importante para progredir também nessa questão. Tomara que essa importante campanha possa repercutir internamente, e auxiliar a jogar luzes na situação e na solução desse tema no nosso país. *José Vicente, Reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares.
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Por Vivian Zeni Fotos: S.R. Fotografias
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“Quero começar esta Aula Magna dando uma notícia para todos vocês, alunos da Faculdade Zumbi dos Palmares, mas principalmente aos futuros advogados. Pela primeira vez na história dos cursos de advocacia do país, o MEC reconheceu o curso de Direito dessa instituição, faltando um ano e meio para que a primeira turma se forme.” A declaração entusiasmada foi feita pelo vice-presidente da República, Michel Temer, na abertura da aula magna que daria inicio ao segundo semestre letivo da Faculdade Zumbi dos Palmares no último dia 12 de agosto, em São Paulo. Ovacionado pela platéia da qual faziam parte veteranos, calouros, corpo docente e convidados, Temer completou: “É uma alegria cívica estar aqui essa noite. Estou aqui hoje, não como vice-presidente, mas principalmente como professor. A idealização da Faculdade Zumbi dos Palmares é uma realização importantíssima, pois deu ao
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povo a oportunidade de colocar a Constituição em prática. De palavras, para ações”, afirmou. Personalidades como o deputado Federal Gabriel Chalita, o Desembargador José Renato Nalini, o Presidente Emérito do Centro de Integração Empresa Escola – CIEE, Paulo Nathanael, a primeira vereadora negra da Câmara Municipal de São Paulo e a ex-deputada Theodo-
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sina Ribeiro, a primeira deputada negra da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, e a Coronel Vitória, primeira mulher negra a se tornar Coronel da Polícia Militar em São Paulo, estiveram presentes ao evento, que teve a jornalista Joyce Ribeiro como mestre de cerimônias. Temer fez questão ainda de declarar seu apoio à campanha “Ciência Sem Fronteira Plural”, liderada
pela Zumbi, que iniciou a coleta de assinaturas a fim de garantir a participação dos negros nas 100 mil bolsas de graduação, mestrado, doutorado e pós doutorado no exterior. As bolsas fazem parte do “Programa Ciência Sem Fronteira”, do Ministério da Ciência e Tecnologia. “Quero salientar meu entusiasmo e doação a esse movimento liderado pela Faculdade Zumbi dos Palmares para a in-
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clusão do negro no programa “Ciência sem Fronteira” do Governo Federal. Mais uma vez a Zumbi garantindo o cumprimento da Constituição do país”, disse. A iniciativa nasceu do apelo do reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente, durante uma reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), da Presidência da República. Na ocasião, José Vicente fez questão de res28
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saltar a importância da inclusão do negro à distribuição das bolsas. “É importante que o recorte do negro seja incluído nessa iniciativa do Governo Federal. É uma oportunidade única, que não podemos e não iremos perder”, afirmou José Vicente. O abaixo assinado da campanha “Ciência sem Fronteira Plural” encontra-se disponível no site da Afrobras – Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural
(www.afrobras.org.br), no site da Faculdade Zumbi dos Palmares (www.zumbidospalmares.edu.br), na Afrobrasnews Agência Internacional de Notícias Afroétnicas (www. afrobrasnews.com.br). Além disso, os alunos farão campanha em alguns locais de grande circulação como estações de metrô e postos do Poupatempo, como também nas entidades afrodescendentes. Para o Presidente Emérito do
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CIEE, Paulo Natanael, a iniciativa do Governo Federal é uma chance de globalizar e colocar o Brasil um passo à frente. “Essa iniciativa é extremamente importante. O Governo Federal acertou em globalizar, em pós graduar nossos estudantes e muito mais do que isso, se atentar à importância das cotas. Nenhum país desenvolvido chegou a prosperidade sem pós graduar grande parte de sua população. É um exemplo da China e Edição 39 • Afirmativa Plural 29
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da Coréia do Sul. O Brasil está no caminho certo”, disse. O vice-presidente lembrou ainda de parabenizar os futuros advogados presentes na aula magna pelo dia do advogado comemorado um dia antes do evento, 11 de agosto. “Parabéns a todos os colegas do curso de Direito. Lembrem-se de que essa não é uma Universidade onde se ensina só a ciência, mas a elevação da cultura negra”. O diretor acadêmico e ex-secretário de Justiça do Estado de São Paulo, Hédio Silva Jr., se emocionou ao falar do vice presidente Michel Temer ao palco. “É uma alegria, uma satisfação receber o professor Michel Temer na Zumbi. Lembro-me que o primeiro livro de Direito que li foi escrito pelo excelentíssimo Sr. Michel Temer. Não poderíamos iniciar esse semestre de melhor forma”, afirmou Silva. Já o reitor da faculdade, José Vicente aproveitou para relembrar as conquistas da Zumbi dos Palmares em seus sete anos de existência. “Tenho a honra, a satisfação de estar a frente da Zumbi para viver esses momentos. Nesses sete anos, conquistamos não só novos alunos e parceiros. Nós conquistamos espaço. Nossos alunos da Zumbi são o Brasil de amanhã. É importante que saibamos o nosso papel, a importância desse dia, desses anos que passamos dentro dessa instituição de ensino”, disse o reitor. O deputado Federal Gabriel Chalita fez questão de registrar sua emoção. “Eu acompanho a Zumbi dos Palmares desde o início dessa instituição de ensino tão importante, que reflete aquilo que a gente sonha para a nossa sociedade para que ela seja plural, que respeite e dê oportunidades. Nós vimos a vibração dos alunos, dos professores, justamente no dia do reconhecimento da Faculdade de Direito, um dia depois do dia do Advogado. Acho que é uma noite de celebração. Estou muito feliz de estar aqui com os alunos e professores da Zumbi dos Palmares”.
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Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
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Por Rejane Romano e Vivian Zeni
Programa Ciência sem Fronteiras, do Governo Federal, deve estabelecer em suas diretrizes cotas para negros e índios A presidente Dilma Rousseff anunciou durante a 38° reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), que o regime de cotas pode ser um dos critéri32
Afirmativa Plural • Edição 39
os de escolha dos 100 mil bolsistas que serão selecionados para participarem do “Programa de Bolsas no Exterior Ciência sem Fronteiras”. Uma iniciativa do Ministério da
Ciência e Tecnologia, o programa visa expandir, ampliar, internacionalizar e potencializar os estudos de ciências exatas no país, através de intercâmbio e mobilidade internacio-
nal, a fim de formar profissionais qualificados e preparados para o desenvolvimento do Brasil, que hoje é a sétima economia do mundo. A intenção do governo, com o “Programa Ciência sem Fronteira”, é enviar estudantes para as 50 melhores universidades do mundo e também atrair talentos para trabalhar no Brasil. Das 75 mil bolsas, 27.100 serão destinadas, nos próximos três anos a alunos em graduação; 24.600 a doutorados de um ano; 9.790 para doutorados de quatro anos e 8.900 para pós-doutorados. O Brasil também quer atrair 390 pesquisadores visitantes. As vagas seriam distribuídas por Estado, sendo que uma parte delas, ainda a ser definida, podem ser concedidas obedecendo a critérios étnicos e de gênero. Além disso, a presidente espera que a iniciativa privada se engaje e forneça mais 25 mil vagas. No total, o governo planeja investir R$ 3,1 bilhões. Para o presidente da Fundação Cultural Palmares, Elói Ferreira de Araújo, a possibilidade de que o programa inclua em suas diretrizes vagas para afrodescendentes e indígenas é de extrema importância para o desenvolvimento do negro. “É imprescindível o estabelecimento de cotas para a inclusão de negros e indígenas no ‘Programa Ciência sem Fronteira, sob pena de se fazer um projeto que não leve em consideração a diversidade brasileira. Neste ano que dedicamos à comemoração do Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes é importante observar a implementação de ações que beneficiem essa parcela da população, uma vez que o Estatuto da Igualdade Racial dispõe, de forma muito especial, o que são as Ações
Foto: Divulgação
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Elói Ferreira de Araújo.
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educação
Foto: Ana Labate_sxc.hu
Mobilização Já!
Justamente para reforçar que estas providências se tornem eficazes e mais que isso sejam uma Ação de Cidadania do Ano Internacional dos Afrodescendentes, a Faculdade Zumbi dos Palmares se movimenta para lançar uma campanha colhendo assinaturas em prol de cotas para negros no programa Ciência sem Fronteiras. “Vamos sair às ruas para coletar 100 mil assinaturas para tornar acessível aos jovens negros a participação neste programa de tamanha importância. A implementação das cotas para os negros no Ciência sem Fronteiras será a maior revolução da história do negro brasileiro na educação”, prevê o reitor. Já a Fundação Palmares, enviará uma manifestação para o Ministério de Ciências e Tecnologia a fim de cobrar a inclusão do afrodescendente no programa. “Estamos encaminhando ao Ministério de Ciência e Tecnologia, uma manifestação ao ministro Aloizio Mercadante, para que ações afirmativas sejam adotadas incluindo a população negra nesse programa tão atual”, completa Elói.
Afirmativas e o seu estabelecimento nos projetos, atividades e programas do governo brasileiro. A ideia é muito boa, porque vai dar uma dimensão internacional da capacidade do negro e da negra de se incluírem e depois ter condições de acessarem aos bens econômicos e culturais. Isto vai com certeza enriquecer a juventude estudantil dos negros e negras que forem selecionados para participar desse projeto”. Vale ressaltar que no dia 26 de julho, durante a reunião do CDES, a presidente tomou tal iniciativa após o manifesto do reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente, que é membro do conselho há quase dois anos. Quando o ministro da Ciência e Tecnologia Aloizio Mercadante apresentou o projeto a ideia inicial era de que o direito às vagas seria através do mérito. Seriam selecionados alunos das 30 maiores universidades do país. Assim que os conselheiros tiveram direito a palavra o professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, Naomar de Almeida Filho, pesquisador do CNPq, solicitou que os pobres tenham acesso às bolsas, inclusive sendo considerados os es-
tudantes do ProUni. Já o reitor da Zumbi, fez questão de reforçar a importância de incluir afrodescendentes. “Não podemos jogar pela janela a oportunidade de fazer a abolição. E isso acontece através da educação”, disse José Vicente. Prontamente a presidente pediu ao ministro Mercadante que tome providências quanto às alterações. Uma das discussões em torno da elaboração do projeto é que entende-se que muitos dos alunos de baixa renda não tiveram acesso à formação intelectual necessária para cumprir os requisitos necessários para a aceitação no programa, como fluência em pelo menos uma língua estrangeira, por exemplo. “A população negra poderá ser incluída de forma igualitária e de forma a ser reconhecida, que não fique na invisibilidade, com a implantação de cotas ou mesmo a destinação de um percentual dessas vagas para o ingresso de negros no programa. Se são 75 mil vagas, que se estabeleça 20% ou 30% para os jovens negros que estão saindo das universidades brasileiras. Outro exemplo, das 75 mil vagas, 20 mil sejam reservadas aos negros”, afirma Elói Ferreira de Araújo.
