

NEM TODA ONDA VALE A
PENA SURFAR
Preserve-se para o que for importante Velas rasgadas
A fé é mais que um sentimento
Criando espaços
Como não ser atropelado pela vida

14, Número 5

CONTATO PESSOAL
Em um dos mais poderosos e poéticos capítulos da Bíblia, 1 Coríntios 13, o apóstolo Paulo descreve o tipo de amor que os cristãos devem manifestar: “O amor é paciente, é benigno. O amor não inveja, não se vangloria, não se ensoberbece. Não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha.”1
A paciência —longanimidade em algumas versões— vem no topo da lista, o que me parece significativo, porque para manifestar franca e continuamente o amor que Paulo descreve nessa passagem é preciso estar determinado a não desistir. Não podemos reservar nosso amor para certas situações ou pessoas especiais, não podemos retê-lo quando somos decepcionados. A longanimidade é um pré-requisito. Sem ela, o verdadeiro amor não existe.
Seu significado é mais profundo que o de paciência: “virtude de suportar com firmeza contrariedades em benefício de outrem; magnanimidade, generosidade; resignação com que se suportam contrariedades, malogros, dificuldades; disposição, constância de ânimo; coragem, obstinação.”2
Como ser capaz de continuar demonstrando amor a alguém que magoa os outros ou a nós? Conceder o benefício da dúvida pode ajudar, ou seja, se houver espaço para a dúvida, julgue a favor da pessoa. É bom lembrar que também magoamos os outros com nossas escolhas impensadas, desastradas e até egoístas.
Mas a melhor maneira de ser longânime é citada na mesma passagem: “não suspeita mal”, que em outras traduções lemos alternativas interessantes: o amor não se ressente do mal, não guarda mágoas, não guarda rancor. As mágoas são reais e a cura, às vezes, demora.
Contudo, quando resistimos ao impulso tipicamente humano de reprisar as cenas que nos marcaram negativamente no tribunal de nossas mentes, mas escolhemos perdoar e esquecer de verdade, Deus nos concede o amor e a graça para continuar amando. E todo mundo sai ganhando.
Mário Sant’Ana
Pela Contato
1. 1 Coríntios 13:4–8
2. Grande Dicionário Houaiss da língua portuguesa
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Editor Mário Sant'Ana dEsign Gentian Suçi diagramação Angela Hernandez
Produção Samuel Keating
© 2013 Aurora Production AG. www.auroraproduction.com
Todos os direitos reservados. Impresso no Brasil. Tradução: Mário Sant'Ana e Tiago Sant'Ana
A menos que esteja indicado o contrário, todas as referências às Escrituras na Contato foram extraídas da “Bíblia Sagrada” — Tradução de João Ferreira de Almeida — Edição Contemporânea, Copyright © 1990, por Editora Vida.


0 DEST IN0
DAS DEPENADAS
Na fazenda em Pleasant Hill, Nova Iorque, onde passei a infância, sempre tivemos abundância de galinhas andando livremente a procura de minhocas, insetos ou ciscando para encontrar sementes para comer. Tinham uma vida feliz e tranquila. É por isso que, mesmo com meu modesto orçamento para alimentação, ainda compro ovos de galinhas caipiras. Acredito que galinhas felizes produzam ovos melhores. Uma coisa que notei quando criança é que há um sistema hierárquico bem definido entre esses animais. De um modo geral, são criaturas sociais, humildes e que não se metem na vida dos outros. Mas algumas correm pelo terreno de peito estufado, subjugando seus pares ... e arrancando-lhes as penas da cauda. A um primeiro olhar pode até parecer engraçado. Lembro-me de observar algumas galináceas depenando as colegas com tremenda arrogância. Provavelmente achavam
que tinham algum tipo de supremacia no quintal. É possível que a agressão fosse um recado para a vítima de que esta estaria muito emplumadinha e devia ser menos exibida. Talvez as galinhas sejam menos propensas a pecar com a língua e mais inclinadas aos pecados do bico. Era estranho, contudo, que a depenação da cauda alheia se tornava um desafio ferrenho. Era a Regra de Ouro pelo avesso: o que faziam aos outros era feito a elas. Quanto mais depenavam as companheiras, mais as agressoras também eram depenadas. No final, algumas das nossas belas galinhas caipiras ficavam com uma aparência simplesmente ridícula.
Essa é uma questão muitas vezes debatida pelos criadores desses bípedes. O problema é conhecido e parece que não há muitas alternativas a isolar as agressoras antes de a agressividade se generalizar. Há quem atribua esse comportamento hostil à carência vitamínica, pois as aves bem alimentadas apresentam menor propensão
a arrancar as penas das outras. Lá em casa, as mais agressivas costumavam se fazer presentes no almoço de domingo, em vez de no galinheiro.
Observando as moradoras plumadas do nosso quintal, eu, uma criança acanhada, aprendi que a melhor defesa era não se defender. Em qualquer situação social, aprendi a evitar a depenação das caudas alheias. Não sou como os animais mais competitivos da cadeia alimentar que acreditam que é comer ou ser comido, pois entendi que depenar era, essencialmente, um hábito de autodestruição. É melhor estar no galinheiro, cercada por outras galinhas, do que na panela de ensopado.
Foi o que Jesus ensinou com muita beleza no Sermão do Monte: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra."1 Ou, como os granjeiros parafraseariam, herdarão o galinheiro!
Joyce Suttin é professora e escritora. Mora em Santo Antônio, Texas, EUA. ■


