Invocando os "tropeços de ternura" dos versos de Alexandre O'Neill, o Nova em Folha coleciona as diferentes visões da redação sobre as múltiplas formas que o amor pode tomar, seja ele tropeço, encontro ou queda, numa reflexão coletiva sobre o que significa amar e desaprender a amar
Foto da capa
As Tuas Propostas
Queres ter acesso a todos os textos da edição de forma rápida?
onsulta a versão online do Jornal a cores!
Disponível no link da IO do nosso instagram @novaemfolha aefcsh
Todas as edições aceitamos propostas de textos, poemas, críticas, receitas, crónicas, bitaites, artigos desportivos, notícias e destaques, reportagens, peças humorísticas,... de qualquer alun@ ou docente da FCSH, os quais são posteriormente revistos pela nossa equipa editorial.
Aceitamos ainda propostas de fotografias, ilustrações, montagens, não só para serem incluídas na nossa edição e na newsletter, mas também para se habilitarem a ser a capa desse mês!
Basta enviares a tua arte para o seguinte e-mail: novaemfolha@fcsh unl pt
Qualquer dúvida ou sugestão não hesites em contactar-nos! Ficamos à tua espera! :)
A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual d@s membr@s da equipa de reda(c)ção e colaborador@s
Após a revisão completa do material recolhido pela equipa editorial, o seu conteúdo e versão final são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s
Este jornal é impresso em papel 100% reciclado notas
Junqueiras e Salgueiros
Viveu Bem, João Canijo - Homenagem
Once Upon a Time in Harlem, The Railroad Porter
O Mito das Almas Gémeas
A Herança da Família Roy
Para Dois
Entrevista à ativista Inês Marinho
Jan/Fev2026
Direção Carolina Ramos
Madalena Grilo Teles
Miguel Martins
Redação Alexandra Gil
Alice Couto
Bárbara Soares
Beatriz Martins
Beatriz Nunes
Carolina Ramos
Catarina Batista
Clara Figueiredo
Cyndelle Ferreira
Revisão Bárbara Soares
Carolina Ramos
Clara Figueiredo
Inês Fonseca
Joana Lourenço
Mariana Salviano
Nicoleta Manoli
Ficha Técnica
EdiçãoGráfica Clara Figueiredo
Eva Vieira
Letícia Caetano
Madalena Grilo Teles
Mariana Sousa
Matilde Brito
Natali Gonçalves
Victoria Leite
Francisco Machado
Helena Gregório
Inês Fonseca
Isabel Mendes
Iúri Soares
João Tomás Pereira
José Miguel Perfeito
Letícia Caetano
Madalena Grilo Teles
Madalena Nunes
Mafalda Monteiro
Maria Beatriz Silva
Matilde Paquete
Mercedes Basílio de Oliveira
Miguel Martins
Pedro Lázaro
Rúben Rosa
Colaboradores
Alberto Rivas
Beatriz Helena
Inês Marinho
Miguel Valverde (FCSH-UNL)
Paulo Filipe Monteiro (FCSH-UNL)
Paulo Antunes (LABCC)
Renata Ferraz (UBI/FBAUL)
Índice
Encontremo-nos, Enfim
AE em Folha - Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes
Presidenciais 2026: António José Seguro eleito
Presidente da República
Um esforço presidencial dissimulado
A violência legítima?
Rosa Sangue ao Peito
As Descobertas de Nuno Folha: Um silêncio por quebrar
Odeio os namorados das minhas amigas
Como o amor (ou a falta dele) afeta a autoestima
O Mito da Alma Gémea
Junqueiras e Salgueiros
Amor, Liberdade e Outras Epifanias Sobre a
Condição Humana
Entrevista exclusiva NeF: Inês Marinho
Ditar-me uma nova página
Amor não é só um nome
Amor
A Morfologia do Afeto
“Con Paquita no”: Drama de un matrimonio de Estado unido por la corona y separado por el
deseo
Agenda Cultural
Viveu bem, João Canijo
Uma estrofe vale mais que mil palavras
AHerançadaFamíliaRoy
Once Upon a Time in Harlem, The Railroad Porter
OValorDoQueNãoDura
Consciente Desamor - gasta-me o nome. / fizteolhar.
AmorEterno?
Onde os alunos da FCSH tiveram o seu coraçãopartido?
Consciente Desamor - haja amor que durma Imaginei-te
Mesa para dois Amor Sombrio 10%
Receitas de apaixonar por menos de 10€ Passatempos
Encontremo-nos, Enfim
Janeiro/Fevereiro
Abri o dicionário e procurei na letra A; por isso, estava logo no início Depois, o M
Vi a palavra “ameno” escrita em negrito no canto superior direito da página; estava perto “Amigdalifor-
me”, “amono” e cheguei ao O E, finalmente, ao R Encontrei! Entre “amoquecar” e “amora”, lá estava ela: a palavra “amor”. Vinquei o canto da página, não fosse o fado querer que eu ali voltasse.
“Amor”, escrito a negrito, em letras minúsculas, seguido da definição: “um sentimento que nos impele para o objeto dos nossos desejos; objeto da nossa afeição; paixão; afeto; inclinação…”, entre outros conceitos como “cativo”, “possessivo”, “conjugal”, “por ~ de Deus”, parece apenas mais uma palavra banal diria eu, na minha inocência de alguém que também não percebe muito disto Não foi a falta de palavras, mas o excesso delas que, em vez de explicar, rasgou a palavra, destripou-a e deixou-a nua, quase sem beleza. Perturbou-me, não a ausência de explicação, mas a frustração de não encontrar ali aquilo que imaginara e foi dessa expectativa frustrada que nasceu o rumo para este editorial
MadalenaGriloTeles
reconhecer a dificuldade — talvez mesmo a impossibilidade — de o definir (dadas as nossas limitações humanas). Quando falamos de “amor”, não falamos de um conceito fixo com contornos estáveis, mas de um território em permanente desdobramento, consoante quem se ama, o que se ama e de que forma se ama. Penso que talvez por isso se diga que os apaixonados são os que mais sofrem que sorte a deles!