No programa Ciência sem Fronteiras, as áreas prioritárias são: Engenharias e demais áreas tecnológi-
Fármacos; Produção Agrícola Susten-
de Desastres Naturais;Tecnologias de
cas; Ciências Exatas e da Terra: Físi-
tável; Petróleo, Gás e Carvão Mineral;
transição para a economia verde; Bi-
ca, Química, Geociências; Biologia,
Energias Renováveis; Tecnologia Mine-
odiversidade e Bioprospecção; Ciên-
Ciências Biomédicas e da Saúde;
ral; Tecnologia Nuclear; Biotecnologia;
cias do Mar; Indústria Criativa; Novas
Computação e Tecnologias da Infor-
Nanotecnologia e Novos Materiais;
Tecnologias de Engenharia Constru-
mação; Tecnologia Aeroespacial;
Tecnologias de Prevenção e Mitigação
tiva; Formação de Tecnólogos.
34
Afirmativa Plural • Edição 39
Ilustração: http://www.cienciasemfronteiras.cnpq.br
Áreas prioritárias
Foto: © Dean Mitchell - Dreamstime.com
educação
A Zumbi está à frente do movimento nacional “Ciência sem Fronteira Plural”, que desde o dia 15 de agosto iniciou a coleta de assinaturas a fim de garantir a participação dos negros nas 100 mil bolsas de graduação, mestrado, doutorado e pós doutorado no exterior. As bolsas fazem parte do “Programa Ciência Sem Fronteiras”, do Ministério da Ciência e Tecnologia. A iniciativa nasceu do apelo do reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente, durante uma reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), da Presidência da República. Na ocasião, José Vicente fez questão de ressaltar a importância da inclusão do negro na distribuição das bolsas. “É importante que o recorte do negro seja incluído nessa iniciativa do Go36
Afirmativa Plural • Edição 39
verno Federal. É uma oportunidade única, que não podemos e não iremos perder”, afirmou José Vicente. O abaixo assinado da campanha “Ciência sem Fronteira Plural” está disponível no site da Afrobras – Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural (www www.. afr obras.org.br ), no site da Faculdaafrobras.org.br de Zumbi dos Palmares (www www.. zumbi dospalmar es.edu.br ) e no site da dospalmares.edu.br Afrobrasnews - Agência Internacional de Notícias Afroétnicas (www www.. afr obrasnews.com.br ). Além disso, os afrobrasnews.com.br alunos farão campanha em alguns locais de grande circulação como estações de metrô e postos do Poupatempo, como também nas entidades afrodescendentes. Interessados também podem assinar o abaixo assinado na sede da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo.
Garantir o acesso dos negros nestas bolsas de estudo além de contemplar a maioria da população brasileira (os negros somam 53% da população de acordo com censo 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE), significa garantir que o Brasil ande em compasso com países desenvolvidos, nos quais o diferencial é o conhecimento e a competência, não a cor da pele. Disponibilizar que uma parcela significativa dos brasileiros, considerando o recorte para cor e situação financeira, tenham acesso ao desenvolvimento através da educação e do contato com outras culturas é uma forma de trazer para o Brasil profissionais cada vez mais preparados para o crescimento do país e para a economia brasileira.
educação
educação
Por Naomar de Almeida Filho*
Desafiada por Obama, Dilma Rousseff lança o programa Ciência sem Fronteiras, oferecendo 75 mil bolsas de estudos no exterior. Em fase de elaboração, o programa levanta polêmicas. Por um lado, prioriza somente áreas tecnológicas, principalmente engenharias, onde haveria menor capacidade nacional de formação. Por outro, encaminha os bolsistas às melhores universidades do mundo em cada área, numa lista feita com base em rankings internacionais. Serão inéditas 25 mil bolsassanduíche de graduação. Aplausos! Mas aqui antevejo dois problemas. Primeiro, há incompatibilidade entre as estruturas curriculares dos países receptores e o arcaico regime de formação linear que adotamos no Brasil. Na América do Norte e na Europa, egressos do ensino médio em geral não entram diretamente em 38
Afirmativa Plural • Edição 39
cursos profissionais. Por mais sem fronteiras que se pretenda o programa, não cabe esperar que as universidades estrangeiras se submetam ao modelo brasileiro, ainda bonapartista. O segundo problema é mais preocupante. O critério principal de seleção dos estudantes será (e não poderia ser diferente) o domínio do idioma inglês. Ora, este é justamente o novo divisor de classes no Brasil, onde jovens pobres (ou da “nova classe média”, como dizem alguns) nunca fizeram intercâmbio nem tiveram bons cursos de inglês ou acesso livre à web. Em contraste, os filhos da classe média/alta urbana, fração dominadora da sociedade, tendencialmente são bilíngues e cosmopolitas. A se manter tal critério de seleção, o Estado brasileiro custeará programas de estudos nas melho-
res universidades do mundo justamente para aqueles que já dispõem de capital econômico, cultural, social e político. Nesse cenário, a perversão da educação superior completaria uma dinâmica de mal-efeitos: (i) o ensino básico público não prepara seus alunos para acesso às universidades públicas, que (ii) têm ensino de melhor qualidade e que, por isso, recebem em maioria alunos de classe média e alta que, (iii) adestrados pelo ensino médio privado e caro (porém subsidiado por maciça renúncia fiscal), garantem aprovação nos duros processos seletivos das instituições públicas. Excluir do programa justamente aqueles que mais necessitam de apoio social, jovens de grande potencial, talentosos, porém pobres, apartados da cultura dominante no mundo globalizado, será a quarta perversão, inominável iniquidade.
Foto: Célia Aguiar
Proponho duas soluções imediatas:
educação
1) cotas sociais para acesso ao programa, sem prescindir do domínio de língua estrangeira; 2) programas intensivos de preparação realizados na universidade brasileira, com estágio na instituição estrangeira, prévio ao curso. Tais medidas podem ser exigidas nas parcerias interinstitucionais. Mas há uma solução estratégica e sustentada. Compreende a implantação no Brasil do regime de ciclos, especialmente na modalidade bacharelado interdisciplinar, compatível ao “college” norte-americano e ao “bachelor” de Bolonha. Esse regime já existe em 13 universidades públicas brasileiras, com mais de 9.000 alunos. Ampliá-lo, por um lado, supera a incompatibilidade entre currículos; por outro, permite preparar alunos de origem social humilde nos repertórios linguísticos e culturais requeridos, além de acolher com mais facilidade os créditos cursados no retorno. Precisamos tornar a internacionalização da educação superior brasileira um instrumento de desenvolvimento social, competente e justo.
* Naomar de Almeida Filho, pesquisador 1-A do CNPq, é professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, da qual foi reitor. Artigo publicado na Folha de S. Paulo, 1/8/2011
Edição 39 • Afirmativa Plural 39
Foto: Diego Grez
educação
Por Rejane Romano
40
Afirmativa Plural • Edição 39
Foto: Arquivo pessoal
O ambiente escolar é considerado o local onde além de lições de matemática, português, história..., aprende-se sobre cidadania e respeito ao próximo. Então como entender que justamente neste local ocorra diferenciação entre indivíduos por causa da cor da pele? Mais incompreensível ainda é entender que esta discriminação muitas vezes parte do próprio professor. Para entender como a discriminação racial interfere na vida do aluno e o quanto é prejudicial, podendo inclusive ter reflexos na formação profissional deste, o NEPRE (Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação), da Universidade Federal de Mato Grosso, realizou uma pesquisa que constatou que a cor da pele é um dos fatores que mais influenciam no desempenho escolar. Segundo a pesquisadora Maria Lucia Rodrigues Müller, apesar desta confirmação, o que surpreende a cada pesquisa realizada pelo núcleo é a permanência do mito da democracia racial. “Professoras, diretoras e demais membros das equipes das escolas não percebem o que fazem, o tratamento que dispensam às crianças e jovens negros. Quando inquiridas sempre fazem questão de dizer que em sua escola não há racismo ou discriminação racial. Não percebem que são mais impacientes com os alunos negros, que atribuem a eles o protagonismo numa briga entre alunos, que os deixam completamente desprotegidos nas interações conflituosas. Também não percebem a solidão deles dentro da escola”. Maria Lucia diz ainda que estas são algumas das posturas assumidas pelos professores e que ao longo do tempo podem levar à evasão escolar.
educação
Maria Lucia Rodrigues Müller
“A criança negra que se sente inferiorizada costuma ter duas reações básicas. Se defende, briga, protesta, reclama com os adultos ou se isola para evitar os insultos raciais. Pelos depoimentos que temos, uma ou outra reação provoca sofrimento. O menino ou a menina que briga, tem que brigar o tempo todo para fazer valer seus direitos”, afirma a pesquisadora. Os pais tem papel importante na identificação do comportamento do filho, quando de fato se trata de discriminação racial. A criança ou jovem conta em casa o que acontece na escola ou simplesmente silencia. “Em famílias que tem a aprendizagem escolar em alta conta, a criança fica receosa em desapontar os pais e se cala”, explica.
