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Este jornal é impresso em papel 100% reciclado notas
Março/Abril2026
Direção Carolina Ramos
Madalena Grilo Teles
Miguel Martins
EdiçãoGráfica Eva Vieira
Letícia Caetano
Madalena Grilo Teles
Matilde Brito
Natali Gonçalves
Redação Afonso Noronha
Bárbara Soares
Carolina Costa
Carolina Ramos
Carolina Silvestre
Cyndelle Ferreira
Eva Vieira
Francisco Machado
Inês Fonseca
Revisão Bárbara Soares
Carolina Ramos
Inês Fonseca
Joana Lourenço
Madalena Nunes
Mariana Salviano
Miguel Martins
Nicoleta Manoli
Ficha Técnica
Inês Lopes
Joana Lourenço
João Tomás Pereira
Madalena Andaluz
Madalena Grilo Teles
Mafalda Monteiro
Maria Beatriz Silva
Matilde Leandro
Matilde Paquete
Mercedes Basílio de Oliveira
Miguel Cruz
Miguel Martins
Pedro Lázaro
Rúben Rosa
Rui Jorge Cabral
Sal
Colaboradores
Alberto Rivas
Beatriz Helena
Clara Sarmento
Daniela Felício
Dima Mohammed
Francisca Dantas
Laura Tuck
João Batista
Maria Teixeira
Maria Oliveira
Rodrigo Pereira
Sara Rocha
Cyndelle Ferreira e Matilde Leandro conversam com Sara Rocha, presidente da Associação Portuguesa Voz do Autista e ativista pelos direitos humanos, sobre a prática da esterilização forçada em Portugal e a ausência de legislação que a criminalize
Afonso Noronha dedica o seu texto à Livraria Alfarrabista Galileu e a Caroline Tyssen, a partir de uma memória pessoal do autor sobre a sua vida em Cascais, o trabalho num museu e a descoberta de um espaço marcado pelos livros
13 Gisberta Salce Júnior
Esta crónica de Rúben Rosa parte da memória e da figura de Gisberta Salce Júnior para refletir sobre a violência transfóbica, a exclusão e a urgência de preservar direitos conquistados
27 Naomi Kawase
Texto dedicado à obra de Naomi Kawase, centrado na relação particular da realizadora com o cinema. A partir de filmes como Katatsumori e Tarachime, Inês Fonseca destaca temas centrais nos filmes de Kawase, como maternidade, abandono e a relação entre criação e vida
Maria Alice Vasconcelos
Neste texto, Maria Beatriz Silva fala-nos sobre Maria Alice Vasconcelos, uma artista do crochet, associando a prática manual à liberdade e à resistência A autora destaca a matéria têxtil como forma de expressão e de marca no mundo
Marlene Vieira
Matilde Paquete conversa com a chef Marlene Vieira sobre o Zunzum Gastrobar, a transformação da restauração em Lisboa e a adaptação da cozinha portuguesa A entrevista aborda também o lugar das mulheres na gastronomia, a cultura de trabalho nas cozinhas e o modo como a liderança feminina continua a enfrentar resistência
Aurora
Catarina Eufémia
Filipa Viúla
Maria
Maria Alice Vasconcelos
Maria do Céu
Maria do Mar
Rosa Veneno
Simone de Beauvoir
Março/Abril
Duas questões cruciais precederam a escolha da proposta para esta edição do Nova em Folha: “As pessoas terão vontade de escrever sobre mulheres?” e “As pessoas
terão vontade de ler sobre mulheres?”.
E, realmente, a precedência foi apenas das questões e não das suas respostas. A decisão de avançar com a proposta não partiu de uma confirmação em relação a nenhuma destas perguntas, mas de uma intuição qualquer de que estaríamos, com ela, a fazer algo de positivo pelo jornal Esta motivação é passível de ser caracterizada como egoísta, mas peço que os leitores encarem-na como honestidade total
Não nos escapa que uma edição
CarolinaRamos
do Nova em Folha pode fazer pouco pelas mulheres, mas achamos que há qualquer coisa que as mulheres podem fazer por uma edição do Nova em Folha, e isto diz-nos algo sobre o que este jornal pode ser, e sobre a posição que ele pode ocupar dentro de uma universidade num mundo em retrocesso Sendo esta posição, simplesmente, a de permitir que ainda haja um espaço em que se possa pensar e escrever com calma, sobre assuntos do nosso interesse, afastados de uma lógica de produtividade insaciável, e próximos de uma produção afetiva de textos que significam algo para quem os escreve, e que são, efetivamente, escritos por alguém e não por algo Naturalmente, mesmo sem a pretensão de transformar o mundo através desta edição ainda que com
Editorial
a vontade de que o mundo possa ser transformado por cada uma das nossas ações , pretendemos que ela seja, ainda assim, uma homenagem Há uma razão para que os textos aqui contidos estejam sob a égide de nomes femininos: acreditamos que falar sobre as mulheres ainda importa, porque ainda não falamos o suficiente, e ainda não dissemos tudo o que importa, e nem tivemos oportunidades o suficiente de dizer coisas que não importam tanto assim Por mais voltas que o mundo dê, é inegável que muito dele se construiu em cima da cedência das mulheres, da sua abnegação e do seu apagamento Com isto em mente, nós, um jornal universitário, queremos ceder algo, ainda que seja apenas um gesto simbólico, e, por isso, cedemos os nossos títulos.