to de amor? Eu creio que sim Se num dicionário a mais bonita das palavras fica nua, desprovida da poética que lhe dá vida; é na escolha cuidadosa das palavras e na ordenação atenta das frases que elas se tornam presença, gesto e partilha Mas não só: as palavras estranhas e até, quem sabe, as grotescas ganham uma casa Bem, esta é a parte em que paro para acalmar um pouco os vossos corações o que raio é “amoquecar”? Segundo o meu grande
dicionário laranja da Porto Editora, de 1995, é “assar na brasa” Retomando a linha de pensamento: escrever é criar um espaço e uma realidade comuns, tornar impessoal uma experiência e oferecê-la ao outro, para que cuide dela e nela permaneça, contemplando o gesto. Mas, claro, a escrita é apenas parte do gesto da parti-
Se nos propomos a dedicar uma edição ao amor, importa começar por
Contudo, não pretendo limitar-me pela indefinição e sugiro adotar uma das várias aceções de amor para nos guiar por esta edição Alain Badiou, em Éloge de l’amour, propõe pensar o amor não como uma emoção, mas como um acontecimento que transforma a experiência do mundo, deslocando o olhar do “um” para o “dois”. Ou seja, amar exige cuidar, contemplar e permanecer atento, restabelecendo uma nova forma de habitar o tempo, o espaço e a realidade comuns. Não será também a escrita um ges-
lha; é a leitura que concretiza, por fim, este encontro Só uma leitura disponível e acolhedora pode, de facto, criar uma realidade comum Não vos prendo mais aqui Vão, explorem, leiam mas façam-no com carinho, cuidado, paciência e (muita) atenção Desloquemos o nosso olhar do “um” para o “dois”; permaneçamos no gesto do outro, na sua realidade, e criemos um espaço e um tempo onde o encontro possa, por fim, acontecer.
AE EM
Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes
Presidenciais 2026: António
José Seguro eleito
Presidente da República
expressão: Panem et Circenses (pão e circo em português) Neste caso em específico, o pão refere-se à falta de uma boa educação cívica do povo português e, na falta da mesma, a população comum prefere o circo representado pelo candidato que mais espetáculo dá nos debates, ganhando, assim, vários votos diante desta camada societal Todavia, enquanto se entretém com o circo, o povo não percebe que o verdadeiro desejo por detrás da candidatura de André Ventura não é melhorar o país, mas satisfazer o seu insaciável desejo por poder e restaurar a credibilidade do seu projeto político, que foi ridicularizado pelos restantes partidos nas últimas autárquicas
É, portanto, aqui que pretendo retomar o meu ponto inicial: André Ventura não quer ser Presidente da República e podem ser destacadas inúmeras razões para tal Primeiramente, um doutor em Direito sabe perfeitamente quais os poderes do Presidente da República, segundo a Constituição, poderes
Rosa Sangue ao Peito
Tragam os bombons e as rosas vermelhas e cor-de-rosa. Amanheçam as pombas e os rouxinóis, o mundo canta Mas não se esqueçam de que há mulheres em casa a ser espancadas todos os dias No Dia dos Namorados, celebramos o amor com flores, jantares e promessas de eternidade Celebramo-lo como se fosse sempre leve e confortável, sempre seguro, sempre belo No entanto, para muitas pessoas, o amor – ou aquilo a que chamam amor – é o berço da violência
A violência doméstica não entra pela porta a gritar, a anunciar a sua chegada, não é um dos cavaleiros do apocalipse Aproxima-se devagar Começa num comentário opressor, num ciúme disfarçado de carinho, numa proibição mascarada de protecção É a princesa presa na torre e o cavaleiro a matar o dragão que a guarda, só que o cavaleiro é mais assustador do que o dragão Começa quando alguém nos convence de que o amor exige silêncio De que o compromisso exige isolamento De que não se pode amar sem se sentir dor E quando damos por nós, já não estamos numa relação: estamos num cerco
No imaginário colectivo, ainda persiste a ideia errónea e nociva de que a violência doméstica é excepcional, extrema e visível Mas a maioria das agressões acontece longe dos olhos públicos Segundo dados divulgados pelo Expresso, com base em informações da GNR e da PSP, nos primeiros 9 meses de 2025 foram registadas cerca de 25 000 ocorrências de violência doméstica Nos primeiros 6 meses do ano, 13 pessoas perderam a vida pelas patas estranguladoras deste fenómeno 100 queixas por dia 100 casas que parecem normais, relações que “até pareciam boas”, sem escapatória, sem combate, um silêncio constante porque, para quem detém o poder, é apenas mais uma quinta-feira É essa normalização do sofrimento que torna a violência tão difícil de reconhecer e tão fácil de perpetuar
Neste Dia dos Namorados, é importante lembrar que o amor não controla, não humilha, não ameaça. O amor não isola, não magoa, não pede desculpa depois de ferir para repetir tudo outra vez. O amor não vive do medo. Onde há medo constante, não há amor: há possessão
Falar de violência doméstica num dia dedicado ao amor não é estragar a celebração, é resgatá-la É reafirmar e relembrar que o amor verdadeiro não convive com a agressão e que nenhuma forma de violência é justificável em nome de uma relação, de uma família ou de uma ideia romantizada de união
Que este 14 de fevereiro sirva não só para oferecer flores, mas para abrir os olhos Para acreditar nas vítimas E para elas, espero que saibam que os seus sentimentos são válidos, todos Que o medo, a raiva, o luto, os momentos de dúvida, a resiliência silenciosa que não vêm em si próprios, importam Sejam mulheres, maridos, filhos, avós, pais, mães ou irmãos, a vossa história é a vossa história e o processo de cura não é uma linha recta, não existe um documento de Excel que defina quando devem sentir-se seguros, felizes ou prontos a falar E quando estiverem prontos, saibam que uma voz é feita para ser ouvida
Desejo a todos um São Valentim cheio de amor e alegria Cheio de chocolates e flores Cuidado apenas com as rosas, que até as mais bonitas têm espinhos
As Descobertas de Nuno Folha
Começou um novo semestre e, apesar de já estarmos a meio de fevereiro, há uma réstia de S Valentim no ar Nuno Folha, com o intuito de passar o tempo morto antes da próxima aula, está a fazer scroll no telemóvel Dicas de como impressionar a tua cara-metade, com jantares, presentes, escapadinhas românticas...