Joyce Suttin

Eu tinha definições próprias para longanimidade e paciência. A primeira era tolerar algo; a segunda, nada. Entendia que ser longânime seria desejar que algo não tivesse acontecido, e que exercitar a paciência seria esperar que algo acontecesse.
Quando procurei o significado da palavra grega μακροθυμέω (translitera-se makrothumia), traduzida em algumas versões como “longanimidade”, descobri outro sentido. Makro quer dizer “longo” (até aí nenhuma novidade), e thumia significa temperamento ou têmpera, o que me fez parar para pensar. Chamamos de “pavio curto”, um sujeito que se irrita ou perde a têmpera com facilidade. Daí podemos inferir que um longânimo é alguém de “pavio longo”.
Faz algum tempo, meu cunhado voltou de uma conferência e me contou que o palestrante disse que o sujeito que costuma perder a cabeça
Colossenses 3:12–15
PAVIO LONGO
sem mais nem menos sofre de transtorno explosivo intermitente (TEI). Se o comportamento explosivo é agora considerado um transtorno psiquiátrico, então faz sentido entender que a longanimidade seja um sinal de bem-estar mental. O palestrante relatou que o TEI está atingindo proporções alarmantes e, não faz muito tempo, tive uma experiência com o problema.
Minha esposa e eu caminhávamos pela rua quando uma senhora bem vestida atrás de nós liberou uma sequência de impropérios que faria qualquer funkeiro corar. Aparentemente estava zangada com um idoso que trafegava de bicicleta pela calçada. Fiquei surpreso com a “ira na calçada” daquela mulher na meia idade que, exceto por aquele incidente, parecia ser uma pessoa elegante.
Vivemos em uma cidade de praia e é comum a população crescer nos meses de verão. É bom para a economia local, mas um desastre para o trânsito, para o preço dos alimentos
e em outros aspectos do dia-a-dia da nossa cidade que, na baixa-estação, é muito tranquila. É comum então os ânimos esquentarem junto com o clima e o exercício da longanimidade se torna uma necessidade.
Na Carta aos Colossenses, São Paulo relaciona algumas qualidades que os cristãos devem cultivar e —você acertou— longanimidade está na lista. “Revesti-vos de compaixão, de benignidade, de humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos uns aos outros … Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” —é o que une o resto— “E a paz de Deus domine em vossos corações.”1
A mensagem é clara, não acha?
Phillip Lynch é romancista e comentarista de assuntos espirituais e escatológicos. Vive em Atlantic, no Canadá. ■
Phillip Lynch
A VIDA ACONTECE
Maria
Doehler
Às vezes, quando menos se espera, temos pequenas revelações que esclarecem a perspectiva, aumentam a percepção e recarregam nossa fé. Foi o que me aconteceu outro dia.
Do ponto de vista financeiro, os últimos meses haviam sido... digamos... longos. E para completar, nosso carro estava na oficina para reparos. Enquanto esperava meu marido ligar para me informar o orçamento, perguntei a Deus por que aquilo estava acontecendo conosco, justamente quando passávamos por dificuldades. “Já está complicado.” — argumentei— “Como vamos pagar uma conta alta de oficina?”
A resposta foi simplesmente “Às vezes, na vida, essas coisas acontecem.”
Não foi lá muito reconfortador. Eu esperava algo do tipo “Eu porei fim às suas dificuldades”, ou alguma outra palavra de conforto. Contudo, não achei que a resposta de Deus tenha sido áspera ou que Ele estivesse se divertindo às nossas custas. Estava muito simplesmente afirmando que a
vida é cheia de desafios, infortúnios inesperados e decepções. Acontecem para ser superados.
Sempre prefiro o jeito mais fácil. Não me importo de ser resgatada na hora da dificuldade. Seria o ideal, mas não é sempre assim que Deus vê as coisas. Ele estava me dizendo que não vai haver sempre um milagre, alguma panaceia ou salvo-conduto que nos permita evitar os conflitos. Não que Ele seja incapaz de realizar prodígios, se essa for a necessidade, mas não é rota de fuga para os dias difíceis. Às vezes, prefere dotar a pessoa com a capacidade de superação —a graça, a força e a estamina para lidar com decepções, revezes e situações aquém do que entendemos ser o ideal. Sem dúvida, não se pode aceitar tudo que acontece como sendo “a vontade de Deus” sem resistir nem vou simplesmente permitir que minha família ou mesmo eu nos tornemos vítimas das circunstâncias da vida. Mas quando a mensagem de Deus for “Querida, essa aí você
vai ter de encarar”, devo parar de esperar um resgate para começar a confiar que alcançarei a vitória. Francamente, sei que preciso disso de vez em quando. Não gosto, mas preciso. São momentos assim que tiram minha fé da prateleira e a põem para funcionar. Não é tão místico, mas muito mais real.
P.S.: O conserto do nosso carro ficou caro e prolongou nossas dificuldades financeiras. Não foi o ideal nem o que queríamos, mas ainda me impressiono como uma pequena palavra do Senhor mudou minha perspectiva da situação. Simplesmente entender que essas coisas acontecem e que as pessoas as superam ajudou a pôr fim ao temor.
Maria Doehler foi missionária no Extremo Oriente e na África Oriental. Vive atualmente no Texas, com seu marido e filhos, onde comanda uma pequena empresa familiar ■
IrisRichard
CRIANDO ESPACOS
Decidi (antes tarde que nunca) me aventurar e fazer algo que já deveria ter feito havia tempo: aos cinquenta e tal, me matriculei numa autoescola.
Para meu desespero, na minha segunda aula, fui levada para dirigir no caótico trânsito de Nairobi.
“Tente criar espaço ao redor do seu veículo”, foi uma das primeiras instruções que recebi.
“Falar é fácil”, resmunguei enquanto, uma pilha de nervos, tentava serpentear para avançar em plena hora do rush. Apesar dos meus esforços, logo me vi entalada entre vans superlotadas das quais emanavam ensurdecedores raps, motocicletas que ziguezagueavam entre as faixas e um caminhão de entulho que se erguia como uma torre ao lado do meu pequeno e tímido sedã.
“Se não for possível ter espaço em todos os lados, tente ter espaço em