“
O silêncio fortalece o agressor e dá à vítima a impressão de impunidade. Mas mesmo nestes casos em que a criança ou jovem silencia, há indícios que falam por si. Uma tristeza constante, uma irritabilidade sem motivo, podem ser sinais reveladores. Para tanto, os familiares devem procurar saber o que aconteceu e conversar muito, sempre reforçando a autoestima do filho, mostrando todas as suas qualidades. Mas isto não é suficiente. É importante ir até a escola, informar o acontecimento e não aceitar as desculpas da equipe pedagógica. Ela, em geral, minimiza o acontecido, coloca a culpa na vítima ou nega o racismo, com a desculpa que naquela escola “não há racismo”. “Enfim, as tentativas de encobrir a discrimina-
O silêncio fortalece o agressor e dá à vítima a impressão de impunidade
”
Edição 39 • Afirmativa Plural 41
educação
outras entidades que defendam os direitos da população negra também é muito importante”. A pesquisadora ressalta o papel dos educadores. “Os professores poderiam ter um papel pedagógico importantíssimo se ajudassem seus alunos a perceber o mal que é causado a eles quando se deparam com este tipo de situação. Mas, em geral, na escola, a criança que se percebe diferente não
encontra apoio dos adultos, inclusive de seus professores. Uma alternativa para esta situação seria a implementação da Lei 10.639/2003 de ensino de História da África e Cultura Afrobrasileira, tendo como papel primordial a desconstrução do imaginário social controverso que há no Brasil. “A 10.639/2003, que modificou o artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional -
Foto: J.C
ção racial são quase sempre as mesmas”, reforça a pesquisadora. Maria Lucia explica também que quando os pais e familiares não conseguem resultado na escola, é importante procurar outras autoridades educacionais, a Secretaria de Educação ou Assessoria Pedagógica. “Cada Estado e município tem diferentes tipos de autoridade educacional. Buscar o apoio do Movimento Negro ou
“
Eu estudei sempre em escola pública, primeiro municipal e depois estadual. Mesmo assim era uma das poucas negras na sala, no máximo éramos em duas ou três. Enfrentei muito as piadinhas e brincadeiras de mau gosto. Eu odiava isso. O complicado é explicar para uma criança de 10, 12 anos que ela terá que passar por cima disso, por este tipo de agressão. Os professores que poderiam conter isso não estão preparados. O pior disso é ter crianças retraídas por causa dessa situação. Hoje se fala muito de bulliyng, mas isso é antigo, já passávamos por estes problemas. A gente se defendia sozinho ou se tornava uma criança problemática.
Joyce Ribeiro Jornalista
42
Afirmativa Plural • Edição 39
”
“
Eu, Graças a Deus, nunca sofri nenhum tipo de preconceito seja na escola, seja em qualquer lugar, pelo menos não que eu saiba. Mas já tive o desprazer de ouvir pais de alunos meus, na época em que dava aula de teatro para crianças, insatisfeitos porque o filho fazia dupla com outro aluno que era negro ou de uma outra classe social. O que me fazia colocar, cada vez mais, ambos os alunos em contato, para ensinar, não às crianças, que tem o coração puro quando não contaminados por tais tipos de “pais educadores”, mas a estes ”pais” que são a origem de toda formação de seus filhos.
Foto: TV Globo/Renato Rocha Miranda
educação
”
Samuel de Assis Ator
LDBN, possibilita rebater a desinformação provocada pela história oficial, e assim, mostrar a contribuição de africanos e seus descendentes para a construção da sociedade brasileira. Pelo menos essa é a nossa aposta. Ministramos cursos de formação continuada para professores sobre os conteúdos da 10.639 desde novembro de 2003. Ao final dos cur-
sos, quando solicitamos aos alunos que nos avaliem e avaliem nossos cursos, sempre recebemos o comentário que os alunos nunca antes tinham recebido as informações passadas no curso. Quer dizer, houve muito investimento em passar informações negativas sobre a população negra, daí se nutre o racismo e a discriminação racial”, afirma Maria Lucia.
Outra alternativa é trabalhar as crianças brancas que trazem o preconceito racial de casa. “Essas crianças precisam aprender a necessidade de respeitar as pessoas independente de sua cor, ou raça e informando intensamente à família preconceituosa que a escola não irá admitir nenhum tipo de comportamento discriminatório”, diz a pesquisadora. Edição 39 • Afirmativa Plural 43
Foto: Kazuo
educação
“
Felizmente nunca tive problemas raciais nas escolas que estudei. Apesar de sermos em poucos alunos negros, nada sofri nas instituições de ensino. Sem dúvida a discriminação afeta o rendimento escolar, pois o aluno que sofre tal preconceito se sente diminuído e, portanto, sem estímulo para estudar.
”
Deise Nunes Única negra a ganhar o título de Miss Brasil (1986)
Maria Lucia explica que todo este cuidado se faz necessário porque a vida adulta destas crianças e jovens pode ser irreversivelmente alterada por conta da discriminação sofrida na escola. Há relatos de professoras negras que contam como suas famílias foram importantes para reforçar sua auto-estima quando eram crianças e se depararam com episódios de discriminação dando a volta por cima. Por outro 44
Afirmativa Plural • Edição 39
lado, dos poucos estudos sobre o assunto, quando se questiona as vítimas de discriminação na escola, quais foram as consequências desses agravos, os mesmos indicam que as marcas permanecem, mesmo durante a vida adulta. “Certamente interfere no futuro profissional, a não ser que a pessoa tenha uma rede de apoio, familiares, amigos, movimento social, que lhe assegurem que o problema não é in-
dividual, não é seu, mas sim de quem cometeu o ato preconceituoso, que é quem sofre de uma patologia social. Então, assegurada sua auto-estima, a pessoa que foi vítima de discriminação racial pode prosseguir para o futuro, ‘armada’ de apoios emocionais que lhe permitam enxergar-se com todas suas potencialidades e não pelos olhos dos racistas”, esclarece a pesquisadora do NEPRE.
Foto: Liqdlibrary.com
cidadania
Por Vivian Zeni
Pesquisa do IBGE aponta preferência do brasileiro em ser identificado como negro Os afrodescendentes brasileiros preferem se autodeclarar negros e não de pretos. É o que revela o estudo “Pesquisa das Características Étnico-Raciais da População: um Estudo das Categorias de Classificação de Cor e Raça (PCERP)” divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa foi realizada em cinco Estados do país, mais o Distrito Federal (Amazonas, Paraíba, São Paulo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso), durante o ano de 2008 com pessoas maiores de 15 anos. O levantamento tem por objetivo embasar as discussões do IBGE sobre os critérios 46
Afirmativa Plural • Edição 39
de classificação racial utilizados nas pesquisas do instituto e eventual necessidade de mudanças. Tradicionalmente o IBGE oferece aos entrevistados, quando pesquisa cor ou raça, cinco opções: branco, preto, pardo, amarelo ou indígena. Utilizando as opções oferecidas pelo instituto, 96% das pessoas afirmaram saber sua própria cor ou raça, utilizando fatores como a cor de pele 74%, a origem familiar 63% e traços físicos 54% como critério para essa definição. Quando opções não foram oferecidas, 49% das pessoas se autodeclararam brancas, 14% pardas, 8% negras, 1,5% amarelas e 1,4% pretas.
Termos como moreno 19% e moreno claro 3% também foram citados. Pela primeira vez a população afrodescendente preferiu se autodefinir como negra em sua maioria. O PCERP revelou ainda que 63,7% dos entrevistados consideram que cor de pele ou raça exerce influência na vida das pessoas. Ainda para 71% dos pesquisados essa influência é sentida com mais intensidade no trabalho, seguido das relações com a justiça ou a polícia, com 68%. O IBGE afirma que outros estudos serão feitos antes dos critérios utilizados em pesquisas (relacionados a cor e raça) sejam modificados.
Pesquisa IBGE - Características Étnico-Raciais da População 49,0%
Branca 18,7%
Morena
A cor ou raça tem influência na vida das pessoas?
13,6%
Parda 7,8%
Negra Preta
1,4%
Amarela
1,5% Percentual dos que responderam sim, por Estado
0,8%
Brasileira Mulata
0,6%
Mestiça
0,6%
Alemã
0,5%
Clara
0,4%
Paraíba
Italiana
0,4%
Mato Grosso
Indígena
0,4%
Rio Grande do Sul
77,0
Distrito Federal 65,4
São Paulo
1,4%
Outras
Não 36,3%
Sim 63,7%
3,0%
Morena clara
63,0 59,6 57,9
Amazonas
54,8
Percepção de situações em que a cor da pele ou raça tem influência O entrevistado podia dar mais de uma resposta 71,0%
68,3%
65,0%
59,3%
51,3%
44,1%
38,4%
Trabalho
Relação com justiça/polícia
Convívio social
Escola
Repartições públicas
Atendimento à saúde
Casamento
CLASSIFICAÇÃO DO ENTREVISTADO X CLASSIFICAÇÃO DO ENTREVISTADOR Entrevistado (autodefinição)
PERCEPÇÃO DAS PESSOAS SOBRE SUA ORIGEM FAMILIAR
Entrevistador (avaliação externa)
Branca
49,0% 21,7%
Morena
13,6% 7,8%
56,2% 9,3%
Parda Negra
22,5% 8,4%
1,4%
Preta
1,0%
1,5%
Amarela
1,2%
0,4%
Indígena 0,2%
Europeia
43,5%
Indígena
21,4%
Africana
11,8%
Sul-americano (não brasileiro)
2,3%
Sudeste asiático
1,6%
Oriente médio, síria, libanesa, armênia
0,9%
Judaica
0,6%
Centro-americana
0,3%
Norte-americana
0,3%
Outra
6,3%
Não sabe
31,3%
Fonte: Folha de São Paulo - levantamento feito em 2008 pelo IBGE em cinco Estados, mais o Distrito Federal. Edição 39 • Afirmativa Plural 47
cidadania
cul t ura & conscientização *Por Andrea Matarazzo
Sabemos que a cultura é um dos fatores que mais fortemente influenciam a construção e a manutenção da identidade de um grupo. Por isso, consideramos que investir nas manifestações artísticas de origem afrobrasileira é uma forma de ação afirmativa com benefícios imensuráveis para o combate às desigualdades raciais no País. Ao fomentar as manifestações ligadas à população negra brasileira, estamos ajudando a promover sua autoestima e contribuindo no seu fortalecimento para o debate, ao mesmo tempo em que possibilitamos ao todo da sociedade, indistintamente, acesso a conhecimentos sobre aspectos culturais que estão na base do que foi e do que é o Brasil. Neste sentido, é preciso lembrar que a cultura afrobrasileira conhecida mais comumente por suas manifestações tradicionais – o afoxé, o candomblé, o samba, dentre outras 48
Afirmativa Plural • Edição 39
– se apresenta de maneira fortíssima também em formas de expressão muito contemporâneas e cosmopolitas, a exemplo do hip-hop.