Sinceramente... – diz o rapaz revirando os olhos.
Alguém anda na direção de Nuno Folha, que está encostado ao corrimão das escadas da Torre C, em frente à máquina de café Está de tal forma imerso nas campanhas e publicidades do Dia de S Valentim, que não se apercebe da chegada da sua amiga Sara Sebenta
Hey, bestie! – Sara cumprimenta o amigo, mas vê que este não reage Terra chama Nuno!
Nuno levanta o olhar do telemóvel e defronta-se com a amiga que aguarda um sinal de vigília Ainda um pouco distraído, como se não tivesse aterrado no campus de Berna, diz:
Desculpa, estava a consumir conteúdo duvidoso e publicidade enganosa. – espreguiça-se disfarçadamente. Tudo bem contigo?
Bem, pela tua cara de desiludido, suponho que estivesses a ver a ementa da cantina e a pensar nos 3,29€ que terás de gastar por essa refeição
Infelizmente, esse não é o único problema da nossa sociedade capitalista – Nuno Folha vira o telemóvel para Sara Ena, ainda a viver na nuvem do amor? O que é que não me estás a contar? – manifestando um entusiasmo em forma de gozo Quem é o felizardo ou a felizarda?
O ponto a que eu quero chegar – responde Nuno Folha com um olhar sério – é que o amor é de tal forma comercializado que, mesmo depois da data passar, continuam a publicar conteúdos sobre presentes, jantares, escapadinhas. Mas, na realidade, isto levanta dois aspetos que ninguém vê: o primeiro é que parece que as pessoas só se lembram que estão numa relação nesta temporada, e a segunda é que não aproveitam este momento de maior visibilidade em relação ao tema para falarem do que caracteriza de facto uma relação saudável e amorosa
É deveras preocupante a forma como muitas coisas se têm normalizado e branqueado – argumenta Sara Sebenta ao ouvir os argumentos de Nuno Folha É impossível conceber como
é que mais de metade dos jovens não consideram o controlo como um comportamento violento
Isso já é inquietante e alarmante o suficiente, principalmente no que diz respeito às futuras gerações. E, por outro lado, há cada vez mais consciencialização e sensibilização sobre o tema, mas, ainda assim, e sendo a violência doméstica um crime público desde 2000, só no ano passado tivemos mais de 25 mil casos! E sabes quantas pessoas morreram às mãos de agressores? 26, o número mais alto dos últimos 3 anos – refere Nuno
A conversa de Nuno Folha e Sara Sebenta é interrompida pela professora, que passa ao seu lado em direção à sala de aula e cumprimenta-os Os dois amigos deslocam-se, silenciosamente, em direção à sala de aula Nuno vai com um ar pensativo, embalado ainda na conversa que tivera com a sua amiga e de como os aspetos falados se têm padronizado na sociedade, sendo que muitos dos que têm uma voz não falam deles.
O olhar do protagonista desta página já não é em direção à sala, mas em direção ao teu, que estás a ler esta crónica. E diz-te:
Se estás ou conheces alguém que esteja a viver em contexto de violência, o silêncio não é uma opção Procura ajuda com alguém da tua confiança, seja um amigo, familiar, ou com uma entidade competente Não estás sozinh@ nisto
Odeio os namorados das minhas amigas
Sim, eu odeio os namorados das minhas amigas, odeio-os sempre, odeio os ex, os atuais, os quase namorados e os que querem namorar comelas.
Este ódio não é generalizado, é sempre pessoal As minhas amigas aos meus olhos são mulheres incríveis, lindas, inteligentes, bem sucedidas e divertidas Por isso, naturalmente odeioosnamoradosdelas
Atenção, eu não os odeio sem razão, eu não olho para eles quando elas os apresentam e decido que os vou odiar Eu odeio os namorados dasminhasamigasporváriasrazõesválidas:
Os namorados das minhas amigas são, no geral, completos imbecis: Eles geralmente dizem ou fazem algumacoisasuperofensivaàs minhas amigas e depois agem como se fossem as maiores vítimas do mundo porque não sabemoquefizeramdeerrado.
Os namorados das minhas amigas parecem achar que as minhas amigas são filhas deles: Elesestãosempreadizer-lheso que podem e não podem fazer, com quem é que podem falar, paraondeéquepodemireoque é que podem vestir, inclusive, já aconteceu um dos namorados das minhas amigas dizer-lhe que não aqueriaafalarcomigoporqueeu andava-lhe a meter ideias na cabeça (eu simplesmente disse que não é normal um namorado sertãocontrolador)
Os namorados das minhas amigas não as eem como elas são: No geral, eles são sempre muito inseguros e tentam diminuir tudo o que elas fazem, falam mal das roupas,cabeloemaquilhagemdelas,doque elas escrevem, desenham, pintam ou fazem e das notas delas, mas quando analisamos aquiloqueelesfazempercebemosqueeles têm a capacidade intelectual, emocional e artística de uma criança de 3 anos. Para compensar são os melhores a jogar Clash Royal,oquedásem
Os namorados das minhas amigas fazem-nas acreditar que eles as tratam maravilhosamente: Decada vezquediscutem,usamexemplos dosamigosdelesquetraírama namorada,lhebateramou partilharamosnudesdela(comose nãofazerissonão fosse o básico deseralguémdecente)eperante osexemplosdadosasminhas amigasficamapensarqueafinal elesnãosãoassimtãomaus.
Os namorados das minhas amigas fazem as minhas amigas chorar: Qualquer que seja a razão, eles fazem sempre as minhas amigas chorar e eu não gosto de ver as minhas amigaschorar
Muitos dos namorados das minhas amigas já as traíram: Comoéqueelessão capazes de fazer isso quandotêmasminhasamigas lindas, inteligentes, criativas e incríveis como namoradas?Quemaugosto!!!