dois lados e se nem isso for possível, mantenha pelo menos em um: na dianteira ou na traseira.”
Taí uma lição que poderia ser aplicada para a vida em geral, quando me visse sitiada por problemas.
Mãe de sete e há muitos anos missionária na África, colecionei uma grande variedade de experiências, dentre as quais algumas que ameaçavam me testar além dos meus limites. Quando eu sentia que não ia dar conta, porém, visitava-me a memória a seguinte promessa: “Fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis resistir, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.”1
Estas estratégias me ajudaram:
• Criar espaço. Para lidar com situações difíceis, comecei a fazer intervalos curtos no decorrer do dia. Esses momentos criam uma folga ao meu redor, para as horas em que preciso de mais graça e energia.
• Ser sincera. Aprendi a ser sincera comigo mesma e com os outros
com respeito às minhas limitações. Meu neto de três anos —para dar um exemplo— sabe que não gosto de barulho e respeita isso, mantendo o próprio volume baixo, o que torna as horas que passamos juntos muito mais agradáveis e proveitosas.
• Criar tempo. Nossa família sempre tenta encontrar tempo para conversar sobre as coisas e levar situações difíceis para Deus em oração juntos.
• Aceitar ajuda. Permitir que os outros ajudem com situações estressantes pode ser uma salvação. De quebra, as vitórias compartilhadas tendem a fortalecer os laços de amizade.
• Tempo ao tempo. Um dia após o outro tende a acalmar os ânimos em questões controvertidas, além de dar a Deus tempo para resolver as coisas.
Iris Richard é conselheira no Quênia, onde tem sido membro ativo na comunidade em que vive e voluntária desde 1994 ■
PERDÃO
LONGANIMIDADE —O FRUTO CONCILIADOR
Rafael Holding
“O fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.”1
"Se meu irmão me ofender, quantas vezes devo perdoá-lo?" —alguém perguntou a Jesus, e depois tentou adivinhar. "Sete vezes?"
"Não... setenta vezes sete!" foi a resposta.2 Em outras palavras, devemos sempre perdoar.
Isso é que é amor! Jesus não estava falando só de ter paciência e amor para perdoar seu irmão, cônjuge ou amigos íntimos, mas também chefes autoritários, colegas de trabalho, subordinados teimosos e vizinhos rabugentos. Na verdade, todos, sem exceção. E é algo de tal forma contrário à natureza humana que só pode vir do próprio Deus.
1. Gálatas 5:22–23
2. Mateus 18:21–22
3. 1 Coríntios 13:4 NVI
4. 2 Timóteo 2:24–25
5. Levítico 19:17–18
6. Salmo 51:10
Deus não perdoou você "setenta vezes sete"? Isso não o faz querer estender esse mesmo amor e misericórdia aos outros, para que possam também vir a conhecê-lO e ao Seu perdão?
“O amor é paciente, o amor é bondoso.”3 “Ao servo do Senhor não convém brigar mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente. Deve corrigir com mansidão os que se lhe opõem.”4
Rafael Holding é escritor na Austrália. “Longanimidade—o fruto conciliador” é uma adaptação de trecho do livro da série Faça Contato , intitulado Os Dons de Deus . Para adquiri-lo, escreva para revista@contato.org). ■