Quem tem a tarefa de gerir uma política pública cultural preocupada com a diversidade precisa ter questões como estas em vista. Precisa, acima de tudo, fomentar discussões, atuar para a conscientização da sociedade e, desta forma, dar alguma contribuição para o enfrentamento à discriminação racial. As iniciativas que temos adotado no Estado de São Paulo buscam refletir este posicionamento. O Programa de Ação Cultural (ProAC) é um exemplo desse olhar cuidadoso sobre a diversidade. Criado para apoiar a produção artística independente com recursos próprios da Secretaria de Estado da Cultura, o ProAC promove em seus editais específicos tanto o apoio às culturas tradicionais, em que se incluem as comunidades quilombolas, quanto o incentivo à prática do hip- hop. Esta manifestação essencialmente urbana e jovem agrega não só a música e a dança, mas também o graffiti e to-
Foto: Márcia Alves
das as novas vertentes que possam surgir desses elementos principais. Pensando nisso, anualmente, a Secretaria promove o Encontro Paulista de Hip-Hop, trazendo jovens de todo o Estado. A Secretaria de Cultura também precede as comemorações da Semana da Consciência Negra, em novembro, com atividades voltadas à conscientização. Não será diferente em 2011, declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Ano Internacional para os Afrodescendentes. Em março, abrimos as atividades referentes ao tema com o lançamento da agenda da Secretaria da Cultura voltada às atividades com recorte étnico-racial. Na mesma ocasião, lançamos também o livro Consciência Negra em Cartaz, com 51 pôsteres escolhidos entre os mais de 1.500 produzidos por designers, publicitários, artistas plásticos e estudantes para a campanha O que é Consciência Negra para você? Os cartazes selecionados compuseram uma bela exposição na Sala São Paulo e levaram o tema também para o público que veio assistir os concertos da Osesp. Entre julho e agosto próximos, lançaremos uma nova campanha, desta vez estimulando a sociedade a utilizar o formato vídeo para opinar sobre a questão racial. A criação dessa agenda permanente ao longo do ano é essencial para que o debate não fique restrito às atividades festivas do Dia da Consciência Negra. Neste sentido, além das campanhas e atividades pontuais, o Museu Afro Brasil, mantido pelo Governo de São Paulo, se destaca como espaço nobre para a descoberta da história, com seu acervo permanente; e de novos aspectos da
cidadania
Andrea Matarazzo
cultura africana e afro-brasileira, por meio das exposições temporárias. Tudo para que realmente tenhamos o que comemorar no grande dia 20 de novembro, que em 2011 será marcado por atividades culturais com 24 horas de programação.
Acreditamos que cultura é consciência. Desta forma, estimular a reflexão é também papel de quem promove a política cultural. *Andrea Matarazzo é Secretário de Estado da Cultura de São Paulo.
Edição 39 • Afirmativa Plural 49
especial
Por Rejane Romano
Este ano, 2011, é um ano para entrar para a história de todos os afrodescendentes espalhados pelo mundo. Ainda em 10 de dezembro de 2010 foi oficializado pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Kimoon, 2011 como o Ano Internacional dos Afrodescendentes. Na ocasião o secretário disse: “Vamos todos intensificar os nossos esforços para assegurar que os povos afrodescendentes possam gozar de todos os seus direitos”. Direitos estes que em algumas nações parecem apenas utopia. Um sonho distante. Mas que agora têm ao menos a promessa e empenho de se tornarem realidade. Rebecca Reichmann Tavares, representante da ONU Mulheres Brasil e Cone Sul desde agosto de 2009, tem mais de 20 anos dedicados aos temas de justiça social, igualdade racial e defesa dos direitos humanos e das mulheres, fala sobre como os esforços que a Organização das Nações Unidas - ONU têm se intensificado. “O primeiro deles foi trazer o tema para o cenário internacional, marcan50
Afirmativa Plural • Edição 39
do os 10 anos da III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas que resultou na Declaração e no Plano de Ação de Durban. A intensificação dos esforços pode ser entendida como uma estratégia de fazer valer o consenso mundial obtido na Conferência de Durban e estimular ações práticas contra o racismo e todas as formas de discriminação contra os povos afrodescendentes”. A informação divulgada é de que partiu da Assembleia-Geral da ONU a iniciativa de homenagear os povos de origem africana. De acordo com a representante da ONU Mulheres “a ONU está comprometida com a superação do racismo e das desigualdades raciais e isso pode ser observado com a liderança do SecretárioGeral, Ban Ki-moon, e da Alta Comissária dos Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay”. O objetivo é que a reverência aos povos de origem africana se materialize em direitos, acesso às políticas públicas e participação igualitária em todos os níveis da vida so-
cial no Continente Africano e na diáspora. Tomar esta iniciativa é reconhecer a discrepância ainda persistente na sociedade atual, quanto às diferenças entre negros e brancos. E mais, é também trazer o problema do racismo para a sociedade mundial, governos e setores estratégicos da vida política e econômica. “A eliminação do racismo e das desigualdades raciais será possível com o envolvimento de todas as pessoas, a exemplo de brancos e negros. Numa parceria entre a Fifa e a ONU, na Copa de 2010 vimos uma ação ousada, inovadora e estratégica de unir os povos – no caso representados pelas seleções de futebol – em torno de uma mensagem forte de dizer não ao racismo, o que surpreendeu e emocionou milhões de pessoas em todo o mundo”, recorda a Dra. Rebecca, que é graduada pela Yale University e doutora pela Harvard Graduate School of Education. Na prática, o Ano internacional dos Afrodescendentes, mais uma vez reafirma metas da Conferência de Durban, em 2001, que foram reafir-
Foto: Divulgação
especial
Ban Ki-moon
Edição 39 • Afirmativa Plural 51
especial
madas na Conferência de Revisão de Durban, em abril de 2009, que se referem a integração e promoção da equidade racial estabelecidas pelos países-membros da ONU. Neste ano emblemático podemos destacar a coleta e a produção de dados desagregados de raça e etnia nos censos populacionais como um dos principais avanços nos últimos 10 anos. Nas Américas, por exemplo, este tema ganhou força devido à mobilização de homens e mulheres negras. Pela primeira vez, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Equador e Panamá incorporaram a variável racial e étnica nos censos. Antes somente nove países tinham esse levantamento. As primeiras análises estão trazendo um novo retrato da população negra, que pode dar a base para a melhoria das políticas públicas. Além disso, a Declaração e o Plano de Ação de Durban são categóricos com relação às ações que devem ser implementadas pelos governos, sociedades e setores estratégicos da vida social. “Por ser um catalisador do conhecimento e da socialização, a educação é abordada na perspectiva de direitos humanos, não discriminação para crianças, jovens, adultos, funcionários públicos e outros profissionais”, reforça a representante da ONU Mulheres, destacando a importância da educação como forma de evitar que os indivíduos não sejam marginalizados devido a cor da pele. No Brasil, vale ressaltar que o país tem a liderança no cenário internacional pela institucionalização dessa política por meio da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR e instrumentos como o Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial, o Esta52
Afirmativa Plural • Edição 39
tuto da Igualdade Racial e a Política Integral de Saúde da População Negra. “Segunda nação no mundo em população afrodescendente, o Brasil vem colaborando para que outros países também avancem em termos de políticas públicas de combate ao racismo e inclusão social. Neste momento, a ONU Mulheres está acionando uma rede de parceiros para incentivar o potencial produtivo e empreendedor das mulheres negras no acesso às oportunidades econômicas que estão surgindo no contexto da Copa de 2014 e das Olimpíadas”, destaca a Dra. Rebecca. Apesar da política pública brasileira ser destaque quanto a projetos e ações em busca da equidade racial é vergonhoso assumir que ainda hoje, diga-se de passagem, principalmente num ano de valor tão especial, grupos autodenominados como skinheads ataquem pessoas negras em plena Capital Paulista. “Esses comportamentos demonstram um elevado grau de intolerância, que é o da agressão e do atentado contra a vida de cidadãos e cidadãs pelo seu pertencimento racial e étnico. É fundamental apurar os fatos e punir rigorosamente nos termos da lei essas agressões. Acredito que também é importante continuar investindo na mudança cultural, buscando novas estratégias e setores para enfrentar o racismo e trazer valores de respeito à diferença”, acredita. Rebecca Reichmann, que tem vários livros publicados e grande produção sobre racismo no Brasil, igualdade racial, direitos das mulheres e microfinanças na América Latina, prevê ainda mudanças quanto a situação da mulher negra brasileira, que quanto ao desemprego tem a porcen-
tagem de 9,5% entre as mulheres pretas ou negras, enquanto a desocupação está em 6,8% entre as mulheres brancas, 4,2% entre os homens brancos, segundo os dados do IBGE. “O governo brasileiro tem estratégias para dar respostas a essa realidade, a exemplo do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e de Promoção da Igualdade Racial. A ONU é uma das principais parceiras destas iniciativas e também vem dando respostas em ações coordenadas com os governos e a sociedade civil. No contexto de Durban, a ONU Mulheres (antes UNIFEM) colaborou para a criação da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras e segue com apoio contínuo à conquista de direitos das trabalhadoras domésticas, composta, em sua maioria, por mulheres negras. Desde 2005, temos programas contínuos em que os direitos das mulheres negras são priorizados. Atualmente, a nossa ação se realiza no Brasil, Bolívia, Guatemala e Paraguai por meio do Programa Regional de Gênero, Raça, Etnia e Pobreza, que tem como meta incorporar essas dimensões nos programas de combate à pobreza. No Brasil, somos a agência líder do Programa Interagencial de Gênero, Raça e Etnia, financiado pelo Fundo para o Alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que visa promover a igualdade entre os gêneros, entre mulheres brancas e negras e o empoderamento de todas as mulheres na gestão pública, na participação social e na comunicação”. As bases estão fincadas, agora é esperar que a estrutura seja firme o bastante para perseverar perante os tremores causados por aqueles que lutam contra uma sociedade justa e de fato para todos.
