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Revista Abit Review #12

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Compartilhar conhecimento e aprender com o próprio ensinamento

JANELA DE OPORTUNIDADES

CAMINHOS PARA VENCER O CUSTO BRASIL E LIDERAR A MODA ÉTICA

EXPEDIENTE

A Revista Abit Review é uma publicação digital da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção – Abit , com artigos de convidados que aceitam compartilhar experiências e conhecimentos com outros profissionais e empresários do setor T&C. Periodicidade quadrimestral.

CONSELHO EDITORIAL

Fernando Pimentel (Dir. Superintendente da Abit), Rafael Cervone (Superintendente Área Internacional), Lilian Kaddissi (Superintendente Marketing e Negócios), Luiza Lorenzetti (Sustentabilidade e Inovação), Camila Zelezoglo (Sustentabilidade e Inovação), Patrícia Pedrosa (Comércio Exterior), Oliver Tan Oh (Inteligência Competitiva), Haroldo Silva (Economia), Sylvio Napoli (Normas e Regulamentos), Julieta Pagliuca (Eventos e Novos Projetos), Antonio Carlos Cambauva (Eventos e Novos Projetos), Roberto Lima (Comunicação e Marketing) e Leandro Mira (Comunicação e Marketing)

Coordenação Editorial: Roberto Lima – MTB 25712/SP

Diagramação e Arte: Leandro Mira

Fale com a redação (sugestões de artigos): roberto@abit.org.br

Anúncios e Patrocínios: Antônio Carlos Cambauva: antonio.carlos@abit.org.br (11) 98455 8545

ARTICULISTAS DESTA EDIÇÃO

em ordem alfabética:

Aglaé Isadora Tumelero (SENAI CETIQT) aitumelero@cetiqt.senai.br

André Hidalgo (Casa de Criadores) andrehidalgo@casadecriadores.com.br

Arthur Vinícius Dias (SENAI “Francisco Matarazzo”) arthur.dias@sp.senai.br

Braz Costa (CITEVE) bz@citeve.pt

Carla Beni (Economista) carlabeni09@gmail.com

Clarissa Magalhães (Jornalista) clarissavazmagalhaes@gmail.com

Edson Augusto Schlogl (Incofios ) comercial@incofios.com.br

Fábio Kreutzfeld (Delta Máquinas Têxteis ) fabio@deltamaquinastexteis.com.br

Fernanda Amaral (Achilles Information Limited ) fernanda.amaral@achilles.com

Francielly Almeida (GO Associados) francielly.almeida@goassociados.com.br

Gabryella Cerri Mendonça (Capricórnio Têxtil) gabryella.mendonca@capricornio.com.br

Gesner Oliveira (GO Associados) gesner@goassociados.com.br

Haroldo da Silva (Abit) haroldo@abit.org.br

Luccas Saqueto (GO Associados) luccas.saqueto@goassociados.com.br

Lucio Vicente (Instituto Akatu) lucio.vicente@akatu.org.br

Márcio Estevão (GO Associados) marcio.estevao@goassociados.com.br

Mariana Petrenko (Abit) mariana.petrenko@abit.org.br

Rachel Runge (Abit) rachel@abit.org.br

Rafael Prado (GO Associados) rafael.prado@goassociados.com.br

Roberto Lima (Abit) roberto@abit.org.br

Roberto Muniz (CNI) dri@cni.com.br

Rodrigo Tremembé (Estilista) rodrigotremembe0@gmail.com

Vinícius Morbeck (Lupo) vinicius.morbeck@lupo.com.br

Essa edição da Abit Review é um oferecimento:

A Revista Abit Review é enviada para todo mailing de associados e engajados da entidade (empresários do setor, fornecedores, profissionais, acadêmicos, pesquisadores, autoridades de governo, imprensa, estudantes e formadores de opinião). Se você quer receber a Abit Review clique aqui

ENTRE PRESSÕES E OPORTUNIDADES

OS NOVOS VETORES DA COMPETITIVIDADE

NO SETOR TÊXTIL E DE CONFECÇÃO

Em um mundo cada vez mais complexo, interdependente e acelerado, a indústria têxtil e de confecção reafirma, mais uma vez, sua capacidade de adaptação, reinvenção e protagonismo. Esta nova edição da Abit Review reflete exatamente esse momento: desafiador, mas repleto de oportunidades para aqueles que conseguem transformar pressão em estratégia e incerteza em direção.