If you're asking yourself "How do you know?", then that's your answer, the answer is no. “ “
Quantos já ouviram a frase “o amor aparecerá quando menos esperares”? Acredito que não serão poucos.
Desde sempre que o destino é um elemento central na procura pelo amor verdadeiro e o seu beijo a quebra de todos os feitiços e maldições que nos possam ter afetado. Contudo, a ideia de que existe alguém que nos contempla completamente é ilusória e irrealista, colocando o sucesso dos relacionamentos fora do controlo de cada uma das partes envolvidas. Esta ideia é uma personificação dos nossos maiores desejos (o famoso “be them or be with them”), tal como uma estratégia de sobrevivência emocional numa cultura de namoro em declínio e com aumento da solidão Este mito é uma luz ao fundo do túnel que, após paixões desencontradas e desgostos amorosos, recompensa todas as nossas angústias, pois a nossa alma gémea “nunca faria algo assim”.
A noção de que alguém com quem nos possamos conectar profundamente num ato divino e predestinado elimina qualquer livrearbítrio das nossas ações e, assim, de fazer uma escolha afetiva racional e ponderada. Por um lado, retira dos indivíduos o peso da decisão, e , por outro, força os românticos a um estado de insatisfação e inquietação.
Because love can burn like a cigarette and leave you alone with nothing “ “
Mesmo que tentemos fugir a este mito, tudo à nossa volta o reforça, desde provérbios populares aos filmes de romance, que perpetuam a ligação de almas distantes num momento único. De Romeu e Julieta (1597) ao O Diário da Nossa Paixão (1996, 2004), todas as grandes histórias de amor podem ser prejudiciais a uma visão clara e autêntica da trajetória necessária a percorrer num relacionamento.
As famosas rom-coms incentivam a busca e insistência pela dependência emocional, tal como a aceitação de comportamentos tóxicos, pelo facto de estes serem introduzidos com tropos habituais.
O mito da alma gémea é semelhante à procura pela felicidade, na medida em que quanto mais nos focamos em encontrar a nossa cara-metade perfeita, mais frustrados ficamos por não a encontrar. Adicionalmente, o simples pensamento de que esta pode não corresponder àquilo que sempre envisionámos é imediatamente abatido por frases como “os opostos atraem-se” ou “não sabes o que é melhor para ti”
Tendo isto em conta, a existência de almas gémeas não é encontrada - é criada.
As raízes de uma conexão emocional íntima constroem-se dia após dia, através de uma descoberta constante de um mundo até então desconhecido. Se, enquanto isto acontece, acreditarmos que algures no futuro existe uma conexão destinada com outro alguém, qualquer falha ou desentendimento leva a uma culpabilização do parceiro, pois este não atinge as expectativas que poderemos ou não ter criado na nossa mente. O futuro é incerto e nós traçamo-lo com cada decisão nossa, seja ela boa ou má. Assim, a estipulação de expectativas realistas é fundamental, rejeitando a mentalidade utópica incutida pelo mito da alma gémea.
O amor é multidimensional, não estando restringido ao romântico. Talvez aquel@ colega de trabalho seja a tua alma gémea, tal como o teu melhor amigo de 10 anos; porque se a nossa alma gêmea realmente for alguém que, nas palavras de Leslie Bach, “desperta o melhor em nós e com ela partilhamos propósito e direção nos nossos desejos mais profundos”, tenho um palpite de que vamos descobrir que o amor está por todo o lado (e não só numa pessoa)
Junqueiras
e Salgueiros
Amor, Liberdade e Outras Epifanias Sobre a Condição Humana
“O oposto do amor não é o ódio, é indiferença. O oposto da arte não é feiura, é indiferença. O oposto da fé não é heresia, é indiferença. E o oposto da vida não é a morte, é indiferença.” – Elie Wiesel, escritor, laureado com o Prémio Nobel da Paz
“É muito bonito nós sermos humanos e confiarmos uns nos outros”
Entrevista exclusiva do NeF à ativista Inês Marinho
burrice aos homens de que eles não percebem referências sociais Ah eles não percebem bem, nós temos de lhes explicar tudo e dar-lhes a papinha toda feita, dizer: ‘E-U N-Ã-O Q-U-E-R-O F-A-Z-E-R
porque eles não percebem sinais”
Primeiro, se eu fosse um homem eu ia achar isso extremamente ofensivo, eu sou uma pessoa neurotípica, ia pensar: “Eu sou um homem neurotípico eu consigo perceber social cues Porque é que me estás a passar um atestado de estupidez, a dizer que eu não percebo quando uma pessoa está desconfortável? Eu percebo! Não é por eu ser um homem que eu não percebo” era isso que eu ia sentir
Para além disso, eu acho que há coisas bastante óbvias que todos percebemos Se vocês me perguntarem “Queres ir jantar hoje a minha casa?” e se eu disser “Hmm Hoje, por acaso, se calhar não sei , pronto , está bem, pode ser”, vocês sabem que eu não queria assim tanto, que eu acabei por dizer que sim, mas que eu não queria assim tanto Agora, quando passamos para a parte sexual é: “Ah mas ela não disse que não, ela até disse ‘pode ser’”
Ditar-me uma nova página
Vim hoje agora sentar-me deitar-me na relva no monte a meio do monte, deixar uma escrita me ver ditar-me apaixonado nela; mover-me deitado me arrastando na relva no verde no verbo pelo monte; ditá-la numa folha numa escrita que estou apaixonado e gosto muito. É, é por norma aqui no monte relva verde eu vejo que as galinhas os galos os gatos os ratos os patos, os papos os abraços os beijos, os leigos os meigos os monstruosos os piedosos os perversos os modestos se brincam uns aos outros queridos, olham-se de olhos brancos.