Foto: Divulgação
especial
Rebecca Reichmann Tavares
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*Por Dulcinéia Novaes
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Foto: Socorro Araújo
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Ela é linda, ativista do movimento negro, primeira mulher negra formada em Ciências Sociais em Curitiba a se tornar uma Doutora em Sociologia. Com muito orgulho, sim senhor! Marcilene Garcia de Souza ou simplesmente Lena é uma pérola negra. O semblante sereno, o jeito doce de falar, porém firme, não deixam transparecer o caminho espinhoso que trilhou até chegar onde está. Nasceu em uma família numerosa de nove irmãos. Filha de mãe preta e não alfabetizada, trabalhadora rural, de valores e caráter inestimáveis. Filha de pai branco, autodidata nas letras e que, a seu modo ensinou a prole a ler e a escrever e ainda foi professor de adultos em área rural, no interior de Minas Gerais. Pai e mãe exemplos de luta. Aos cinco anos de idade a caçula da família já aprendia as primeiras letras e cálculo matemático. O pai escrevia e fazia leituras para os filhos. A professora doutora se refere à família com muito carinho e respei-
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to: “Havia uma valorização da escola na minha casa. Mesmo à luz de velas, as tarefas da escola eram acompanhadas pelo meu pai ou irmãos. Sempre havia muita conversa. Eram os chamados “causos”. Eu passei a chamar de “diálogos de amor”. Eram histórias reais da vida dos meus familiares e amigos com uma mensagem moral”. Tudo isso foi aguçando o desejo de saber ler e escrever na pequena Marcilene. A família também morou no Estado de Santa Catarina que tem, segundo as estatísticas, e muito bem enfatizado pela professora, o menor percentual de negros do País. Viviam numa localidade, em que eram os únicos negros da região. Ali começou a perceber o que era discriminação. “As formas de discriminação sociorracial na escola eram cotidianas. Como muitos negros no Brasil eu não me lembro de ter muitas lembranças boas da escola em função das humilhações sofridas sobre minha pele, meu cabelo... Tive uma professora negra na primeira série, que se chamava Raquel. Ela me fazia me sentir importante porque “ela” era negra e eu e meu irmão também... E eu me mirei muito nela, nas minhas memórias”, lembra Marcilene. Tirar as melhores notas foi o meio de inserção que ela encontrou. Quando estava na quinta série, tinha que caminhar 11 quilômetros pra chegar na escola. Era uma menina de nove anos, sozinha, sem guarda-chuva ou sapato, como ela faz questão de frisar e, numa estrada sem luz, correndo riscos. Mas a vontade de vencer a impelia pra frente, contra todos os obstáculos.Via colegas desistirem da dura jornada. Viu um irmão desistir de estudar. Mas ela, não.
“Caminhava para a escola querendo chegar a algum lugar. Um lugar que a escola prometia me levar” – diz a socióloga.
“
Assim, ir para a escola passou a ser uma espécie de ritual diário que eu tinha que fazer para poder passar logo aquele tempo de pobreza e vulnerabilidade para um dia “vencer na vida” e ajudar minha família ...
”
Em 1988 mudou-se para Curitiba. A irmã, Maria Lúcia de Souza ajudara a reorganizar o Movimento Negro na cidade e fez Marcilene perceber que não havia problema nenhum em ser negra: “O problema estava no racismo que impedia a cidadania dos negros”, alfineta ela. Apesar da pouca idade, Marcilene era uma adolescente engajada. Já lia livros de Abdias do Nascimento e Clóvis Moura, entre outros autores, e frequentava as reuniões do movimento. Em 93, Marcilene ajudou a coordenar e se beneficiou de uma das primeiras ações afirmativas para inclusão dos jovens negros na Universidade, através de um programa de bolsa em cursinhos pré-vestibulares. Aos 17 anos ela foi aprovada no Curso de Ciencias Sociais da Universidade Federal do Paraná. Na graduação pesquisou Saúde da População
Negra (negro e câncer) e na conclusão de curso produziu monografia sobre a Invisibilidade do Negro em Curitiba. E de lá pra cá não parou mais. É de uma trajetória acadêmica brilhante! Em 2001, no Mestrado em Sociologia pesquisou a “Juventude Negra em Curitiba com foco no Movimento Hip-Hop”. Em 2005 foi selecionada no IV Concurso Negro e Educação da Ação Educativa da Fundação Ford, com o estudo sobre “Movimento Hip Hop em Educação em Curitiba”. Professora universitária, no Curso de Direito. E, aos 30 anos, em 2007 começou o doutorado em Sociologia na Universidade Estadual Paulista e também selecionada no Programa Internacional de Bolsas de Pós-Graduação da Fundação Ford, considerado um dos mais importantes programas de ação afirmativa em pós-graduação do País. Finalmente em 2010 concluiu o Doutorado em Sociologia pela UNESP, com a tese sobre “Ações Afirmativas e a inclusão de negros por cotas raciais nos serviços públicos do Paraná”. De acordo com a pesquisadora, o Paraná foi o primeiro Estado brasileiro a construir uma política de ações afirmativas nos serviços públicos em âmbito estadual. Entre os muitos compromissos como bolsista, em 2008 viajou para os Estados Unidos também para conhecer um pouco dos programas na área de Direitos Humanos. Momento que ela considera inesquecível: “Eu vi, senti e assisti um dos grandes acontecimentos da história que foi a eleição de Barak Obama. Chorei muito de alegria e esperança”. Edição 39 • Afirmativa Plural 55
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Entre as conquistas coletivas, a mais recente está na coordenação do Livro Didático Africanidades Paranaenses, que faz parte da Coleção “África está em Nós: História e Cultura Afro-Brasileira”, da Editora Grafset. Um trabalho realizado em conjunto com mais três autoras negras: a professora e doutoranda Débora Cristina de Araújo; a professora e mestranda Maria Evilma Alves Moreira e a professora Neide dos Santos Rodrigues, além de uma equipe de mais seis pessoas que vivem no Paraná e ajudaram na coleta de dados. Segundo Marcilene, um dos principais objetivos do livro é o de
“
O que me move na luta é a certeza do meu compromisso com os nossos antepassados negros que foram assassinados, humilhados e torturados neste país por mais de 350 anos. São as lembranças deste passado que sempre me moveram para o futuro.
”
desconstruir idéias sobre a invisibilidade da população afrodescendente no Paraná, analisar a sua presença 56
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nos vários espaços sociais, e destacar suas características culturais: “Africanidades Paranaenses” apresenta contextos onde se pretende contar uma história mais justa do Paraná, considerando as contribuições e as resistências, a escravização, a situação e o cotidiano dos negros no Estado do Paraná. Contar a história do Estado a partir dos negros considerando a cultura paranaense como sendo de origem africana também”. O incentivo da família e nesse detalhe ela lembra sempre o que a mãe costumava falar de modo enérgico em alto e bom som: “Vocês tem de estudar!”, a militância no Movimento Negro, o contato com as lideranças, intelectuais negros e brancos, são fatores que Marcilene Garcia de Souza considera que tenham sido fundamentais para o seu desenvolvimento pessoal e sua trajetória acadêmica. Delicada e ao mesmo tempo firme em suas convicções, aos 34 anos
doutora Marcilene é um exemplo de mulher guerreira, contemporânea, determinada. “O que me move?” O que me move na luta é a certeza do meu compromisso com os nossos antepassados negros que foram assassinados, humilhados e torturados neste país por mais de 350 anos. São as lembranças deste passado que sempre me moveram para o futuro. Apesar dos desafios estou sempre lembrando que eu sou uma pessoa privilegiada nesta sociedade por ser mulher e negra, jovem e, por exemplo, não ter ajudado a somar as estatísticas sobre mortalidade infantil tão incidente entre nós negros; do desemprego que vitima preferencialmente as mulheres negras, pelas formas de violência que sofremos, pela exclusão educacional no ensino médio, sobretudo no ensino superior, mas fundamentalmente nas pós-graduações.” * Dulcinéia Novaes é jornalista e professora universitária, em Curitiba, Paraná.
Foto: Naija blog
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Carlos Moore
história viva
Por Vivian Zeni
“... Fela ia se matar. Ele achava que já não daria para continuar desde que tinham atacado sua casa, suas mulheres haviam sido estupradas, barbarizadas. Ele tinha caído em profunda depressão”. 58
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Carlos Moore é um dos poucos ativistas dos direitos dos negros no mundo a ter o privilégio de contar a história de um dos mais audaciosos músicos africanos de todos os tempos, Fela Anikulapo Kuti, o Fela Kuti. Moore é muito mais do que o biógrafo do inventor do Afrobeat. Nascido em Cuba, filho de pais jamaicanos, Moore deixou sua terra natal aos 15 anos, durante a guerra civil. Durante o período de exílio, que dura até os dias atuais, Moore morou na França, onde obteve os títulos de Doutor em Ciências Humanas e Doutor em Etnologia pela Universidade Paris. Moore esteve em contato com grandes nomes da história do negro mundial. Malcom X, Fela Kuti, Abdias do Nascimento, Alex Haley e Maya Angelou estão entre eles. Foi também consultor pessoal para Assuntos Latino-Americanos do Secretário Geral da Organização da Unidade Africana (atualmente União Africana), Dr. Edem Kodjo, professor visitante na Universidade Internacional da Flórida e assistente pessoal do professor Cheikh Anta Diop. Fluente em quatro línguas (espanhol, inglês, francês e português), Moore fixou residência permanente na Bahia, Brasil. Uma de suas grandes paixões. Talvez por isso, Carlos Moore tenha se empenhado tanto para que algumas de suas obras fossem publicadas em língua portuguesa. A editora Nandyala lançou em 2011 a versão em português do livro clássico “Fela: Esta vida puta”. A obra em língua portuguesa reúne artigos do próprio Moore, prefácio escrito por Gilberto Gil e depoimentos de grandes personalidades mundiais como: Stevie Wonder, Lázaro
Ramos, Zezé Motta, Chico César, Paulo Lins, Yeni Anikulapo- Kuti, Femi Nikulapo-Kuti, dentre outros. Além de “Fela: Esta vida puta”, outros livros escritos por Carlos Moore foram publicados em português como “A África que Incomoda” (Nandyala Editora, 2008) e “Racismo e Sociedade” (Nandyala, 2007).