Muita gente tem medo de perdoar por achar que tem de lembrar o erro sofrido, como uma lição a ser guardada. A verdade é justamente o oposto. É pelo perdão que o mal sofrido perde a força emocional, o que torna possível aprendermos com ele. Pelo poder e pela inteligência do coração, a liberação que o perdão gera expande a inteligência para resolver situações mais efetivamente.
David and Bruce McArthur, O Coração Inteligente, 1997
Quando perdoo, devo parar de carregar balas na minha viagem. Devo me livrar de todos os meus explosivos e toda minha munição de ira e revanche. Não devo “guardar rancor”.5
Não sou capaz disso. Está muito longe de mim. Posso dizer palavras de perdão, mas não consigo revelar um céu límpido, brilhante e azul sem um toque da tempestade que fermenta no meu interior.
Mas o Senhor da graça pode fazer isso por mim. Pode mudar o meu clima. Pode criar um clima bom. Pode “renovar em mim um espírito reto”6 e nessa nova atmosfera, nada fará mal nem destruirá. Os rancores vão morrer e a vingança dará lugar à boa vontade, a forte presença da vida que passa a morar no novo coração. John Henry Jowett (1864–1923) ■
ALÉM DA TOLERÂNCIA!
Ingibjörg Torfadóttir

Gostamos mais de algumas pessoas do que de outras e há aqueles que gostam mais de nós do que os outros.
Quando era enfermeira na emergência em um hospital em Reykjavik, na Islândia, eu dominava bem meu trabalho e era capaz de lidar com praticamente qualquer situação. Gostava da ação, da adrenalina e sempre me dispunha a atender aos casos mais difíceis.
Alguns pacientes eram frequentes ali —alcoólicos, dependentes químicos e moradores de rua. Eu era jovem e eles não me incomodavam. Alguns eram pessoas muito legais, engraçadas, sujeitos solitários que só queriam uma cama quente, e que estavam muito arrependidos por terem arruinado as próprias vidas. Normalmente, se comportavam muito bem se fossem tratados bem.
Durante um plantão, os paramédicos trouxeram um bêbado que estava muito resistente e não queria ser atendido. O problema é que ele estava muito doente, com água nos pulmões. Não vinha tomando os diuréticos prescritos para seu problema cardíaco e seu percentual de saturação de oxigênio estava baixo. Ele estava gritando, enquanto os paramédicos tentavam conversar com ele e lhe diziam para se acalmar.