Sinto uma pequena uma amiga daquelas, apoiada firmemente nas pás dos meus ombros corcundas, provar-me nervosamente a nuca e toda a mais pele do cabelo às bicadas como se cá de dentro pudesse resgatar todo o ouro que lhe bastasse, enquanto as pequenas as amigas outras, galinhas, descuriosas preferem-me a paz; A dormência o abstrair o meditar dá-me a pousar os olhos ao longe em três árvores terrivelmente chateadas, trocando turnos de socos, socarem-se divertidamente sobre o ditar a maestria a condução do vento, e três crianças na enorme sombra conjunta da batalha brincam a imitá-las, não conhecendo violência, assim não sabendo como; Uma hiena agora, com a seriedade de um avô de jornal nas mãos, contava contornava seguia com a cabeça, com o pescoço e o olhar, os rebordos das nuvens que se formavam desformavam formavam desformavam acima, e que então escorregavam do céu numa só mesma direção, lentamente divertidas animadas nos risos contentes satisfeitos que as crianças falam fluentes, engolidas pelo mais longe do sol; Se fechar os olhos, arrefece-me o som transparente cristalino de vários muitos, milhões, milhares, centenas de órgãos de vidro tão em meu torno, or-
bitam-me a cabeça e sussurram a sua música muito muito baixinho com medo de me acordar; Estava-se sozinha pensativa também lá ela a filósofa naquele monte, sentada de pernas para o ar abraçada ao corrimão da enorme escadaria que dali se encaracolava até à cidade, e por tentar demasiado não lhe decifrei exatamente o que fazia naquele mesmo momento que estava, porque no próximo parecia tomar um outro diferente afazer distinto atrapalhado, atrapalhada, quem sabe mesmo apaixonada, mas descrevo-o em retrospetiva assim: ora amarelo, ora quarta feira, noventa e oito, doce, lúcido, de plástico, de lado; Um peixe muito muito magro que a observava (não podia estar a fazer outra coisa senão observá-la) já me olhava os olhos quando os meus o viram, mas não perdi aí muito tempo porque lá estava sentado para escrever e não para olhar (por curiosidade, porque a realidade é apaixonante, vim mais tarde saber que lá por aquele monte por aquela relva ele é conhecido como Carpa-Observadora – e diz-se impossível apanhá-lo desprevenido); Formigas e passarinhos marchavam vinham subiam os cabelos verdes da colina numa tuna sinfónica, eufórica, enquanto discutiam toda a política que lhes cabia; Cores por todo o lado tão vivas que cheiram, tão brilhantes que soam, deixavam-se sofrer umas às outras e moldavam-se em imensos pequenos acordes cantadinos, soarengos, pizicados, verdes inclinados, azuis extensos, rosas molengas, laranjas cheios, brancos oferecidos…
Livre de ser sou uma página nova como me dito nela, vejo como me ensino, choro como me nasço, tenho como me deixo, brinco como me posso, apaixonado como me doei a esta relva uma primeira vez.
Amor não é só um nome
A Morfologia do Afeto
Talvez a maior prova de amor não seja uma declaração lírica, mas a recusa firme em deixar que a indiferença leve o resto do telhado.
“Con
Paquita
no”: Drama de un matrimonio
de Estado
unido por la corona y separado por el deseo.
Dicen que el amor todo lo puede, pero hay algo por encima de eso que mueve montañas, ríos y puentes… el poder. Cuando algo tan profundo, complejo y personal como es el amor se convierte en asunto de Estado, siendo los protagonistas y reyes del tablero, meros peones del ajedrez sentimental que ellos deberían de protagonizar, acaban por simular un duelo haciéndose un “jaque mate” a sí mismos Los protagonistas de esta historia son Isabel II, Reina de España y su marido, el Rey Francisco de Asís
Isabel era una joven reina de 16 años cuando por motivos de estabilidad política dentro y fuera de las fronteras españolas, vió el Gobierno necesario buscarle un marido asegurando su linaje, su corona y su cama El “Tinder” de aquel entonces lo ejercían los distintos gobiernos europeos y los militares-políticos del país, proponiendo candidatos con o sin influencia para contentar al resto de potencias europeas, manteniéndose los equilibrios del orden mundial y dentro de España, a las distintas ramas políticas que apoyaban a Isabel Tras retirar Inglaterra y Francia sus candidatos, se decide que lo ideal es casarla con su primo Francisco de Asís Borbón
Francisco de Asís, mayor que su esposa,
era el tercer hijo del hermano más pequeño del Rey Fernando VII (padre de Isabel), por lo que la línea dinástica no le iba a conceder un papel protagonista en la Historia de España, hasta ese momento Persona de perfil bajo, pero con entereza moral y con fuertes convicciones religiosas tradicionales, era el Rey Consorte perfecto para no hacer sombra a la Reina, ni al poder político del momento Simplemente debía dar hijos a la Reina para seguir con el legado y pasar los años en el trono dando una estabilidad que era bastante frágil durante las Guerras Carlistas Pero ninguno era lo que se esperaba de un matrimonio concertado Real
El amor no era algo que solía predominar entre los matrimonios de la realeza, mas en este caso el amor nunca sería algo que les uniría, ni para buscar herederos a la Corona Isabel nunca quiso casarse con su primo odiado, pronunciando al conocer quien sería su futuro esposo la frase célebre: “¡Con Paquita no!” Aludiendo así de forma burlesca a la homosexualidad de Francisco, que por aquel entonces eran sospechas y como dijo tras la noche de boda la propia Isabel: “¿Qué podía esperar de un hombre que en la noche de bodas llevaba más encajes que yo?”.