Agora, em abril, ao qual pertence o Dia dos Cravos, venho pedir-vos que se juntem à voz que não se cansa e que reclamem os vossos direitos.”
ar@s leitor@s,
A AEFCSH vem falar-vos, no mês da liberdade, para celebrarmos as conquistasquenós
estudantes, receptáculos de conhecimento e motores de revolução, conseguimos A 24 de março juntámo-nos em luta contra o governo e todas as instituições que se recusam a reconhecer o nosso
reclamem os vossos direitos. Temos, dentro da nossa Instituição de Ensino Superior, entidades que se recusam a constatar as nossas dificuldades diárias, entidades que tentam silenciar-nos e que pensam que apenas por sermos jovens, somos mudos Pois nós vimos dizer-vos que têm voz, que merecem ser ouvidos Que há uma força que nos une, uma chama juvenil e estudantil que nos faz fortes e gritantes Lutamos Lutamos
Amira Hass
Briosa
, p p ótimas qualificações, os jovens que conseguem entrar para o mercado de trabalho não sabem outra palavra senão precariedade: dos contratos ao custo de vida, a economia deixou de crescer
Margarida Tengarrinha
Vilma Espín
Rememorando: de Vilma Espín às moradoras de Torres Vedras em 1974
g g g milíciafascistadoEstadoNovo A transformação deste ‘património obsoleto’ numa estrutura social ao serviço do povo teve o apoio da Câmara Municipal e integra um conjunto de metamorfoses revolucionárias que nos permitem afirmar a Revolução de Abril como um momento de ruptura social sem precedentes na História de Portugal. O ainda em funcionamento Casal Popular da Damaia é outro exemplo de ‘metamorfose revolucionária’, que faz agora 51 anos: com o apoio da freguesia numa decisão em plenário com moradores, em março de 1975, é ocupada a chamada Quinta do General, devoluta, outrora pertencente a Botelho Moniz (antigo ministro da defesa do Estado Novo), para a sua transformação num complexo com jardim de infância, centro de dia para a terceira idade, posto médico e cantina social Até hoje ao serviço da população, é legado material daRevolução
A construção de equipamentos sociais de coletivização do trabalho de reprodução humana contraria diretamente a histórica delegação destas tarefas às mulheres, que por isso sofrem uma crónica e atual subalternização e particular precariedade social – com especial incidência sobre as mulheres da classe trabalhadora Desde as políticas públicas soviéticas e cubanas às ocupações, aproveitamentos populares e adaptações urbanas e rurais portuguesas, estamos perante uma panóplia de conhecimentos históricos que servem para pensarmos na socialização do trabalho reprodutivo hoje como uma possibilidade social ainda necessária Estas fontes de inspiração revolucionária podem funcionar como um ponto departidaparacombatesatuais,faceaumaobs-
Simone de
Oliveira
portuguesa por uma política de ruralização que buscava manter a população pobre e fiel às tradições é o responsável pela vitória dos Bandidos no Festival da Canção
A escolha de um posicionamento “apolítico” do grupo relativamente à sua participação na Eurovisão, chegando a dizer numa entrevista que “Nunca quisemos misturar arte com política.”, é em si própria uma firme posição política, defensora da dissociação entre a arte e a realidade A realidade atual, porém, é que vários países se sentem tão incomodados com a presença de Israel na competição que escolheram não participar nela, nomeadamente a Espanha, Países
Baixos, Irlanda, Eslovénia e Islândia, boicotando o torneio pela lavagem que acreditam ser feita da imagem do país Portugal, lembrando os anos de ditadura, permanece calado
Sara Rocha
Talvez este, não seja um bom livro, nem tu gostes desta poesia. Mas, talvez ele te possa dizer alguma coisa.”
Clara Campoamor Victoria Kent
Los ciudadanos de uno y otro sexo mayores de veintitrés años tendran los mismos derechos electorales, en la forma que las leyes determinen.”
Es 1 de Octubre de 1931 y en España se está debatiendo, en las Cortes Constituyentes, una nueva Carta Magna que será el pilar jurídico del nuevo régimen democrático que está naciendo en el país
Desde Abril y como consecuencia de la derrota electoral en las elecciones municipales de los partidos que sustentaban el régimen monárquico en las grandes ciudades, provocó la huída del Rey Alfonso XIII de España y la instauración de un Gobierno Provisional de la República España dejaba de ser una monarquía para ser una república
En ese día, se debatía y votaba el artículo que igualaba a hombres y mujeres al derecho de sufragio activo, “Los ciudadanos de uno y otro sexo mayores de veintitrés años tendran los mismos derechos electorales, en la forma que las leyes determinen.”
Para la defensa de esta enmienda, habla ante la Cámara la abogada y una de las dos mujeres que se encuentran en esas Cortes, Clara Campoamor, que mientras muchos de sus compañeros de butacas e incluso de partido político defendieron la no concesión del voto a la mujer, ya que por cuetiones bio-
lógica y psicológicas no debían poseer ese derecho hasta pasada la menopausia, la diputada defendió que tanto la mujer como el hombre deberían tener ese derecho y sin cuestionarse sus condiciones médicas o temporales
Frente a ella, no solamente estaban sus compañeros de partidos sino también la otra mujer que estaba en el Parlamento, la abogada Victoria Kent. Esta última defendía que las mujeres deberían tener el derecho a voto, pero que este se tendría que aplazar durante unos años para que la mujer sintiera “el fervor republicano, democrático y liberal” y, aunque defendiera que la mujer si tenía capacidad para ostentar el derecho a voto, no estaba aún siendo parte de la República para que se le pudiera reconocer ese voto, aludiendo también a que ese voto estaría condicionado por el marido o por el confesor, ya que no sentiría por sí misma la defensa de las luchas políticas que mueven a las personas a ejercer el derecho a voto
Tras el ardiente debate parlamentario, el resultado fue positivo para todas las mujeres de España mayores de 23 años Aunque las protagonistas de este debate eran amigas y
compañeras de trabajo, los medios de comunicación, en este caso los periódicos de todas las tendencias ideológicas se burlaban del debate que tuvieron, llegando a ironizar y defender en sus editoriales qué no era lógico conceder el voto a las mujeres porque entre ellas no se ponían de acuerdo en este asunto o exagerando el enfrentamiento entre ellas dos en lo que hoy es el Congreso de los Diputados, diciendo que estaban a punto de enloquecer El culmen de ese desprestigio personal llegó en las siguientes elecciones, las de noviembre de 1933, acusando a la propia Clara y a su defensa del voto femenino de la derrota electoral de los partidos que estaban en el Gobierno
Ambas no volvieron a ostentar un escaño en el Parlamento durante la República y tras el inicio de la Guerra Civil huyeron al exilio, dejando España Victoria vivió algunos años más para poder contar en la España democrática su rechazo al voto femenino, en cambio Clara murió en Suiza dejando para la historia del país y de la lucha feminista en el libro El voto femenino y yo: mi pecado mortal
“Perdi-me do nome “Perdi-me nome
Hoje podes chamar-me de tua Hoje chamar-me de tua Dancei em palácios Dancei em palácios
Hoje, danço na rua Hoje, danço na rua Vesti-me de sonhos Vesti-me de sonhos
Hoje, visto as bermas da estrada Hoje, visto as
De que serve voltar que serve Quando se volta pro nada?” Quando se volta nada?”