“Deixe comigo” —disse para a outra enfermeira de plantão.
Peguei a bandeja com todo o equipamento padrão e me dirigi à sala onde o homem estava com os dois socorristas. Tão logo entrei, o paciente me olhou de uma forma horrível e começou a xingar. Fiquei sem ação. Disse que havia esquecido algo e saí. Meu coração batia forte e fechei a porta da sala. Ele parecia que estava louco e poderia me machucar! Era um homem forte e mais jovem que a maioria dos pacientes que chegava à emergência em suas condições.
O que fazer?
Depois de alguns segundos na sala de medicação, fingindo estar procurando algo, pedi a Deus que me mostrasse qual era o problema daquele homem que Ele amava. Foi a primeira vez que orei daquela forma. Quando eu era mais jovem, treinava cavalos e aprendi que quanto mais cedo você tornar a montar um cavalo que o derrubou, mais ele vai acreditar que você não tem medo dele. Respirei fundo e voltei para a sala de emergência.
Assim que entrei, estendi a mão para cumprimentá-lo, me apresentei, sorri e passei a explicar o que ia fazer. “Preciso ministrar soro intravenoso agora.” Dei uns tapinhas nas veias das costas da sua mão, dizendo o habitual: “Você vai sentir uma
picadinha” e tudo mais, como se ele nunca tivesse passado por aquilo antes. O paciente permaneceu calmo e, depois de um tempo, falei aos paramédicos que eu ficaria bem com ele, e eles se foram.
Enquanto eu segurava seu pulso para verificar a frequência cardíaca, perguntou: “Por que você não tem medo de mim?”
Apenas sorri e perguntei: “Ora, por que eu teria?”
“Não há motivo, claro”, respondeu rapidamente. “É que… bem, as enfermeiras costumam ter.”
Passou a noite na sala de trauma, onde lhe ministrei todos os medicamentos, fluidos e sais que ele precisava segundo os resultados do seu exame de sangue. Seu caso era, na verdade, bastante simples.
Quando veio a equipe do turno da manhã, vi a chefe do departamento muito zangada com os guardas de segurança, querendo saber por que não haviam ficado com aquele paciente. Quando me viu, perguntou: “Você estava lá dentro, com a porta fechada e sem um segurança?”
Havia um alerta sobre aquele homem, considerado perigoso após atacar com uma faca as enfermeiras da cardiologia. Ninguém sabe como, mas o relatório não foi inserido no sistema. Disse-lhes que ele estava
bem e, obviamente, não apresentava nenhum tipo de comportamento perigoso naquele momento.
Na noite seguinte me contaram que duas horas depois do fim do meu turno, o homem havia voltado ao seu estado irado e ameaçador, infelizmente. Todos pareciam felizes que ele havia ido.
Desde que tive essa experiência, tenho usado aquela oração sempre que me sinto incapaz de esconder o que sinto com relação às pessoas. Parece que isso traz à tona o que há de melhor tanto nelas quanto em mim. Antes eu orava para tolerar as pessoas, mas isso só as deixava toleráveis. Hoje, quando me sinto tentada a pensar que não aguento alguém, peço a Deus: “Mostre-me o que Você ama nele ou nela”. É muito mais eficaz.
Hoje sou chefe de departamento em um lar de repouso onde preciso tratar tanto a equipe quanto os pacientes com o mesmo respeito e amor. Naturalmente, existem pessoas com quem me dou melhor, mas Jesus ama todos e sabe o que há de especial em cada um. Quando peço Sua ajuda para ver esse algo especial, Ele o torna evidente.
Ingibjörg Torfadóttir é membro AFI em Reykjavík, Islândia. ■
Respostas às suas perguntas
Por que Deus está demorando tanto?
P: Estou procurando um emprego, mas não tenho tido sucesso. Se já orei e estou fazendo minha parte, por que Deus não está me ajudando?
R: Como Deus opera em nossas vidas e como escolhe fazer as coisas é muitas vezes além da nossa compreensão. É misterioso, humilhante e, de um modo geral, requer fé e paciência. Seus propósitos e seu cronograma muitas vezes diferem dos nossos.
Quando as coisas ficarem difíceis, você sentir que não estão acontecendo como você esperava, achar que suas orações não estão sendo atendidas, as provações parecerem difíceis demais, as batalhas excessivamente longas, sua fé está sob ataque, você está se sentindo cansado, desanimado e não tiver certeza se vai aguentar mais muito tempo, pode se firmar na
fundação que Deus proveu para sua fé: as muitas promessas e as palavras animadoras contidas na Sua Palavra —e descansar nesse ninho seguro.
Uma dessas promessas diz: “quando vocês orarem e pedirem alguma coisa, creiam que já a receberam, e assim tudo lhes será dado”1 —mas Deus não promete que tudo será seu instantaneamente. Seu cronograma nem sempre fecha com o nosso. Há situações em que Ele traz respostas instantâneas à oração, mas há também muitas outras nas quais dá tempo para nossa fé amadurecer e desenvolver, como um bom vinho.
A paciência é a marca de uma fé amadurecida, uma fé profunda rica e plena.
Ao longo da história, Deus testou e provou a fé das pessoas ao não atender suas orações imediatamente. Os israelitas esperaram milhares de anos pela vinda do Messias e, sem dúvida oraram e imploraram a Deus que O



enviasse, mas Deus esperou pelo Seu tempo, pela hora certa.
A paciência não é uma virtude fácil de cultivar. Na verdade, está na contramão do mundo de hoje, interessado nos resultados mais rápidos. Podem acontecer milagres súbitos e respostas à oração instantâneas quando Deus entender é o melhor, mas, há ocasiões em que Ele preferirá que passemos pelos testes, provações e desafios da vida, que surgem quando Suas respostas não são imediatas.
A fé não se manifesta somente na nossa habilidade de obter de Deus reações imediatas e milagrosas aos pedidos que Lhe fazemos, mas também na perseverança, na longanimidade e na paciência para permanecermos firmes, mesmo quando os resultados não se fizerem prontamente visíveis. “Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma.”2 ■