Los destinos de la patria estaban incluso por encima de los deseos sentimentales de la Reina, aunque tuvo que mantener las apariencias en un principio, con el paso de los años esa máscara se fue quitando De los 12 hijos que tuvo Isabel, ninguno fue de su marido, ya que tanto él como ella tenían amantes, siendo satirizado en las láminas
“Los Borbones en pelotas”
Tras la Revolución de la Gloriosa de 1868, en la que depusieron a la Dinastía Borbónica, se exiliaron en Francia No sólo se acaba ahí su reinado, sino también su aparente matrimonio, quedando sentenciado para siempre Ella se instaló en lo que ahora es el Hotel The Peninsula Paris, con sus hijas y su amante más conocido y amado, Carlos Marfori En cambio, Francisco estuvo viviendo a las afueras de París, con su amante de manera casi permanente, Antonio Ramón Meneses
Tras todo lo ocurrido en sus años de matrimonio, Isabel fue a verlo cuando estaba Francisco en el lecho de muerte, quedando ella muy afectada tras la muerte de este "¡Ay, Paquito! ¿Pero qué te ha pasado?" fueron las últimas palabras a su compañero, marido y primo
fevereiro a
Cinema
fevereiro
25
26 fevereiro
22 março
07 março
Concerto
29 março
12 abril
21 fevereiro
14 março
fevereiro
19
26 fevereiro
21 março
07 março
28 fevereiro
21 março
Viveu bem, João Canijo
João Canijo: Uma Homenagem
Depoimentos:
Uma estrofe vale mais que
AHerançada FamíliaRoy
MercedesBasíliodeOliveira
OnceUpona TimeinHarlem, TheRailroad Porter
CarolinaRamoseMiguelMartins
OValorDo QueNão Dura
CatarinaC Batista
Fomos ensinados a acreditar que quando uma relação acaba, é porque algo correu mal Uma falta num momento crucial, um erro imperdoável, uma diferença que nunca conseguimos pôr de lado. Enfim, o cataclismo que derruba, um a um, os dominós que construímos em conjunto
Porque é que idealizamos sempre um só momento que deitou tudo a perder? Será que é mais fácil aceitar o fim se lhe atribuirmos um gesto dramático? Pode ser que desta forma doa demasiado para continuarmos a pensar em alguém que uma vez nos fez feliz e que pouco a pouco deixou de nos fazer
Eu gosto de defender que esquecer nunca é o caminho certo. Há relações que são tudo o que precisamos naquele momento e cujo único pecado é serem temporais, prescreverem antes de estarmos prontos para isso ou depois de nos convencemos que ainda vale a pena lutar por elas. O verdadeiro problema está sempre naquela palavra que nunca parecemos conseguir usar a menos que nos queixemos dela: timing Há relações que não falham: simplesmente deixam de encaixar Não porque tenham sido mal vividas, mas porque esgotaram o seu tempo.
Não falo apenas de romances, afinal o mesmo se aplica a amizades e aqueles amores que, apesar de nos darem mais do que qualquer par romântico poderia, não são dignificados com o “rótulo maravilha” dos filmes e séries. Lembro-me de amores e amizades que me marcaram sem permanecer: a minha música favorita continua a ser uma que o meu primeiro amor me recomendou, e confesso que, por vezes, não sei se é porque realmente é uma boa música ou se porque até hoje ouço a sua voz a murmurar-me a letra Se tiver uma filha, o seu nome vai ser o nome de uma das minhas primeiras amigas, alguém com quem já quase não falo O amor fica, em relíquias de pequenos momentos que hei sempre de carregar com este sentimento Então porquê é que um namoro ou uma amizade têm de acabar sempre num falhanço que apaga tudo o que apreendemos da relação ou da pessoa?
Talvez seja porque nos oferece uma narrativa mais simples Se algo correu mal, então devia haver uma solução; se houve um erro, então podia ter sido evitado Aceitar que algumas relações acabam sem culpa exige-nos outra coisa: obriga-nos a reconhecer que nem tudo o que é bom é feito para durar e que a impermanência não diminui o valor do que foi vivido Averdadeira lição talvez seja que nem todas as pessoas nos encontram para ficar, que o amor que nos outorgam é passageiro, mas que a pessoa que nos tornamos com ele não o é
MafaldaMonteiro
gasta-me o nome.
Gasta-me o nome, não por o usares demasiadas vezes – ainda que o queira ouvir da tua boca, na tua forma de falar, a multiplicar – mas por o dizeres como só tu sabes Nenhum Nenhuma outra Nem sabes, dizes e gastas-me o nome de (me) dizeres tão bem
Gasta-me o nome Fala-me A mim A mim de ti Diz “Mafalda” e eu vou sempre querer ouvir Não o gastarás vez alguma Nunca? Não me permito garantir.
fiz-te olhar.
E é isso que nos leva a uma certeza suave: podemos amar alguém (ou a ideia que temos desse alguém) mesmo que apenas por um instante, e continuar a carregar parte desse amor connosco, mesmo sabendo que não queremos aquela pessoa de volta O amor está nas músicas que ouvimos, nos lugares que recomendamos e que um dia nos foram por outros recomendados e numa série de memórias que moldam a nossa ideia daquele que é, talvez, o sentimento mais complexo de todos Porque a presença pode ser temporal, mas o sentimento permanece, e há valor em tudo o que não dura
Fiz-te olhar. E fez-me bem. Tratei-o mal. O olhar. De quem olha por querer (De quem olha por ser assim Sem querer) Tenho-o na forma como fui Olhei como não soube ser Fui sem devolver o olhar Teu, também Fiz-te olhar Fiz-te tão mal Como te fazer olhar e só te fazer bem?