Gisberta Salce Júnior
Falo-vos de uma mulher nascida em São Paulo e que, com apenas 18 anos, se viu levada a abandonar o próprio país pelo receio de ser assassinada.”
Balada de Gisberta, de Pedro Abrunhosa Balada de de Pedro Abrunhosa
Apressei-me a fazer a depilação Fiz cortes de gilette nas pernas antes sequer de me terem nascido pelos Foi a primeira vez que sangrei por ser mulher Depois de uns dias comecei a sangrar todos
Graciete Fonseca “
Diria que o género da palavra [alicerce] está errado porque todas as minhas bases são femininas. Vieram de mulheres, com quem já me cruzei ou com quem continuo a partilhar a vida.”
Maina Mendes
Dentro da “mente heterossexual”, não é possível, assim, conceber aquela que foge ao contrato social implicado em “ser mulher”, qualquer mulher que não esteja numa relação de dependência para com um homem.”
Um dia, Maina Mendes, personagempoema de Maria Velho da Costa, fez silêncio Contra a voz, Maina foi tudo o que a deixaram ser e tudo o que não se pode ser, todo o paradoxo, toda a dança silenciosa do cosmos uni e plurissexo Foi e é, também, um convite à reflexão sobre a identidade feminina e não-feminina, na sua pluralidade, e a sua relação com a linguagem
O silêncio de Maina está intricadamente enredado na ideia de que a palavra que lhe foi concedida perpetua a sua condição de subalterna: a sua fala é inócua Na sua ausência, Maina explora a negação, reivindicando um lugar de reflexão e transformação Tornando-se um monólito incontornável, tremendamente inflexível, Maina é aquela segundo a qual o que a rodeia se tem de redefinir; aquela que nos faz perguntar: afinal, o que significa o silêncio de Maina?
Monique Wittig, teórica feminista, con-
ceitua a “mente heterossexual” The Straigh Mind para conceber a incapacidade de pensar, e consequentemente falar, a sociedade fora da organização heterossexual A matriz heterossexual funciona para organizar o mundo dicotomicamente, naturalizando e totalizando essa organização, enquanto perpetua relações fundadas na alteridade e submissão feminina Dentro da “mente heterossexual”, não é possível, assim, conceber aquela que foge ao contrato social implicado em “ser mulher”, qualquer mulher que não esteja numa relação de dependência para com um homem Para Wittig, aqui estão as nãomulheres Existe, digamos, uma pluralidade, tremendamente inefável, em não ser mulher e não ser homem
A “mente heterossexual” oferece-nos uma resposta tentativa à pergunta inicial: o silêncio de Maina foi um antigrito contra a mente, contra a existênci-
a feminina que se lhe foi imposta e à qual ela se evade, sem cobardia, mas resistindo Foi a reivindicação da palavra-total que lhe foi negada, rejeitando a palavra que lhe foi concedida Foi a rejeição das suas condições de existência: aqui se encerra Maina, em tensão, caminhando para a sua expansão
O que está para lá da “mente patriarcal”? O que é não ser “mulher”? Foi Maina uma “não-mulher”? A pergunta “como não ser “mulher”?” não deve pressupor-se ser a contraresposta à pergunta “como ser mulher?”, senão um ato de revolta para com as palavras que não são nossas: “mulher” Na anti-tentativa, contra as aspas da tradição, joga-se com a antidefinição, que é não ter nenhuma, como ver o limite do dicionário patriarcal que exsuda da história
Nataliya Nataliya
Lembro-me da primeira vez que estive mais de uma semana sem a minha mãe: ela voltou à Ucrânia, uma vez só, para um funeral. Nem me lembro de quem era. Lembro-me que essa semana foi insuportável.”