Em outras línguas Carlos Moore ainda publicou “Castro, the Blacks, and Africa, 1989, (Castro, os negros e a África); Afro-American Culture and Society,1989 (Cultura Afro Americana e Sociedade); African Presence in the Américas,1995 (Presença Africana nas Américas).
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cultura
Por: Daniela Gomes Fotos: Divulgação
Intensidade. Esta é a palavra que melhor define as mais de 20 horas de música negra para todos os gostos que marcaram as apresentações do festival Black na Cena, o primeiro festival de música negra realizado no Brasil, mais especificamente, na Arena Anhembi em São Paulo. A celebração à cultura negra, que
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contou com um público total de mais de 27 mil pessoas que curtiram três dias dos mais variados shows. O evento teve início com grandes nomes da música brasileira, como Tony Tornado, Sandra de Sá, Farofyno e Seu Jorge, além do Baile do Simonal, que relembrou grandes sucessos do artista em uma homenagem presta-
da pelos filhos Wilson Simoninha e Max de Castro. O ponto alto da noite se deu na apresentação do músico norte-americano George Clinton, que subiu ao palco com sua banda composta por mais de 26 integrantes e agitou a plateia ao apresentar sucessos como “Something Stank” e “Free your
cultura
mind and your ass will follow”. Última atração da primeira noite, a apresentação do fundador do Parliament-Funkadelic, foi anunciada de surpresa pelos integrantes do Public Enemy, Chuck D e Flavor Flav. A festa continuou durante a celebração do aniversário de George Clinton, que comemorava 70 anos e recebeu de presente da produção bolo e um buquê de rosas.
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cultura
O segundo dia de festival foi marcado por público e atrações ecléticas, que condiziam com as diferentes vertentes da música negra que subiram ao palco. Com apresentações que foram do rap nacional ao reggae, iniciou-se com um show do rapper Xis, que lembrou sucessos como “De esquina”, “Us Mano, As Mina” e Chapa o Coco”. Entre os artistas convidados estavam ainda os músicos Marcelo Mira e Rincón Sapiência. A dinâmica de apresentações divididas em dois palcos, permitiu que os shows fossem realizados praticamente sem atrasos e após a apresentação de Xis, subiu ao palco o músico, Lee “Scratch” Perry. O cantor que se destaca como lenda do reggae e foi produtor de Bob Marley. Apresentou-se acompanhado de Mad Professor e trouxe músicas como “Soul Fire” e “CurlyLocks”. A apresentação do músico Marcelo Yuka, lembrou sucessos como “Minha Alma” e “Me deixa”. Além disso, Yuka usou seu tempo no palco para prestar homenagem a cantora Amy Winehouse e para criticar a ação das polícias pacificadoras no Rio de Janeiro. Em entrevista, Yuka falou ainda da importância de se tomar posições políticas em um evento como o Black na Cena, ao considerar o quanto o hip hop, principalmente nos Estados Unidos, perdeu sua essência política. Uma das mais esperadas atrações da noite, o grupo de rap norte-americano Public Enemy, não decepcionou os fãs ao levar ao palco clássicos como “PublicEnemy #1”, “Don’t believe the Hype” e “Fight the power”. Durante a apresentação, o
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cultura
grupo cativou o público com o jeito carismático dos músicos Chuck D e Flavor Flav. A apresentação contou ainda com a participação do músico Thaíde que, convidado ao palco, rimou junto com Chuck D, enquanto Flavor Flav usava a bateria para fazer as batidas no lugar das pickups. O músico surpreendeu também ao descer do palco para cumprimentar os fãs, que se aglomeravam para tentar tocá-lo. Em entrevista, o vocalista Chuck D, mais uma vez elogiou a qualidade do hip hop no Brasil e disse que o que vê como uma das melhores características do movimento no país é “o fato de aqui o rap ainda estar comprometido com o povo e não apenas com as pessoas ricas e a indústria musical”. A noite contou ainda com apresentações da Banda Black Rio, que teve entre os convidados, os rappers Criolo Doido, Negra Li, Slim Rimografia e a participação de Dexter. Além disso, durante o show do cantor de reggae Pato Banton, a plateia cada vez mais empolgada pode fazer contato direto com o músico. Banton, que trouxe dentre outros sucessos, a música “Go pato”, desceu do palco para falar com a multidão. A segunda noite se encerrou em clima brasileiro, com os sucessos de Jorge Ben Jor e da banda Olodum acompanhada do músico Carlinhos Brown. O último dia de festa foi marcado pelo maior público e por um único estilo musical: o rap. Com início às 14h00, a festa empolgou os presentes com clássicos do hip hop
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cultura
nacional e internacional. Com abertura de Russo, Bocage e Banda Soul 3, a festa seguiu com o Sandrão RZO, que trouxe sucessos como “O Trem”. Em entrevista, Sandrão destacou que “mesmo a nova geração do hip hop no Brasil, continua tendo como sua principal característica a originalidade”. A sessão nostalgia continuou durante toda a tarde. A apresentação do rapper Thaíde, foi marcada por clássicos como “Sr. Tempo Bom”, “Apresento meu amigo” e “Malandragem dá um tempo”, acompanhado da banda Funk como Le Gusta. O músico, que também foi MC do evento, destacou em entrevista a importância de mostrar ao mundo a qualidade do hip hop nacional. Ao cair da tarde subiram aos palcos as atrações mais esperadas do festival. O grupo de rap Naughty by Nature, trouxe clássicos como
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cultura
“O.P.P” e “Everythings Gonna be alright”. Ao entrar no palco, com pouco mais de meia hora de atraso, o grupo Racionais MC’s, acompanhado de toda a família Racionais, empolgou o público logo de início ao lembrar o sucesso “Tô ouvindo alguém me chamar”. Além de uma apresentação recheada de clássicos, como “Vida Loka parte I e II”, “Negro Drama”, e “Capítulo 4 versículo 3”, que fizeram o público presente no Anhembi cantar como um único coral, o grupo trouxe ainda músicas novas como “Sou Função”, em parceria com Dexter e “Cores e Valores”. Conhecido pelas mensagens que transmite durante as apresentações, o rapper Mano Brown, destacou ainda as dificuldades que se enfrenta ao ser um negro consciente. “Para cada negro assumido, um inimigo mais forte”, declarou. A surpresa final do festival se deu durante as últimas apresentações, anunciados como atrações separadas, os rappers norte-americanos Methodman e Redman, subiram ao palco juntos e levaram o público ao delírio com os clássicos da banda Wu Tang Clan. O grupo que mantém um grande número de fãs, dentre os aficionados por rap no Brasil, empolgou a plateia com suas brincadeiras e principalmente ao descer do palco e se jogar no meio do público. Enquanto deixavam o palco, alguns fãs afortunados conseguiram ganhar cds dos produtores. A apresentação encerrou o festival e fez com que o público que deixou o Anhembi no último dia de apresentações se sentisse satisfeito.
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Foto: J.C
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homenagem
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homenagem
No dia 26 de junho de 2011 um representante da luta pela inclusão do negro na sociedade através da educação disse adeus. Nesta data o ex ministro da Educação Paulo Renato faleceu de infarto fulminante. Um dos responsáveis pelo programa Diversidade na Universidade, cujo objetivo era promover o acesso de negros e indígenas no ensino superior, especialmente por meio do apoio a cursos pré-vestibulares com recorte étnico e racial na definição de sua população alvo. Ou seja, um projeto para aumentar o numero de estudantes negros nas universidades brasileiras, sobretudo nas universidades públicas, historicamente ocupadas por estudantes brancos e oriundos de famílias de classes média e alta. O Programa Diversidade na Universidade tratava-se de um projeto do Ministério da Educação (MEC), financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Um Programa que cumpriu papel importante para a entrada e o desenvolvimento da temática da diversidade étnica e racial na agenda política e social. O Diversidade na Universidade foi executado entre os anos de 2002 e 2007 e passou por uma série de reformulações internas que refletiam as mudanças na conjuntura política em relação à temática. A partir deste processo iniciou-se uma articulação e divulgação que fortaleceu a existência de políticas de acesso de estudantes negros e de baixa renda ao Ensino Superior público e sua permanência nele. O que ajudou a mobilizar as atenções da sociedade, da pedagogia, da pesquisa acadêmica e dos formuladores de políticas públicas para a produção de instrumentos de promoção da igualdade racial. O curso pré vestibular instituído pela ONG Afrobras – Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural, que posteriormente possibilitou a criação da Faculdade Zumbi dos Palmares, foi um braço em São Paulo do Diversidade na Universidade. Desta forma entende-se a relevância de Paulo Renato no que tange a educação inclusiva dos negros no ensino superior. Foi inclusive em sua gestão enquanto ministro, que ele assinou a autorização para o funcionamento da Zumbi. Justamente por isso Paulo Renato estará sempre “em memória”.
em memória
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veículos
Um modelo completo de série, com o maior porta-malas do Brasil e interessantes soluções internas para um melhor conforto dos passageiros. Este é o J6, que faz sua estréia no mercado nacional com a garantia de seis anos. O veículo já estava em pré-venda desde 18 de março. O J6 chega ao mercado brasileiro em duas versões: de 5 lugares e 7 lugares, chamada de Diamond. A versão de 7 lugares é, de certa forma, “brasileira”. A opção da fileira extra nos modelos foi desenvolvida pela equipe de engenharia da JAC
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Motors Brasil e não está disponível para venda na China. A possibilidade de remover os bancos com mais facilidade também é uma “invenção” brasileira. Assim como J3 e J3 Turin, o J6 foi desenhado em conjunto pelo estúdio Pininfarina e o Centro de Design da JAC Motors em Turim,
na Itália, e privilegia linhas fluidas nas laterais, conservando a identidade da marca na parte dianteira. Os faróis, por exemplo, são inspirados nas legendárias máscaras chinesas, o que garante forte personalidade estética ao modelo. O interior possui painel com quadro de instrumentos em 3D e ilu-
minação indireta azulada, com regulagem de intensidade. As duas versões já estão disponíveis para vendas em todas as concessionárias da rede JAC Motors no Brasil. O J6 chega por R$ 58.800, enquanto que o J6 Diamond sai por R$ 59.800. Tanto a versão 5 lugares quanto a versão Diamond já vem de série
com ar-condicionado com regulagem eletrônica de temperatura, freios com ABS e sistema EBD, airbag duplo, pneus 205/55 aro 16", faróis de neblina dianteiros e traseiros e sensor de estacionamento. Características técnicas O motor que equipa o J6 é o 2.0 16V com duplo comando de válvu-
Foto: Divulgação
veículos
la do cabeçote. O conjunto de suspensão foi recalibrado. O conjunto mola-amortecedor sofreu modificações e ficou mais adequado às ruas brasileiras. Outro item trocado foi o motor. A versão original vinha equipada com propulsor 1.8. Para o Brasil, foi desenvolvido, pela própria JAC Motors, o 2.0.