A única certeza que temos é de que todos vamos morrer Há quem acolha o pensamento com leveza e há quem o tema A inevitável impotência para com a situação comprova a pequenez do ser humano, que abarca, sem controlo, uma força natural em si Haja coragem para viver; haja vigor para deixar morrer No processo de luto, o amor encontra-se sob diversas formas, assemelhando-se por vezes a tristeza, raiva ou ódio Sentimentos esses que testam barreiras de fé, ciência e espiritualidade, com vista à fuga do mísero corpo que os alberga, do corpo que não tem onde os acolher Pelas ruas e ruelas que a atualidade nos oferece, há quem decida depositar o que sente num cómodo apartamento. Caro e inabitável, como os de Lisboa, assim se encontra o local onde a Inteligência Artificial promete ressuscitar amantes mortos
No documentário “Eternal You” (2024), Hans Block e Moritz Riesewieck apresentam o caso Três vítimas da dor do luto recorreram a StartUps e à Inteligência Artificial para saber como se encontram falecidos Parece o início de uma anedota ou de um conto de Machado de Assis (“A Cartomante”), contudo, a verdade é que a procura por respostas depressa se tornou sinónimo de lucro capitalista O que pode ter surgido como possível expansão de conhecimentos tecnológicos, através da análise de comportamentos humanos, desembocou na necessidade de exploração das dores de utilizadores, que investiram na hipótese de se despedirem uma última vez Religiosidades à parte, é indiscutível a falha ética pressuposta Se já é ridículo ter de pagar a padres para lerem o nome do falecido na missa, sendo o cúmulo ter de pagar a cromos tecnológicos para se divertirem a falar em nome do falecido melhor amigo de alguém
Estamos a jogar Akinator com a vida real, e não parece haver vontade de colocar um travão neste TGV descontrolado. Aliás, pelo documentário, é palpável a felicidade intrínseca de quem desenvolve tais dispositivos, que não o faz por altruísmo ou por compaixão para com o luto de outrem, antes por entusiasmo da ribalta
Amor Eterno?
Como se a morte fosse a publicidade perfeita para vendas, prometendo reencontros via chatbots, avatares ou simuladores de realidade virtual O que não se prevê é que esses mecanismos respondam negativamente, pois, uma vez criados, abandonam a responsabilidade do seu criador, tal qual obras de Frankenstein
O homem, que queria conversar com o seu primeiro amor, levou com respostas asneirentas por tabela, sendo muito ténue a linha que humano e robô caminhavam, podendo o primeiro cair para a morte, se o segundo assim o pedisse Se eu já declaro guerra aberta a corretores automáticos de texto, imagino o apocalipse que travaria se um me mandasse para o caralho O computador só conheceu a amante do homem por informações dadas pelo mesmo, o que torna inconcebível o espelhamento de atitudes reais Há a diminuta chance de chegar perto da humanidade e, ainda assim, de nunca lhe pertencer A eternidade até pode ser tecnológica, mas foi criada por seres corpóreos com prazo de validade, mesmo a ideia religiosa assim o foi A mulher crente que queria saber se o melhor amigo estava bem, em descanso no céu, descobriu pelo chatbot que ele estaria no inferno, a arder, a sofrer A paz que procurava nunca chegou, por causa da vontade de um computador que tenta imitar respostas humanas Não calculo matematicamente as vezes que mando uma mensagem como “socorro” a alguém, porém, sei que são muitas e por diversos motivos Posso ter ficado sem papel higiéni-
co na casa de banho, posso ter perdido o autocarro, posso querer partilhar fofocas, quem sabe A inteligência artificial não saberá, com certeza Assim como não sabe imitar trejeitos de crianças, muito menos o seu toque Tal foi descoberto pela mãe que somente queria um abraço da sua pequena filha, tendo recorrido ao simulador de realidade virtual Colocou os óculos e, por instinto maternal dorido, as lágrimas escorriam enquanto tentava tocar na face daquela que já foi sua O momento foi explorado animalescamente no documentário, exacerbando, uma vez mais, a comercialização da dor humana por parte de outrem
O abraço não se deu, era impossível, porém, aquela mulher e os restantes participantes podem ter vivido a experiência que precisavam para aceitar a morte A negatividade com que foram recebidos no universo tecnológico pode ter sido necessária para serem reencaminhados para o mundo físico, como catapulta natural Concomitantemente, os propulsores da experiência mantêm-se agarrados ao sobejo que lhes enche os bolsos Se a atualidade já não confia em questões éticas ou métodos religiosos, assim se inicia a procura por novos e largos apartamentos onde deixar o luto descansar A tecnologia está a substituir corpos, começando pelos que já cá não estão Estaremos a viver num experimento de Harlow com os macacos Rhesus?
Baseado na iniciativa “Where New Yorkers Got Their Hearts Broken”, criada por Eloise King-Clements, o Nova em Folha convidou os estudantes da FCSH a refletirem sobre os lugares que guardam as suas próprias histórias de ruptura. A proposta foi que partilhassem connosco espaços do quotidiano que se tornaram cenários de momentos de perda ou transformação quer se tratasse do fim de um relacionamento amoroso, de uma amizade que se desfez ou de um episódio marcante da vida académica ou profissional Agora, convidamos os leitores do Nova em Folha a percorrer esses lugares e a descobrir ou imaginar essas histórias
“Tinhaacabadodesairdotrabalhoefuiveralista com as notas dos últimos colocados (aquela que é lançada na noite antes das colocações saírem oficialmente) Percebi que não tinha passado na minhaprimeiraopçãoecomeceiachorar. Pedi ao meu namorado que tinha viajado para voltar mais cedo para estar comigo, porque eu estavamesmotriste Naligação,ouviumarapariga arir-sedefundo,noquartodehoteldele.
Partiu-me o coração estar sozinha enquanto passava pelo "luto" de não ter conseguido e percebia que o meu namorado estava naquele momentocomoutrarapariga…eunãotinhaaquem mais ligar (e ainda tinha que esperar mais 2h10 pelopróximobarco)“
Quando fico acordada, penso em ti. Arregalo os olhos, reviro-me, manejo a almofada na direção, no sentido, na medida da frescura do tecido – faço por isso. Que a sonhar não sonho contigo. E quero sonhar em ti, ainda que saiba não bastar...