“Para mim, o feminismo é a luta contra todas as formas de subordinação das mulheres. Todas as formas de considerar esta subordinação destino natural e ordem legítima”
Entrevista exclusiva do NeF à professora
Dima Mohammed
acontecer, a PUSP é a melhor maneira de demonstrar, na verdade, que a solidariedade faz parte da luta pela justiça e tem dimensões diferentes É por isso que temos coletivos que têm causas diferentes a juntarem-se, perante a urgência da ação de solidariedade com a Palestina A questão da adesão eu diria que foi bastante boa, só que nunca é suficiente perante a gravidade da situação Infelizmente, a sensação é sempre assim, que as pessoas, os coletivos e os ativistas estão a fazer muito, mas não é suficiente perante a gravidade da situação
E quando se pensa particularmente na questão do boicote, sanções e desinvestimento, temos aqui uma realidade, temos aqui uma ideia que deve ser muito clara, que é: o Estado de Israel não tem a capacidade de sustentar a opressão contínua do povo palestiniano sozinho O Estado de Israel só consegue continuar as políticas de ocupação militar, de apartheid e de genocídio, porque está a ser sustentado pelo apoio do mundo ocidental, nomeadamente
23 atéabril
02 atémaio
30 atéabril
04 atémaio
24 atéabril
09atémaio
16
atémaio 29 atémaio
21 atéjunho
31atéjaneiro
19 atéjulho
31atéagosto
AriaMiaLoberti
FranciscoMachado
ChantalAkerman
CarolinaRamos
Março/Abril
EvelynHugo CarolinaSilvestre
IdaLupino
MiguelMartins
fantasia, ou de drama, ou de guerra, ou de amorvai encontrar uma preciosidade neste standalone de 2018 Mas particularmente na âncora narrativa e emocional deste universo, que é a personagem de Misaki
MisakiMatsuda
MercedesBasíliodeOliveira
Protagonista, a princípio subtil, de uma história de profunda intensidade, Misaki é o pináculo de tudo o que se pode querer de uma personagem Ela existe numa conjugação equilibrada, comumente ignorada por autores, entre a servidão do seu papel numa sociedade altamente conservadora e o seu rico mundo interior de memórias de liberdade
Misaki é uma personagem profundamente humana, a quem são permitidas todas as pontas de
NaomiKawase
InêsFonseca
Vida e morte vão a jogo pelas mãos de Kawase, artífice das mais belas cápsulas de tempo Em poucos minutos, consegue levar ao êxtase o mais apático dos corações, por bons e maus motivos O que nunca se espera é que o faça por presença própria, elevando-se ou rebaixando-se ao nível de personagem da sua própria existência É dito que dificilmente se retira a câmara das mãos de quem a manuseia, que é problemática a distinção entre arte e vida no corpo dos artistas, e Naomi assim o comprova O seu corpo não vê separação entre o que produz e o que é, vejamos em Tarachime (2006), a curta-metragem que acompanha o nascimento e o crescimento do seu próprio filho
A ideia inicial, segundo a cineasta, seria acompanhar a criação de uma vida desde o momento em que é colocada no ventre, contudo, rapidamente se expandiu para algo maior Passou a relatar o declínio da sua própria vida e seguinte ascensão com a nova que se fazia sentir, por mais paradoxal que se adivinhe. Naomi vive para filmar e, por esse mesmo motivo, não separa o que viveu das histórias que leva ao grande ecrã. Em 1994, apresentou Katatsumori, uma curta que serviria de entendimento base para o desembocar deste rio agitado Nesta, Naomi despede-se da sua avó, que a acolheu e se tornou sua “mãe”, depois da mãe biológica a ter colocado para adoção Explora, assim, sem grande explicação, os motivos que levam uma mãe a abandonar um filho e a importância que tem alguém assumir essa responsabilidade deixada para trás Nos dias que correm, apesar do aborto já ser algo clinicamente acompanhado, ainda é envolvido numa névoa, na qual se encontra a incompreensão do ato Julgamentos são incontáveis, manifestações pró-vida fazemse ouvir e, no cerne da questão, a voz da mulher que vive a experiência é, mais uma vez, silenciada A vida é feita de escolhas, pelo menos assim o julgamos no nosso livre mundo; a interrupção voluntária da gravidez é uma delas, contudo, assemelha-se assustadoramente a uma habitante de um
mundo proibido, por entre ruas e ruelas estreitas da opinião portuguesa (e mundial) Como se fosse a escolha absurda e egoísta da rainha de copas sobre a decapitação das cartas do jogo A verdade é que, embora Naomi não coloque essa hipótese (diretamente) em cima da mesa, vive culpada por um ato que não foi realizado A pergunta “Porquê?” persegue-a, quer saber mais sobre o processo de adoção, sobre o abandono, e expele parte do seu rancor na sua obrigação de ser melhor mãe Katatsumori torna-se uma carta de amor e de despedida a quem tão bem a recebeu e criou transbordando esse amor para Tarachime, onde o cordão umbilical não é cortado. Pelo documentário, interpretações de entendidos de cinema podem ir muito mais além
YuGwan-sun
JoãoBatista
Aliás, há até quem diga que o nó do cordão pode realmente gerar uma força maior entre mãe e filho, força essa que não se quebra, sendo somente incomodada pelo que é inserido entre os dois a vida de cada um Kawase, como diretora de fotografia, operadora de câmara, realizadora e mulher em trabalho de parto, organiza-se exatamente na ordem destas funções Agarra primeiro a câmara para filmar o filho a sair do seu corpo, elevando ainda mais a importância do trabalho e da produção de algo para o nosso mundo corrido e acelerado O contrapeso seria a demonstração do orgulho de um parto que, por relatos, ela associa a algo de espetro negativo. Seria simplesmente o abandono de um corpo esquisito por outro corpo, depois de meses de geração Aqui, opta por filmar cada segundo para registo e esclarecimento de possíveis dúvidas que a própria nunca esclareceu sobre si Trata-se de uma passagem de génio e de um corte da passagem de herança, onde o pensamento permanece, mas a dor finda.