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Foto: © Worldshots - Dreamstime.com
turismo
Por Eliane Almeida
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Foto: Erik Cleves Kristensen
turismo
Aeroporto de Luanda, capital angolana. São dez horas da manhã e o espaço está lotado. Belos rostos negros sorriem felizes com as chegadas, outros se abraçam em despedidas e outros tantos olham com olhos curiosos pelo entorno. Cores fortes nas roupas, um sotaque lusitano e idiomas ininteligíveis soam pelo ar. Estar na África é uma aventura incrível! Terra mãe da espécie humana, o continente africano possui riqueza natural e cultural ainda inexplorados turisticamente. A imaginação dos desavisados e a posturas dos meios de comunicação em reproduzir uma imagem de pobreza e selvageria, escondem as belezas de um país que se libertou do julgo português e que, atualmente, reconstrói não só as cidades, mas também o orgulho de ser angolano. Luanda é sim um grande canteiro de obras. Construções grandiosas, reestruturação das praias e melhorias no asfalto da cidade, prometem uma nova Dubai.
Foto: © Ferdinandreus - Dreamstime.com
Vista de Luanda a partir da Fortaleza de São Miguel.
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Foto: © Dmitry Pichugin - Dreamstime.com
Foto: Beth Balboni
turismo
E não duvide de um angolano. Eles são determinados e defendem sua terra com unhas e dentes. Em meio ao trânsito caótico, vêse as bessanganas zungando* por entre os carros. Em suas roupas coloridas, com suas crianças presas nas costas por um tecido amarrado aos seios, elas equilibram com maestria suas frutas ou outros produtos por elas vendidos. É possível perceber de onde vem toda a habilidade das nordestinas brasileiras no equilíbrio de suas trouxas de roupa na cabeça. Apesar da consciência de se estar em outro continente, de estar do outro lado do Oceano Atlântico, é nítida a impressão de se estar em casa. Para todos os lados que se olha é possível observar semelhanças físicas com amigos e parentes brasileiros. É, de verdade, um retorno ao lar. 72
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Foto: Paulo Cesar Santos
turismo
Em toda sua grandeza continental, poderia algo em Angola ser menos que colossal? As Pedras Negras de Pungo Andongo são um conjunto de blocos rochosos de dimensões descomunais que ocorrem na localidade de Pungu-a-Ndongo, município de Cacuso, província de Malanje, em torno de 350 km de Luanda. O conjunto é composto por rochas intrusivas que foram expostas pela erosão, ao longo dos séculos e por rochas sedimentares (arenitos e conglomerados) bem consolidados. Pungo Andongo, é no entanto, mais do que um simples local de ocorrência de anomalias geológicas. É um local pleno de mitos, lendas, tradições e valores culturais. Pelas suas características topográficas e
Pungo Andongo. Foto: Paulo Cesar Santos
Pedras Negras de Pungo Andongo
Foto: Paulo Cesar Santos
Vista das Pedras Negras de Pungo Andongo.
Pungo Andongo.
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Foto: Paulo Cesar Santos
geomorfológicas o Pungu-a-Ndongo chegou a servir de fortaleza para os Reis Ngola, tendo sido, nessa época, capital do Reino do Ndongo.
Quedas de Kalandula
Vista das quedas de Kalandula. Foto: Erik Cleves Kristensen
As quedas de Kalandula constituem a fascinante atração turística da província de Malanje e uma das mais importantes de Angola. As quedas de Kalandula, estão localizadas no rio Lucala, afluente do Rio Kwanza. A cerca de 80 Km da cidade de Malanje, capital da província e 420 Km de Luanda. Belas e imponentes, as quedas de água de Kalandula, antigamente conhecidas por Duque de Bragança, são as maiores de Angola e as segundas maiores da África, depois das quedas Victória, entre a Zâmbia e o Zimbabwe. A majestosa beleza pode ser conhecida minunciosamente, acompanhada de um guia encontrado no local, é claro, para que se possa conhecer um pouco mais sobre esta maravilha da natureza. O ar vive salpicado de água e o som ensurdecedor das águas batendo nas rochas dão ao lugar o tom de sua magnitude e magia.
Serra da Leba De repente um enorme e prolongado paredão rochoso separa a região plana e semi-desértica da província do Namibe do planalto de altitudes elevadas e clima temperado da região da Huíla. É a serra da Leba! A necessidade de criar uma estrada que ligasse estas duas regiões deu a origem à, provavelmente, mais bela obra de engenharia de Angola. Uma estrada em serpente cravada na encosta da montanha de deixar qualquer um de respiração suspensa e que nos permite superar o acentuado desnível. A 74
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Vista da Serra de Leba.
Serra da Leba é uma formação montanhosa na província da Huíla, em Angola. Localizada perto da cidade do Lubango, a Serra da Leba é famosa pela altitude, pela sua beleza e também pela estrada que a serpenteia. Angola é um país de beleza inacreditável. A beleza de seus cidadãos, a cultura colorida e divertida, as riquezas naturais a espera de olhos apaixonados. Conhecer Angola é co-
nhecer a própria história dos antepassados. Tão longe e tão próximos de nós é Angola. Terra da magia e da beleza. Vale a pena. E como vale! * Bessanganas são mulheres vestidas de forma típica, com roupas bem coloridas, turbantes, parecidas com as nossas baianas. E zungam, ou seja, trabalham autonomamente vendendo suas mercadorias. As bessanganas trabalham o dia todo nas ruas e muitas vezes, por morarem muito longe, no interior da província, só voltam para casa depois de venderem todos os produtos.
opinião
um novo discurso para o Brasil na
o fim do
racismo! Por Rosenildo Gomes Ferreira*
Em meados de fevereiro, fiz minha primeira viagem como turista a Nova York. Durante o périplo pela ilha de Manhattan, aproveitei para conhecer a sede da Organização das Nações Unidas (ONU). O prédio imponente, fincado às margens do rio Hudson, chama a atenção de quem chega. Não apenas pela arquitetura, mas também pela escultura, junto à entrada, de um revólver cujo cano está retorcido em formato de nó. A mensagem que vem à cabeça é de paz. A ONU é, sem dúvida, um ponto obrigatório para quem passa pela cidade. Afinal, seu plenário foi palco de episódios que definiram a história da segunda metade do século XX. Desde o final da Segunda Guerra, cabe ao presidente brasileiro a honra de
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fazer o discurso de abertura da Assembléia Geral. Em setembro, teremos a chance de ver Dilma Rousseff seguir essa tradição. Primeira mulher eleita presidente, divorciada e dona de um passado de luta por seus ideais, Dilma é, sem dúvida, uma figura singular. Algo impensável no Brasil até a década de 1970. Afinal, naquele Brasil o divórcio, em boa medida por pressão da igreja católica, era proibido por lei. O papel da mulher na sociedade se restringia basicamente a cuidar das tarefas domésticas. E a mulher só era aceita nos círculos sociais “a tiracolo” do marido ou do pai. Por tudo isso, Dilma, que representa um novo (e melhor) Brasil, poderia também inverter a agenda oficial em relação à ONU e às preten-
sões do governo no cenário internacional. Em vez da megalomania tupiniquim que tenta “comprar” um assento fixo no Conselho de Segurança, por que não se comprometer em seguir os ditames de equidade e igualdade definidos pelo plenário dessa organização? Em novembro de 2010, foi declarado que 2011 seria o “Ano Internacional dos Afrodescendentes”. Ao chegar à ONU, nossa presidente, ou presidenta como dizem que ela prefere, poderia dar ao mundo mostras de que comanda, de fato, um País diferente. Faria isso dizendo que irá se empenhar para livrar o Brasil da injustiça secular do racismo e do preconceito. Assim como o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), um dos grandes ideólogos do iluminismo, tam-
opinião
Rosenildo Gomes Ferreira
bém acredito que os seres humanos nascem puros e que, os maus hábitos, eles adquirem na vida social. Portanto, é de se supor que seja possível sonhar com um Brasil sem racismo. De verdade. Enquanto redijo essas linhas, ouço a notícia na TV sobre a pesquisa, feita recentemente pelo IBGE, que aponta que 63,7% dos brasileiros acreditam que a cor da pele influencia na trajetória de vida de uma pessoa. Desnecessário dizer quem leva a pior nessa história! O documento que declara 2011 como o ano dos afrodescendentes expõe seus postulados de forma clara: “(...) o objetivo de fortalecer as medidas nacionais e a cooperação regional e internacional em benefício dos afrodescendentes em relação ao gozo pleno de seus direitos eco-
nômicos, culturais, sociais, civis e políticos, sua participação e inclusão em todas as esferas da sociedade e a promoção de um maior respeito e conhecimento da diversidade, sua herança e sua cultura. (...)”. Infelizmente, vemos diariamente esses direitos serem solenemente desrespeitados ou virarem letra fria de uma lei que “não pega”. A Justiça brasileira, ainda considera o racismo como um “crime” menor. Os agressores, quando pegos, no máximo são condenados a pagar cestas básicas. No artigo “Pretas recebem menos anestesia” –, publicado na Afirmativa, edição 38, à página 86 e leitura obrigatória para quem ainda acha que vivemos em uma democracia racial e num País minimamente
civilizado – o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva mostrou como a questão raça continua dividindo os brasileiros em dois grupos distintos: os que têm direito pleno à cidadania e outros, que têm de lutar em dobro para conseguir valer seus direitos básicos. Os índices sociais de brancos (inclusive pobres) no Brasil é melhor que o dos afrodescendentes. Os Estados que contam com maior contingente de população afrodescendente têm os piores indicadores sociais e educacionais. Quando vamos a uma agência bancária não enxergamos o Brasil real. Quando ligamos a TV, idem. Até quando? * o autor é jornalista e atua como editor-assistente de Negócios e colunista de Sustentabilidade na revista Istoé DINHEIRO.