O espelho do casamento
“Mari-i-i-i-ie!” —ressoou por toda a casa a voz estressada de meu marido. “Onde você disse mesmo que estava minha camisa verde?”
“Está no closet, no lado esquerdo, entre suas camisas brancas e sua jaqueta.”
“Não encontrei!”
Sigo a voz escada acima e entro no quarto.
“Estou atrasado e não está onde você disse!”
“Nada de pânico. Eu pego.”
Coloco a cabeça no interior do closet por um momento e tiro de lá o cabide com sua camisa verde.
“Onde estava?”
“Exatamente onde eu disse que estava. Você não viu!”
Não sei quantas vezes passei por isso em mais de 30 anos de casamento. Antes de me casar, sabia
1. João 8:7 NLTH
2. Efésios 4:32
3. 1 Coríntios 13:7
4. 1 Pedro 4:8

que meu futuro marido funcionava diferente de mim, mas achei que poderia mudá-lo. E quando isso não aconteceu, fiquei decepcionada.
Ainda acredito na mágica do amor e no seu poder para nos mudar e transformar, mas vejo que Deus em Seu projeto fez provisões para garantir que não sejamos criaturas idênticas, mas complementares umas das outras.
A habilidade de complementação mútua tem suas raízes na aceitação, no respeito e na valorização das nossas diferenças. Não surpreende que os estudos sobre relacionamentos terminados concluam que a principal causa do fracasso é a falta de comunicação.
Estas são cinco dicas que me ajudaram a fazer a minha parte para nosso casamento dar certo:
1. Lembrar-me de todas as suas maravilhosas qualidades que me fizeram me apaixonar por ele.
2. Reconhecer nossas limitações me ajuda a não transformar copos d’água em tempestades. “Quem de
vocês estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra!”1
3. Perdoe tão logo quanto possível. “Sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.”2
4. Mantenha o senso de humor. O conselheiro matrimonial Mark Gungor comenta: “Já passou na frente de um espelho e se assustou com o que viu? O casamento é um espelho. Viver tão perto de outro ser humano faz com que você comece a ver exatamente como você é e onde precisa fazer ajustes e mudar.”
5. Peça a Jesus mais do Seu amor, quando as coisas ficarem difíceis. “O amor… tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”3 “O amor cobre uma multidão de pecados.”4
Marie Boisjoly é terapeuta do riso e diretora de “Coloreando el Mundo” (Colorindo o Mundo), uma companhia de espetáculos de palhaço e marionetes no México. ■
Marie Boisjoly
VELAS RASGADAS

Faz alguns meses, depois de um intenso período de trabalho, o que eu queria mesmo era uma folga. Eu sabia que precisava pensar no meu futuro e fazer planos, levando em conta as mudanças ao me redor que afetariam minha carreira e situação em geral, mas também pensava em investir firme em um projeto pessoal que, fazia meses, eu estava louca para começar, mas não tinha tempo. Era algo pelo que tenho verdadeira paixão e seria o início da concretização de alguns sonhos e metas pessoais.
Não sei o que provocou o que aconteceu a seguir. Talvez eu tenha me excedido fisicamente e abusado do meu já frágil estado de saúde, mas, de repente, fiquei muito doente. Exaustão era o problema dominante. A fadiga que me acometeu era tão
profunda que havia dias em que as decisões que eu tinha de tomar eram do nível “Lavo roupa ou o cabelo?”
Faltava energia para realizar as duas tarefas. Fazer mais que isso era uma impossibilidade.
Mas a exaustão não era o único sintoma estranho: dores, espasmos musculares, problemas digestivos, incapacidade de me concentrar e trabalhar por mais de alguns minutos por vez. Semanas assim se transformaram em um mês, dois, até que cheguei a um estado de praticamente incapacidade total.
Eu não parava de me preocupar. E se eu nunca ficar melhor? E se eu continuar fraca e doente o resto da minha vida? Como vou fazer para me sustentar e a minha filha mãe solteira, se continuar doente? Acho que me sentia como Madre Teresa deve ter se sentido quando disse: Sei que Deus não me dará algo que eu
não dê conta. Eu só gostaria que Ele não confiasse tanto em mim.” Minha oração diária passou a ser: “Por favor, ajude-me a superar isso. Faça isso parar. Ajude-me a sobreviver!”
As coisas chegaram ao ápice durante uma discussão acalorada com minha filha de 14 anos. “Você acreditou em Deus todos esses anos —disse ela—, mas não parece que Ele está cuidando de você. Você tem orado e pedido a Deus para curá-la, mas não curou. Você ainda está doente e sem forças!”
Por mais difícil que fosse ouvir suas palavras, percebi que eram a vocalização dos meus próprios questionamentos. Por que Deus não estava me ajudando quando eu pedia?
Sempre entendi a fé como a capacidade de lidar calmamente com circunstâncias adversas. O problema comigo era que eu não costumava
Bethany Kelly
RASGADAS