Não obstante a condição ética posta em causa, esta cineasta cria um perfil baseado no registo de memórias, defendendo que tudo tem um princípio, meio e fim, no mundo E quer o princípio, quer o meio, quer o fim, são fruto do corpo de mulheres, da sensibilidade e da compreensão das mesmas
Em 1910, o Império do Japão anexou a Coreia e transformou-a numa colónia: censurou a imprensa, reprimiu o uso da língua coreana e tratou qualquer aspiração à independência como crime Nove anos depois, a 1 de março de 1919, uma vaga de protestos varreu o país o chamado Movimento de 1 de Março com estudantes, religiosos e civis a lerem uma declaração de independência e a marcharem pelas ruas Nesse contexto, aparece Yu Gwan-sun, uma estudante de 16 anos, filha de agricultores cristãos, que estudava num liceu feminino em Seul Quando as autoridades fecharam a escola após as primeiras manifestações, Yu voltou para a aldeia natal, Aunae, levando consigo a ideia de que a independência não podia ficar confinada à capital Em Aunae, ajudou a organizar uma grande manifestação para o mercado local, mobilizando vizinhos, familiares e frequentadores da igreja. Terá participado na preparação de bandeiras coreanas feitas às escondidas e na divulgação de convites para o protesto A 1 de abril de 1919, milhares de pessoas reuniram-se no mercado para gritar “Manse!” (em português: viva!), “Viva à independência coreana”, e exigir o fim da ocupação A resposta japonesa foi rápida e brutal: tiros contra civis desarmados, mortos no chão do mercado entre eles os pais de Yu e ondas de aprisionamento A adolescente que tinha ajudado a transformar uma aldeia num ponto de resistência foi detida e enviada para a prisão de Seodaemun, em Seul
Na prisão, a juventude de Yu não lhe garantiu qualquer indulgência As autoridades exigiram arrependimento, silêncio, aceitação do domínio colonial em troca de clemência. Ela recusou. Continuou a gritar pela independência do país dentro da cela, a incentivar outras prisioneiras, a participar em pequenas ações de protesto lá dentro Sofreu espancamentos e torturas, viu o corpo definhar, mas manteve a recusa em assinar a submissão que lhe pediam Morreu aos 17 anos, em 1920, oficialmente de problemas de saúde, na prática como resultado direto da violência que lhe foi infligida
A 15 de agosto de 1945, a Coreia finalmente conquistou a sua independência O novo Estado precisava de figuras para encarnar a narrativa nacional de resistência Yu Gwan-sun foi sendo elevada a heroína, aparecendo nos manuais escolares; a sua imagem passou a aparecer em cerimónias estatais, comparando-a a figuras como Joana d’Arc para a tornar reconhecível também ao olhar ocidental A construção desta memória nacional cumpre várias funções: honra uma jovem que enfrentou um império, cria um símbolo de patriotismo juvenil e feminino e oferece ao país uma mártir cuja história parece feita à medida da ideia de “sacrifício pela pátria.” Yu Gwan-sun não é apenas uma nota de rodapé exótica da história coreana; é a prova de que a juventude não é desculpa para a passividade A forma como a Coreia a celebra hoje mostra o poder que o Estado tem de selecionar quem é lembrado A nós sobra a tarefa mais ingrata: olhar para além do mito e perguntar o que faríamos nós, com 17 anos, perante um regime que exige silêncio em troca de
Adelaide Patrício
Arrisco-me a dizer que a maior figura na história do voleibol português é uma mulher Parece estranho ter proferido esta frase mas, na realidade, na maioria dos desportos, Mulheres tão ou mais qualificadas que os homens são menosprezadas, ignoradas ou simplesmente esquecidas
Adelaide Patrício, atualmente com 87 anos, é uma ex-jogadora e, no momento, treinadora de voleibol na equipa da Escola Secundária Filipa de Lencastre mas nem sempre teve a sorte de se poder dedicar ao desporto Nascida com icterícia e asma, e com recorrentes crises de hemoptises, não podia correr, pular, nem brincar como as outras crianças Foram as aulas de ginástica que a salvaram, ou que mudaram a sua vida, poderíamos dizer De repente, através da prática de ginástica respiratória (e com mais alguma terapia), já podia dar saltos, fazer cambalhotas e correr livremente, gastando toda a sua energia infantil acumulada
seguir, experimentou o voleibol tudo contra a vontade do progenitor O desporto era como uma fuga, não só metafórica como literal, visto que mentia constantemente ao pai, para atender aos treinos de forma livre
Até que um dia, sentado frente à televisão, durante uma reportagem sobre o belenenses, o seu pai descobriu o que ela escondia “Adelaide Patrício, a grande revelação” Bateu-lhe
Quando entrou no Liceu Filipa de Lencastre, a Professora, então aluna, deslumbrou-se com o desporto Fazia aulas de ginástica Ling e participava no desporto escolar No entanto, a entrada neste mundo não seria um salto tão fácil quanto aqueles que ela dava recorrentemente Participou nos clubes desportivos da mocidade portuguesa; fez questão de copiar a assinatura do seu pai, sem este o saber, para entrar no atletismo do Belenenses; e, logo a
Impedir a própria filha de fazer desporto, por questões meramente sexistas, não era mais do que a reflexão de rotinas convencionais e comuns à época, mas que se manifestam ainda nas diferenças colossais entre o tratamento de mulheres e homens no desporto moderno