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afirmativo
*Por Miguel Jorge
Afirmativa Plural • Edição 39
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O ex-presidente Lula passou boa parte de seus oito anos no poder promovendo o Brasil como parceiro da África. Após um longo período de distanciamento, as relações do Estado e da sociedade brasileiras com o continente africano superaram a retórica e ganharam impulso renovado. Lula esteve em 25 países africanos - o presidente brasileiro que mais vezes visitou o continente como chefe de Estado -, dobrou o número de embaixadas brasileiras na região e aumentou o comércio entre Brasil e África de US$ 3,1 bilhões, em 2000, para mais de US$ 20 bilhões, em 2010. Ao adotar como paradigma central a busca de cooperação Sul-Sul, o ex-presidente intensificou as relações do Brasil com outros países emergentes, além de retomar e estreitar as relações com os países africanos. Com Lula, o Brasil ampliou a presença política na África. Mas foi além: criou e aumentou linhas de crédito, perdoou dívidas com o governo brasileiro para incentivar o acesso de empresas nacionais aos mercados africanos, impulsionou o comércio bilateral, estimulou intercâmbios culturais. Essa expressiva mudança teve o apoio de diversos agentes brasileiros, especialmente dos representantes do setor privado, que acompanharam as visitas presidenciais e ministeriais para estabelecer novos contatos empresariais, em busca de investimento e expansão de suas atividades para o outro lado do Atlântico. Um parêntese: destaco que me orgulho, profundamente, de ter promovido, como ministro do Desenvolvimento no governo Lula, várias missões comerciais brasileiras, rodadas de negócios e seminários com compradores africanos. Centenas de em-
presários participaram dessas ações, o que contribuiu para impulsionar as relações de negócios, estimular parcerias, estabelecer empresas brasileiras na África e aumentar as exportações para diversos países do continente. Vale lembrar que estamos falando de um continente que tem quase um quarto da superfície do planeta
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Vale lembrar que estamos falando de um continente que tem quase um quarto da superfície do planeta
(22,5% das terras do globo, das quais 60% aráveis e cultiváveis), 30 milhões de quilômetros quadrados e 10% da população mundial, mas que deverá dobrar, até 2050.
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(22,5% das terras do globo, das quais 60% aráveis e cultiváveis), 30 milhões de quilômetros quadrados e 10% da população mundial, mas que deverá dobrar, até 2050. Um continente com 66% dos diamantes do mundo, 58% do ouro, 45% do cobalto, 17% do manganês, 15% da bauxita, 15% do zinco, e entre 10 a 15% do petróleo. A África tem cerca de um bilhão de habitantes, muitos deles jovens, e é hoje um grande mercado consumidor. Seus países crescem entre 4 a 6%, superior à média de outros em expansão. Nos últimos anos, o continente vive a aceleração constante do crescimento econômico, que se deve a fatores como a estabilidade política, o
fim das guerras civis que assolaram diversos países nas décadas de 80 e 90, a abertura para os investimentos externos e a formação de um enorme mercado consumidor interno. O Centro de Estudos Econômicos McKinsey Global Institute publicou, em junho de 2010, relatório sobre o progresso e o potencial das economias africanas, afirmando que a taxa de retorno de investimento na África é maior do que em qualquer outra região em desenvolvimento. Segundo a publicação, o PIB coletivo da África hoje é de US$ 1,6 trilhão, semelhante ao do Brasil, mas as perspectivas futuras são otimistas: em 2020, a previsão é de que o PIB coletivo do continente atinja US$ 2,6 trilhões. Assim, falamos de um dos mais rentáveis, promissores e concorridos espaços do mercado global, de um continente que justifica, e muito, o aumento do interesse internacional: garante o suprimento de energia, com reservas de petróleo e gás, tem recursos minerais em abundância e um enorme mercado consumidor. Somese a isso, no caso do Brasil, o discurso e a estratégia diplomática do expresidente Lula, que convergiram para construir alianças com os países africanos. Não por acaso, alguns dos principais grupos brasileiros elegeram a África como prioridade. Entre investimentos próprios e execução de projetos, os negócios das empresas Vale, Odebrecht, Camargo Correa e CSN são da ordem de US$ 15 bilhões. As áreas de interesse são diversificadas, como construção, mineração, cimento, finanças, agricultura e petróleo. A “redescoberta” da África por nossos empresários não se restringe Edição 39 • Afirmativa Plural 79
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aos grandes grupos econômicos: o continente é uma opção para empresas exportadoras de áreas diversas, como vestuário, calçados e alimentos. Somente a reconstrução de Angola já levou 200 empresas brasileiras à África, segundo estudo recente do banco de investimento sul-africano Standard Bank. O número supera a presença das 150 companhias da China, que detém a posição de maior parceiro bilateral dos angolanos em valor de investimentos. O momento é de investir na África, de aproveitar a dinâmica do renascimento do continente para discutir interesses mútuos. O momento é de reunir empresários brasileiros e africanos para traçar estratégias conjuntas, com a participação de câmaras de comércio e governos. É preciso identificar as empresas corretas para cada país e os obstáculos que deverão ser superados. Há oportunidades de negócios em quase todos os setores, da agricultura e pecuária à construção de casas populares, infraestrutura, exploração de jazidas minerais e hidrocarbonetos, transporte coletivo, novas fontes de energia e comércio de produtos agroalimentares. O potencial de mercado para produtos e serviços do Brasil é enorme, mas, infelizmente, o País ainda está muito atrás de diversos investidores estrangeiros na África, especialmente da China. As políticas desse país fizeram seu comércio com a África chegar a US$ 107 bilhões/ ano. A Índia também tem grandes laços com o continente: o comércio bilateral é de cerca de US$ 32 bilhões por ano. Isto coloca o Brasil em terceiro lugar. Para o estudioso Carlos Lopes, 80
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diretor-executivo do Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa (Unitar), em Genebra, o Brasil deveria fortalecer sua posição de exportador de produtos de alto valor agregado e de parceiro na área industrial e de novas tecnologias. “Muito da capacidade industrial instalada no Brasil terá mais possibilidade de expansão na África do que em outros mercados mais competiti-
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Há oportunidades de
negócios em quase todos os setores, da agricultura e pecuária à construção de casas populares, infraestrutura, exploração de jazidas minerais e hidrocarbonetos,
transporte coletivo, novas fontes de energia e comércio de produtos agroalimentares.
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vos e maduros, e menos interessados no nível tecnológico oferecido pelo Brasil”, diz. Na mesma linha de pensamento, o economista camaronês Célestin Monga, um dos principais assessores econômicos do Banco Mundial e respeitado analista das perspectivas africanas, destaca que a África pode se tornar o mercado externo mais importante para o Brasil, mas isso precisa ser uma decisão estratégica das companhias brasileiras. Monga alerta que os empresários brasileiros devem entender que os
riscos são elevados, que o ambiente de negócios não é fácil e que há problemas de infraestrutura. Mas “o ganho pode ser enorme”. O fato é que o Brasil precisa se diferenciar de outros países emergentes e mostrar que seu engajamento com a África é especial, com base nos princípios que defende como democracia. O processo de revalorização da África abre grande espaço para a projeção internacional do País, especialmente quando perdoa dívidas de países mais pobres, estimula e facilita a promoção de empresas brasileiras da área de saúde (em Maputo, Moçambique, por exemplo, será construída uma fábrica de medicamentos genéricos e antirretrovirais, com recursos, equipamentos e tecnologia brasileiros) e fornece know how para desenvolver boas práticas sociais. Por tudo isso, é louvável que o recém-criado Instituto Lula tenha como objetivo principal desenvolver projetos de cooperação e desenvolvimento com países da África e da América Latina. O exercício pleno da democracia e a inclusão social, aliada ao desenvolvimento econômico, estão entre as principais realizações do governo Lula que o Instituto pretende estimular nessas regiões. Com os países africanos, a estratégia é agir como parceiro, transmitir experiências, manter um relacionamento pautado pela “dívida de solidariedade”, na expressão do ex-presidente Lula.
*Miguel Jorge, jornalista, foi ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior no governo Lula (2007-2010) e é associado ao Instituto Lula.
Foto: MDIC
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Miguel Jorge
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preto e branco
Mar cus Mosiah Garvey Marcus (17-08-1887 • 10-06-1940)
Há 124 anos, nascia na Jamaica o homem que seria o precursor do panafricanismo (ideologia que propõe a união de africanos e descendentes) no mundo. O empresário, comunicador e ativista Marcus Mosiah Garvey, considerado o primeiro grande herói jamaicano, iniciou sua militância em meados de 1914 quando fundou na Jamaica a Universal Negro Improvement Association - UNIA ( Associação de Melhorias Universais para o Negro). Já em 1916, Garvey se mudou para os Estados Unidos e expandiu as ideias de união e liberdade aos negros, principalmente no sul do país. Acabou sendo deportado pela polícia americana que acreditava que sua ideologia representasse um perigo à nação. De volta à Jamaica, fundou em 1929 o Partido do Povo pelo qual concorreu às eleições nacionais. Mal sucedido nas eleições, mudou-se para a Inglaterra com o propósito de expandir o panafricanismo aos negros europeus, onde faleceu em 1940. Seu corpo foi levado de volta à Jamaica em 1964 e enterrado no Parque Nacional dos Heróis, em Kingston.
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