reagir bem quando as coisas não iam bem. Esse problema não era discreto e me levava à conclusão de que não tinha muita fé.
Foi quando li o poema “Não Duvidarei” e entendi que a fé não é um sentimento. Posso ter fé mesmo quando estou chorando porque minhas velas estão rasgadas, de luto pelas minhas perdas ou apertando as mãos sob minhas cruzes.” Na verdade, é quando mais preciso de fé e não posso me dar ao luxo de deixá-la escapar. É uma crença e confiança interna que tenho, apesar de não dominar a situação. É saber e me apegar ao fato de que Deus me ama e cuidará de mim, independentemente das circunstâncias, das decepções, das velas destruídas, das perdas e das cruzes; independentemente de como me sinta.
Minha saúde está melhorando e sou grata por isso, mas ainda não entendo tudo que está acontecendo. Todos os dias, tenho de tomar a decisão de desviar meu foco e processos de pensamento do temor para a confiança em Deus, da dúvida para a crença no Seu amor e cuidado infindáveis, firmar-me na Sua promessa, que diz: “Sei os planos que tenho para vós, diz o Senhor, planos de paz, e não de mal, para vos dar uma esperança e um futuro.”
Bethany Kelly é gerente de produção e fundadora da Kelly Communications Inc. Vive nos Estados Unidos. ■
NÃO DUVIDAREI
Ella Wheeler Wilcox
Não duvidarei,
Ainda que do barco mais fraco ao mais potente
Todos voltem quebrados, e suas velas nada valham;
Hei de crer que as Mãos que nunca falham,
Usarão para o meu benefício o mal aparente;
E ainda que pranteie pelas velas rasgadas, Bradarei apesar da esperança estilhaçada:
"Confio em Ti."

Não duvidarei,
Ainda que sem resposta
Retorne do majestoso trono minha oração,
Confiarei na sabedoria do amor que é minha devoção
Que negou a prece aos Seus pés posta
E mesmo que, às vezes, me tome a tristeza
Não vacilarei no meu amor ou na certeza
No poder da oração
Não duvidarei,
Ainda que o sofrimento me encha de dissabor
E os problemas se agigantem como as ondas do mar,
Acreditarei que as alturas que almejo conquistar
São apenas alcançadas pela angústia e pela dor.
Ainda que sofra e trema sob a minha cruz,
Hei de ver, com as mais severas perdas, à luz
Do maior ganho.
Não duvidarei.
Ancorada está esta fé
Como os ousados navios desafiam os ventos
Com a coragem dos homens que leva aos centos
A enfrentar vagalhões ou a morte até
E quando esta no meu dia chegar
“Não duvidarei”, há minha boca de falar
Com meu último alento. ■
NEM TODA ONDA VALE A PENA