Mas Adelaide não desistiu chegou a ser campeã regional, campeã nacional e recordista do peso; entrou na primeira seleção de voleibol feminino; deu aulas no INEF (Instituto Nacional de Educação Física) e na mocidade; criou a equipa de voleibol do Filipa de Lencastre; hoje em dia existe até um torneio com o seu nome: TPAP (Torneio Professora Adelaide Patrício) Atualmente, é um dos nomes, se não o nome mais conhecido, no voleibol português Quando eu jogava, a qualquer lado que fosse e com quem quer que eu falasse (que já tivesse jogado, claro), sabiam quem ela era muitos já tinham até sido seus alunos
A professora, ainda que reformada, e mesmo com 87 anos, faz questão de tornar
o desporto uma grande parte da sua vida, tão importante quanto respirar Acima de tudo, pretende transformar o desporto, e não só o voleibol, num campo aberto a qualquer pessoa Deixa uma marca profunda naqueles que passam pelas suas equipas, e também naqueles que jogam contra elas que se surpreendem ao ver uma mulher, já de idade, a conduzir os treinos e jogos com tamanha energia e vontade Para além disso, conta-nos a história de uma (entre tantas) mulher que desafiou o peso dos estigmas, barreiras e desigualdades, muitas vezes vindos até de quem lhe era mais próximo, mas que conseguiu abrir o seu próprio caminho e torná-lo mais amplo e respirável para as mulheres deste país, alcançando a meta que sempre foi mais importante do que qualquer outra vitória na sua carreira
Allyson Felix
Quem é Allyson Felix? Numa palavra, uma lenda Em mais palavras, é uma velocista norte-americana, multicampeã olímpica e mundial nos 100, 200 e 400 metros planos A primeira atleta feminina na história do atletismo a conquistar sete medalhas de ouro olímpicas, a mulher mais condecorada na história do atletismo olímpico e a norte-americana mais condecorada na história dos Jogos, com um total de 11 medalhas em cinco Jogos Olímpicos consecutivos, a atleta mais condecorada, entre homens e mulheres, na história dos Campeonatos do Mundo, com 20 subidas ao pódio, e, com um total de 31 medalhas nos Jogos Olímpicos e nos Mundiais, a atleta mais condecorada de sempre na história do atletismo
No entanto, mais que uma lenda do atletismo, Allyson é, há 7 anos, mãe. Camryn, ou “Cammy”, nasceuemnovembrode2018,efoitudomenos uma gravidez de sonho Acontece que Allyson enfrentouumacomplicaçãorelacionadacoma
gravidez que colocou a sua vida, e a da filha, em grave risco Camryn nasceu prematuramente, mas tanto ela como a mãe estavam a salvo
O que não estava a salvo era o contrato que Allyson tinha com a marca Nike Praticantes profissionais de atletismo dependem bastante dos seus patrocínios de marcas desportivas, como a Nike Em 2010, Felix assinou com a marca amerciana,
inspirada pela iniciativa Girl Effect, que a fez acreditar que, ao fazê-lo, estaria a empoderar mulheres e raparigas pelo mundo inteiro Bem, chegamos a 2018, o seu contrato precisa de ser renovado, e Allyson engravida; “the kiss of death” da indústria desportiva.
Allyson apressou-se a regressar à competição, apesar da gravidez que lhe colocou a vida em risco, mas as negociações correram ostensivamente mal Felix pediu a garantia de que não seria prejudicada se a sua performance nos primeiros meses de regresso não fosse positiva; a marca recusou, e ofereceu somente 70% daquilo que a atleta recebia antes da gravidez Repito, reduzir em 70% o ordenado de uma das atletas mais prestigiadas do mundo por ter sido mãe Não vejo nenhum atleta a ver os seus patrocínios dramaticamente reduzidos por se tornar pai
Em 2019, tornou-se a primeira patrocinada da Athleta, que lhe ofereceu um contrato com todas as garantias de maternidade e de acordo com os seus valores, e, em 2021, cofundou a marca de calçado Saysh
Após todas as complicações fora das pistas, Allyson conquista um ouro e um bronze olímpicos, e três ouros e um bronze mundiais (desde 2021 com a sua própria marca nos pés), tornando-se, então, a americana mais condecorada na história dos Jogos Olímpicos
Ana,
Prometi que te escrevia. Desculpa não encontrar as palavras corretas para dançarem contigo nesta noite trémula Vestes as estrelas e perco-me em cada brilho intermitente teu, somente ofuscado pelas tuas mãos. Não te escondas, as ruas alegram-se ao sentir os teus pés, a memória dos que contigo partilham memória ri-se Às gargalhadas, como nós em salas alheias. O teu sussurro segreda sons inalcançáveis à mais organizada orquestra, belo no seu movimento e no seu sentido Obrigada por deixares comigo a tua força, quando não lhe permitem a entrada. Juntas esperamos por ti à porta, enquanto fazemos festinhas a gatinhos Sei que todos encontram em ti o colo seguro que tu própria ergueste para uma só inquilina – tu mesma. As leis da criação ainda não demovem apoio para quem sozinha se tem de levantar do chão, limparferidas e sarar Espero que saibas, com a mesma convicção que ofereces o teu nome, que mereces ser ouvida. Nem os poetas abriam os cadernos para as musas escreverem o que verdadeiramente se passava, naquelas dimensões oniricamente projetadas; nem os poetas conseguiam fazer jus a quem imaginavam. Muitos deles desistiram, outros continuaram a lançar o dardo contra a janela, afastando-se da parede essencial, partindo o vidro. Nunca apanharam os cacos, sabem que tu varres tão bem o chão Nunca viram o teu sangue escorrer, abandonam a sala antes de chorares, pedem para te calares antes de pestanejares. Ana, promete-me que, enquanto podemos, continuas a guardar-me momentos do teu dia Quem sabe se a foz não se inverte, se a explosão não se evita, ou se a tosta vem com fiambre e tenho de pedir para repetirem o teu processo A espera torna-se