Por enquanto, permaneço insone, e em esforços semiconscientes por preservar-te no meu pensamento Porque não penso involuntariamente
Mas haverá gesto mais doce que sabê-lo e, por ativa oposição, em desacordo com esse facto, não conformada em não pensar-te, escolherfazê-lo? – por querer ter-te
Não é, esta insónia, uma praga que me foi rogada Tenho mão no adiamento do meu sono
A pensar em ti Para te pensar Sem amor, acordada
Imaginei-te
BárbaraSoares
Imaginei-te Não foi a primeira vez Nem sequerfoste a primeira pessoa a quem o fiz É algo recorrente, fruto de oportunidade, de momentos simples e sem importância. Basta uma presença que merece mais do que atenção momentânea Isso não te faz menos especial, faz de ti uma possibilidade
No meio das páginas e entre as linhas, em histórias contadas e reinterpretadas para serem vividas, nas noites inquietas… imaginei-te. Olhei as ruas à minha volta e vi muito mais do que lá estava Dei-te um lugar ao meu lado em transportes cheios, guardei-te uma cadeira à mesa, observei-te na esquina à minha espera, com um sorriso que inventei
Encaixei-te nos buraquinhos dos meus dias, em caminhadas impacientes, cheias de pressa para algo que não vem depressa Levei-te comigo para todo o lado, algo a que recorrer sem pensar Usei-te nas horas vagas e aborrecidas Tornei-te mais interessante Tornei-me mais interessante. Fiz de ti entretenimento infinito sem ter de te dar nada em troca. Afinal, se sou eu a escrever, posso sempre recomeçar, retroceder, repetir e ensaiar É impossível não te criar à minha maneira quando te baseias em silêncio e na minha vontade Sobrecarreguei-te, porque não ias sentir nada Talvez seja por isso que sou sempre eu quem fica cansada. Dei-te respostas certas e gestos exatos. Dei-te uma versão de ti que nem tu conheces, mas eu certamente queria conhecer Se te esforçares muito, talvez consigas corresponder ao meu pensamento Duvido Não deixei tudo perfeito, claro. Assim não teria piada. Conflitos, gritos e emoção – é o pacote completo. Intensidade sem consequências Fiz de ti um hábito, uma constância Ensaiei respostas a perguntas que nunca vais fazer, inventei memórias, fiz-te ser Emprestei-te tempo que não me pediste, mas que talvez eu queira exigir de volta. Criei-te com base em quase nada e fiz de quase nada um mundo inteiro Imaginei-te, porque imaginar é mais seguro do que esperar E porque acho que nunca te vou encontrar Por isso, esta é uma ilusão que aceito continuar a alimentar.
Mesaparadois
FranciscoMachado
Os sonhos, conturbados pelo poder sem igual, nas entranhas, numa espiral destrutiva Esses sonhos desonestos, que te levam para longe de mim.
Fica só a criação das nossas sombras, castradas pelos nossos corpos: um mito de uma paixão doentia, a vitimização das nossas almas imundas, incapazes de inventar outro modo de vida
Amorsombrio
No meu mundo todas as refeições são um ritual Quando como sozinha, gosto de aquecer simultaneamente a sopa e o prato principal, para não ter de me levantar mais do que uma vez Quando janto no sofá com a minha família (e quando estou com a disposição certa) gosto de comer tudo fora de ordem e lentamente, primeiro o prato e depois a sopa, uma clementina e um quadrado de chocolate e uma taça de arroz. Quando vou comer a restaurantes gosto de consultar o menu e escolher o que vou pedir dias antes Mais ainda, adoro julgar o que os outros pedem (é muito pouco atraente quando as pessoas pedem o prato errado e, pior ainda, quando se queixam da sua própria escolha, obviamente errada)
Nestes momentos, assumo papéis distintos, mas quase sempre de alguma forma reconfortantes na sua familiaridade Um dos mais rígidos é o que enceno na rotina de ir almoçar a casa da minha avó ao domingo A dança é simples: quando chegamos,começopor colocar os individuais
na mesa e dois copos para a minha avó, um com água e um com coca-cola (e uma palhinha!, um passo novo a que ainda não me habituei na coreografia), depois retiro os comprimidos de domingo ao almoço da caixa bem etiquetada para dentro de uma tacinha, com um Kompensan de lado A seguir, aqueço a comida da minha avó, que só come comida passada (a única exceção é a sobremesa, a maior felicidade na vida dela) e porfim levo-a na sua cadeira de rodas até à mesa, onde almoçamos tranquilamente
Por outro lado, o papel de convidada é um que não gosto muito Desde pequena, quando vou a festas na casa das outras pessoas, fico nervosa que não haja comida ou que eu não goste de nada do que há Sou daquelas pessoas que nunca ouve bem as conversas com medo de que a comida ganhe pernas, ou que alguém despache o último folhado daqueles que eu provei e gostei muito Se estes momentos são rituais, são daqueles mais
assustadores e fora de controlo, mas não daqueles sangrentos Uma vez, num momento desesperado, atirei vários doces de coco dulcíssimos que me estavam a ser forçados garganta a dentro, pela janela da casa de banho, numa festa de anos de alguém, numa casa qualquer
Já na casa do meu pai, onde há anos vivemos num caos generalizado, com talheres perpetuamente manchados, chãos sujos e frigoríficos vazios, o papel é fluído, ténue Nessa mesa de jantar (que já sobreviveu no mínimo dez mudanças de casa nos últimos vinte anos), sinto-me completamente livre e desinibida a comer, até quase a falar Ninguém quer saber se estou a comer com o queixo apoiado nos joelhos, se como diretamente do prato da minha irmã, apesar do meu ainda ter comida, se comunico exclusivamente por sons muito distantes de palavras ou se estou com um mau humor de fome tão horrível que é melhor evitar contacto visual É bom ser feia e continuar a viver
Receitas de apaixonar
por menos de 10€
Precisas de ideias económicas para impressionar aquela pessoa especial na tua vida? Nesta edição,
sugere-te um menu com prato principal e
por menosde10€!
Massa aglio i olio: cozeoesparguetealdenteemáguaa fervercombastantesal; enquantoamassacoze,cortaquatro dentesdealho(oumais,seoteucoração ouodatuacara-metadeassim entenderem)esalsaagosto; aqueceazeitenumafrigideiraeadiciona oalho,mexendocomcuidadoetendo atençãoaolume,paranãoqueimar; adicionaamassacozidanafrigideira, juntandoumpoucodaáguadacozedurae mexendo; terminacomsalsaequeijoparmesão; serveesaboreiaadois!