Sem alternativas de emprego, minha situação não era das melhores. Meu chefe estava fazendo um inferno da minha vida. Egocêntrico, mal-educado e tosco, lembra o incompetente gerente do seriado The Office e se acha o melhor amigo de todos. Toda vez em que tentei lhe explicar as coisas que me incomodam, escutou com atenção e agradeceu, mas nada mudou nem se viu o menor sinal de melhora no seu comportamento. Formalizei uma queixa para o gestor superior a ele, mas não deu em nada.
Parecia que eu estava condenado a trabalhar indefinidamente naquela atmosfera estressante, sem nenhum controle sobre incidentes que
variavam de levemente irritantes a absolutamente insuportáveis. E foi um destes que finalmente me levou ao desespero. Eu estava impotente diante da situação, mas minha raiva ia me destruir se eu não aprendesse a administrá-la.
Felizmente, quando busquei a ajuda de Deus, Ele me ensinou um truque que me ajudou a sobreviver àquela situação desgastante, assim como outras similares. Usando como ilustração um dos meus esportes favoritos, o surfe de peito, ou bodysurfing, ajudou-me a me visualizar boiando, à espera de uma onda para surfar. Os surfistas não tentam pegar todas as ondas, mas esperam as que justifiquem o gasto
de tempo e energia. Quando vêm as ondas menores, em vez de remar furiosamente para pegá-las, deixam-nas passar e continuam esperando a que vale a pena. Vi que incidentes desagradáveis como o que me deixara tão irritado são como as ondas menores. É melhor deixar passar. Mero truque mental? Talvez. Mas funciona. Com um pouco de prática, aprendi a deixar passar essas situações incômodas em vez de desperdiçar energia com elas.
David Bolick é facilitador de turismo medico e cofundador da MediTravel Solutions. Vive em Guadalajara, México. ■
David Bolick
C ALMA MATINAL
Um Exercício Espiritual
Abi F. May
A Bíblia contém muitas orientações sobre como gastar tempo e energia: Devemos amar e ajudar os outros,1 disseminar as boas novas do amor de Deus,2 e levar nosso trabalho a sério,3 para citar alguns. Mas o antigo livro também ensina que, às vezes, é melhor ficar quieto e deixar Deus trabalhar a nosso favor.
“Vou pescar” —disse Simão Pedro ao outros discípulos.4
“Vamos com você” —decidiram. Isso foi nas semanas que sucederam a morte de Jesus. Os discípulos O haviam visto duas vezes desde a Sua ressurreição,5 mas pareciam ainda sem saber o que deveriam fazer.
1. Ver João 15:12; Mateus 19:21.
2. Ver Marcos 16:15.
3. Ver 1 Tessalonicenses 4:11.
4. Leia a história e João 21:3–13.
5. Ver João 21:14.
6. Ver Mateus 4:18, 21.

Alguns eram pescadores por profissão antes de serem chamados por Jesus,6 de forma que voltar para a antiga ocupação parecia ser a escolha lógica —além disso, era algo que podiam fazer.
Mas, às vezes, só fazer algo não resolve muito.
Foi o que aconteceu a Simão e parceiros naquela ocasião, pois “naquela noite nada apanharam”.
Não é difícil se identificar com a história. Mantemo-nos ocupados, fazendo coisas, mas não sempre avançamos ou realizamos muito.
Imagine os discípulos, na manhã seguinte, cansados, desanimados e com fome. Trabalharam a noite inteira sem nada conseguirem. E para completar, alguém —não sabiam quem—, grita da praia: “Vocês têm algo para comer?” A resposta foi negativa. Somente depois que obedeceram as instruções do “estranho” para “lançar a rede do lado direito do
barco” deduziram que aquele poderia ser Jesus.
Fizeram como o Mestre lhes mandara e pegaram alguns peixes —153, para ser exato. Contudo, quando desembarcaram, já havia um peixinho assando e pão fresco que os esperavam. Não precisavam ter passado a noite pecando. O Senhor era mais que capaz de atender às suas necessidades. Na próxima vez que sentir que seus esforços não estão produzindo resultados, lembre-se que Deus não espera nem quer que estejamos sempre em atividade. Às vezes, quer que simplesmente esperemos. Alguns momentos de reflexão na quietude, antes de começar um dia atarefado podem fazer toda a diferença. Esteja com Deus no início do dia e Ele estará com você no seu decorrer.
Abi F. May é educadora e escritora na Grã-Bretanha, e é articulista da Contato. ■

Com amor, Jesus
ENCARANDO A REALIDADE
Se você for como a maioria, está acostumado a um ritmo de vida intenso e a esperar resultados rápidos. O problema com isso —ou pelo menos parte do problema— é que o que foi suficiente ontem raramente basta para hoje, e a escalada das expectativas se estende ao que se espera das outras pessoas e da vida em geral.
Você luta para acompanhar a velocidade do mundo, mas, ao mesmo tempo, não consegue impedir que algumas coisas simplesmente demorem. A maioria dos problemas no ambiente de trabalho, ou de saúde ou de relacionamento não pode ser resolvida com os cliques de um mouse ou pressionando botões.
A vida pode ser difícil e, às vezes, fica difícil por um tempo. Sempre há uma saída para a dificuldade, quando você busca a minha orientação e auxílio, mas, muitas vezes, preciso de tempo para trabalhar na sua mente, no seu coração e no dos outros. Mesmo quando os problemas persistem e você se sente mentalmente exausto ou emocionalmente desagastado, estou ao seu lado, pronto para renovar seu espírito e lhe dar a paciência e perseverança para você ficar firme enquanto, juntos, resolvemos os problemas.
Não prometo uma vida livre de dificuldades. Não uso varas de condão para pôr fim aos seus problemas e lutas, mas, posso lhe dar recursos sobre-humanos que lhe possibilitarão suportar a adversidade, manter o curso na tempestade e, no final, sair mais forte, mais capaz e mais bem equipado para enfrentar o próximo desafio.