vida a teu lado Anseio pela hora em que te vejo e posso perguntar, finalmente, como foi ser mulher mais um dia. Quantos poemas escreveste entre as borras do café, quantas moedas perdeste por cima dos ombros ou quantos gritos afogaste no teu ser. Gostava que nada nos ficasse por dizer ou fazer, gostava de saber apresentar em objeto a casa que criei para ti no meu peito Embora não o saiba, embora tenha as mãos habituadas à secura, à frieza e ao suor dos tempos, peço-te para que acredites que a gentileza que, em uníssono criamos, hidrata e dá teto Peço-te que conjetures sobre mim Espelha a tua singularidade no meu ser e navega-me por entre as tuas linhas de crochê, por entre o verde esmeralda dos teus anéis Acompanharei o teu passo curto, a tua delicadeza fluída ao vento, oferecendo os meus sentidos, para o máximo de ti reter Em vão te prometo uma carta objetiva, pois, a nada concreto se assemelha o amor que despertas do adormecimento profundo da minha apatia Amanhã, quando faltar uma hora para o sol se pôr, ver-te-ei por entre a calmaria dos teus cabelos e o caos do tempo que me pede para partir Obrigada por me dares o privilégio de te reencontrar em cada menção rememorada, em cada bolacha de chocolate, em cada linha dourada
Até amanhã, menina-mulher embalada
Aurora
FranciscaDantas
às vezes gostava que dormisses debaixo da minha cama para veres que durmo em silêncio mas que por entre escuros se ouve o barulho dos meus pesadelos a tentarem furar-me a testa uma armada preparada a gritar nas trincheiras do meu subconsciente a correr de um lado para o outro a arrastar memórias engolidas à meses e a arrotá-las numa tela em branco eu vou rodando a cabeça mas eles continuam a gritar e a tentar escorregar pelo ouvido para a almofada pelo lado que eu durmo melhor
AuroraVieira
De manhã, ela acorda mais cedo, mas não mais cedo que a avó que já a espera com um copo de leite com chocolate e uma torrada quentinha A avó come o mesmo, mas misturado numa taça, o que faz um pouco de confusão à neta
Depois, ela veste o seu vestido rosa, calça as suas sandálias da mesma cor, e escova o cabelo loiro, liso e curtinho, muito lentamente O sonho dela era que ele fosse tão grande como o da Rapunzel um dia vai lá chegar, espera ela
Mais tarde, as duas vão a pé até ao minimercado da senhora Palmira Lá a avó pede para escolher o pão mais “branquinho”, que é o preferido da menina, que todos dizem que já está “tão crescida” Ao chegar a casa, ela liga a televisão e contempla por breves segundos qual vai ser o DVD da Barbie que vai rever pela 102834645ª vez e busca a caixa das bonecas enquanto a avó prepara um almoço delicioso Entre aventuras e fantasias, passam-se horas e horas a brincar Cada boneca tem um nome e uma história, mas isso pode mudar muito depressa consoante o decorrer da narrativa Àtarde, ela vai estudar com a mãe, porque vai ter um teste de Estudo do Meio na terça-feira e um de Matemática na sexta Ela pode até ter uma letra muito bonita, mas não vale de muito porque troca as letras todas então a mãe, depois de um longo dia a trabalhar, fica a ensinar-lhe que um “p” se lê “pê” e não “tê”
Isto tudo é muito complicado mas, felizmente, a mãe tem muita paciência e não desiste até a filha perceber o que é uma fração e como é que se escreve “fração”. E, mesmo quando não sabe o que um conceito significa, ela vai à procura de saber para poder explicar à filha. Tanta sabedoria e concentração deixam a menina admirada. Como é que alguém pode sertão bonita, tão inteligente e tertempo para tanta coisa?! O maior sonho dela é um dia sertão incrível como a mãe…
O dia acaba com uma sopa feita pela avó, seguida de uma fatia de bolo feito pela mesma. De noite ela dorme ao lado da mãe, porque o escuro e a solidão metem medo. Enquanto dorme, a menina sonha com um mundo mágico de princesas, fadas e sereias, tal como nas histórias que lhe contam: um mundo cor-de-rosa em que é sempre férias de verão, tudo sabe a chocolate, toda a gente tem um cão, as bonecas respondem de volta e em que ela se chama Aurora, tal como a princesa
EvaVieira
JoãoTomásPereira
CatarinaEufémia
Espera-se abril já em maio, 1954, o prado baleizoeiro na bufa diária por um melhor salário, jorna a jornaleira como o jornaleiro pelo dia que a tirania caia, pelo dia que um peito cheio não compensasse uma barriga vazia e o negrume na pele, sobre as balas de um meio sujeito perdido no seu título esperaram o dia que encerrasse o ciclo, e esse dia começou naquele Até ao soar do terceiro chumbo, Catarina nunca vira um cravo como são os nossos, até ao seu tombo na ceifa vermelha do prado cercada dos vários diferentes choros, ou talvez tenha sido a primeira a vê-los, ao longe, numa marcha dança saltitar febril, numa liberdade que mantemos içada a todo o custo até aos dias de hoje, numa luta presente pelo que foi justo. 1974, cumpre-se então maio em abril.
Catorze pares das suas olheiras idosas de mocidade empregada o viram acontecer à distância de um apontar.
Viram-na cair com um pequeno nos braços e um menor no ventre, a gigante mulher, Catarina de mármore e ceifa, melhor amiga Catarina, uma maré no seu corpo que não a deixou plantar-se sobre a injustiça, não um dia mais.
Deixou-nos assim um retrato do ditar malvado na lavoura que fora a sua vida e a dos seus. Liderou as catorze amigas da terra, e então, assim, um país, uma maré que não se deixa plantar sobre a injustiça. Levaríamos nós as mesmas três pancadas? -por uma vida melhor? -pelas amigas da terra? -pelo cumprir de abril?
