Bonomi
Carlo Bonomi
No coração da psicanálise esconde-se um trauma apagado. É aquele sofrido por Sigmund Freud no dia em que soube que uma de suas pacientes quase morreu após uma cirurgia que ele havia aprovado. Inconscientemente identificada como uma repetição da mutilação genital sofrida por Emma Eckstein em sua infância, essa operação despertou nele fortes angústias, que ecoavam sua própria circuncisão, o contexto violentamente antissemita e o conflito com seu pai. O reconhecimento desse fato, mantido oculto por tanto tempo, revela uma nova narrativa sobre a fundação da psicanálise, permitindo compreender como Freud pôde conceder à castração o estatuto de forma a priori do traumático, ocultando ao mesmo tempo as mutilações genitais frequentemente impostas a mulheres e meninas. O trauma não reconhecido da circuncisão inscreveu-se, assim, no sistema de pensamento freudiano como uma herança amputada, da qual brotaram e floresceram os sonhos e as fantasias de seus discípulos mais próximos. Em especial, Sándor Ferenczi, aluno e confidente de Freud, contribuiu para reconhecer esse corpo ferido, lançando novas bases para a teoria e a prática psicanalíticas.
Coordenador Daniel Kupermann
O apagamento do trauma O apagamentro do trauma
Analista com funções de formação e supervisão na Sociedade Italiana de Psicanálise e Psicoterapia Sándor Ferenczi, presidente da International Sándor Ferenczi Network (ISFN), editor-chefe da revista The Wise Baby / Il poppante saggio e editor associado da revista International Forum of Psychoanalysis.
Carlo Bonomi
Uma breve história apocalíptica da psicanálise
Em contrapartida, o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi foi sensível aos traumas impostos às mulheres pelo patriarcado. Porém, o ostracismo de sua obra promoveu uma regressão no pensamento psicanalítico. De um lado, uma concepção rígida da técnica prevaleceu, para que os psicanalistas se defendessem, por meio do distanciamento afetivo, do impacto perturbador da experiência clínica. De outro, o modo reducionista, e mesmo misógino, pelo qual a psicanálise tratou as questões do feminino e da feminilidade.
PSICANÁLISE SEM FRONTEIRAS
PSICANÁLISE
PSICANÁLISE SEM FRONTEIRAS
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O personagem central deste livro é surpreendente para o leitor inadvertido: a excisão do clitóris, ou sua cauterização, nas meninas e jovens mulheres, empregadas como práticas correntes no final do século XIX e início do século XX para o tratamento da masturbação, ao lado da circuncisão nos meninos. Com riqueza documental e agilidade intelectual, Carlo Bonomi demonstra como o silenciamento dessa violência de gênero determinou a primazia do falo e da castração simbólica no pensamento freudiano, configurando efetivamente um apagamento do trauma.
Daniel Kupermann
24/03/2026 16:57