Só quando chega a casa e se senta, de pernas fracas e de monstro, pode parar e reparar Não é o chão que estremece tremendo sob si, ou o céu e as estrelas no alto que lhe pairam sobre, mas ele, mesmo, do seu nome de monstro, João Tomaz Tudo lhe parece revestido por uma camada pegajosa e nojenta de frio no tato das mãos que não encontram bem a cozinha no escuro, serpenteiam a bancada de pedra, fremem os puxadores dos armários consigo, procuram algo. Quando os tremeliques cessam suspensos e pode ouvir o quarto, estático, percebe o rufar que o vem seguindo; percebe botas e botas de lá para cá, a si, marchantes, infinitas, quase, parece; uma só voz ata com um pano vermelho e um fio vermelho o que seria o caos mas é a ordem, uma nova ordem; o estrondo de cinco mil pétalas ofuscantes que se desmancham do céu, Celeste; o vermelho nas ruas do urbano e nas searas do rural, de Portugal, não é mais o do sangue derramado mas o da liberdade; um grandolar para o qual ainda não se tem palavras ou memória.
Lembramos-lhe a vida e o ser mas essas levou-as consigo. Deixou-nos mais ceifa a ceifar e a força do mármore e do trigo lembramo-la na mulher.
Maria
Crochet:
MariaAliceVasconcelos
“Malha feita com uma agulha de bico terminado em gancho.” (Priberam) Nós que se entrelaçam e que demarcam uma união simbólica entre as almas 1. 2
Mariado Céu
BárbaraSoares
Mariado
RosaVeneno
PedroLázaro
SimonedeBeauvoir
(Saladeespera)
O ambiente não era acolhedor. A janela aberta anunciava o frio do inverno, as cadeiras de plástico eram cinzentas, na TV ouvia-se mais uma notícia de guerra e sentia-se aquele cheiro típico de material esterilizado. Os posters no quadro de cortiça — claramente feitos no Canva — eram a única coisa que dava cor àquela sala de espera. O relógio, ainda no horário de verão, marcava a mesma hora há muitos minutos. Sentadas, três mulheres aguardavam a sua vez de serem chamadas para dentro do consultório.
A primeira olhava o relógio com curiosidade. Olhava para os números e para os ponteiros parados, com aquele olhar de quem finge que entende. A menina ao seu lado – pequenina, não teria mais do que 13 anos – explicava-lhe como se liam as horas e falava-lhe da professora e dos colegas. Quem lhe visse as feições notava logo o cansaço, a idade. O tempo nunca lhe tinha sido gentil, mas ela sequertinha o tempo de pensar nisso.
A segunda, sentada junto à janela com a sua pasta ao colo, encolhia-se no seu canto como quem não quer incomodar, mas a sua presença mantinha-se imponente. Atendia ligações que não acabavam. Tinha a voz controlada e passava seriedade, treinada para não hesitar. A cada ligação tirava a sua agenda da pasta e rabiscava mais um bocado. Vez por outra ouviam-se as palavras “deadline” , “call” e “meeting” a ecoarem pela sala, perdidas. Nenhuma das outras mulheres parecia entender bem aquela sopa de conceitos, mas sentiam que com certeza eram importantes.
A última usava uma roupa comprida, como se fosse uma armadura. Seu cabelo chegava aos ombros, bem cuidado e adornado com um laço. Tinha a maquilhagem bem feita, com os olhos marcados e o seu blush cor-de-rosa. Tudo em si parecia pensado. Cruzava as pernas timidamente, descruzava e voltava a cruzar, consciente de si. Segurava com força um papel, mas suas mãos tremiam. Treinava um sorriso enquanto organizava as revistas na mesa. A sua prestatividade parecia também treinada, como quem quer justificar a sua presença ali. Uma performance que gritava que também ela fazia parte daquele espaço. Os cartazes falavam sobre informações básicas acerca de tópicos femininos mundanos. A primeira não os sabia ler, mas a sua filha lhe explicava pacientemente o que cada um dizia. A segunda achou-os irrelevantes. Quem não saberia aquilo? A terceira não reparou neles, focava-se no nome que via em seu documento e que não a representava.
O tempo passou, mas o relógio não andou. A notícia mudou. Nenhuma falou. Ali, naquela sala de espera, partilhavam o mesmo espaço, mas não o mesmo mundo. Ainda assim, esperavam. Pela consulta, pelo reconhecimento, pelo descanso… Por existir sem ter que fingir.
Lá fora, cada uma seguiu o seu caminho. Uma assistiria uma conferência e tiraria notas enquanto faz o almoço. Outra teria que buscar o filho à escola e limpar a casa antes que o marido chegasse. A última voltaria para a sua nova casa, que tinha sido arranjada um bocado às pressas, antes de voltar ao trabalho e tentar mais uma vez contactar seus pais — sem sucesso. A palavra “feminismo” significava algo diferente para cada uma, tal como uma consulta de ginecologia. Íntima, silenciosa e cheia de escolhas que mais ninguém pode tomar por elas. Mas, ainda assim, algo que todas partilhavam. Afinal, não se nasce mulher. Torna-se.
MarleneVieira
“Não há cargos de lideranças para a mulher na cozinha, na restauração. Não lhes é dada essa oportunidade. As mulheres estão muito ali na sombra dos chefs. Há muitas mulheres sous chefs. Muitas mulheres.”
Entrevista de Matilde Paquete à Chef
Marlene Vieira
PARAPASSARES OTEMPO...
Horizontal
2- Primeira mulher a ganhar um Óscar de melhor fotografia
4- A mais recente campeã do mundo de salto em comprimento em pista coberta.
7- Primeira mulher a ganhar o Nobel e duas vezes vencedora.
9- Representante dos estudantes fcsher's e estudante de sociologia
10-Primeira e única presidente mulher do Brasil
Vertical
1- Dirigente do Olimpo FCSH, entrevistada na primeira edição deste ano letivo do teu jornal favorito
3- De regresso aos palcos, bem que aprendemos a tocar a sua música na flauta
5- Mãe do Fado
6- A mais recente chefe portuguesa a receber uma estrela Michelin
8- Jogadora de futebol feminino mais premiada pela FIFA