A matéria de capa nos convida a uma reflexão profunda sobre o chamado Custo Brasil e seus impactos estruturais sobre a competitividade nacional. Como bem aponta a economista Carla Beni, não se trata apenas de superar obstáculos históricos, mas de construir um novo modelo de desenvolvimento baseado em inovação, qualificação e integração entre setores. A agenda da neoindustrialização, aqui discutida, dialoga diretamente com o futuro que queremos: um Brasil que agrega valor, que transforma conhecimento em produto e que posiciona sua indústria de forma relevante no cenário global.

Ao longo desta edição, fica evidente que competitividade, hoje, é um conceito multidimensional. Não se limita a custo ou escala. Ela passa, necessariamente, por sustentabilidade, governança, inovação tecnológica e, sobretudo, por pessoas. O avanço das lideranças femininas, a valorização da diversidade e iniciativas de inclusão mostram que uma indústria mais plural é também uma indústria mais forte.

O cenário internacional, por sua vez, reforça a urgência de decisões estratégicas. Tensões geopolíticas, impactos nos preços de energia e novas exigências regulatórias — especialmente no mercado europeu — reposicionam o setor diante de um novo padrão de concorrência. Nesse contexto, sustentabilidade deixa de ser diferencial e passa a ser condição de acesso a mercados.

A agenda ESG, aliás, permeia diversos conteúdos desta edição. Da gestão hídrica à eco-

nomia circular, da governança de emissões à construção de métricas setoriais, observamos um movimento consistente de transformação. Mais do que atender exigências externas, trata-se de uma oportunidade concreta de ganho de eficiência, redução de riscos e geração de valor no longo prazo.

Outro eixo fundamental é a inovação. Seja por meio da incorporação de inteligência artificial nos processos industriais, seja pelo desafio de levar novos materiais do laboratório ao mercado, a mensagem é clara: inovar não é mais uma escolha — é uma condição de sobrevivência. E inovar, no nosso setor, exige coordenação entre indústria, academia e políticas públicas.

Também merece destaque o papel das normas técnicas, da gestão de riscos e da segurança jurídica como pilares silenciosos, porém essenciais, da competitividade. Em um ambiente de negócios cada vez mais exigente, confiança e previsibilidade são ativos estratégicos.

Por fim, esta edição reforça um ponto central: o futuro da indústria têxtil brasileira será construído pela capacidade de atrair, formar e engajar pessoas. A renovação de talentos, aliada à valorização da cultura produtiva e ao fortalecimento do propósito, será determinante para sustentar o crescimento e a relevância do setor.

Seguimos, portanto, diante de uma janela de oportunidades. Transformar desafios estruturais em vantagens competitivas, integrar sustentabilidade à estratégia de negócios e posicionar o Brasil como referência global em moda ética e inovadora são objetivos ambiciosos — mas plenamente possíveis.

A Abit continuará atuando de forma firme e colaborativa para que esse futuro se concretize. Porque acreditamos, mais do que nunca, que a indústria têxtil e de confecção é parte essencial da solução para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do Brasil.

POR:

Fernando

Diretor-superintendente e presidente emérito da Abit

ÍNDICE

PÁGINAS VERDES

Janela de oportunidades: caminhos para vencer o custo brasil e liderar a moda ética

Especialista avalia entraves ao desenvolvimento e destaca caminhos para fortalecer produção nacional com foco em valor agregado

O novo horizonte do Seguro Patrimonial na indústria têxtil: entre o rigor técnico e o marco legal..18

Alta dos prêmios, rigor técnico e mudanças regulatórias transformam o mercado de seguros industriais e impõem novo padrão de gestão de riscos à indústria têxtil brasileira

Economia Circular: como a Lei de Incentivo à Reciclagem pode transformar o setor têxtil brasileiro..22

Regulamentação transforma imposto em investimento, amplia a cadeia de reciclagem e reforça o protagonismo sustentável da indústria da moda

Governança de emissões na indústria: dados, rastreabilidade e vantagem competitiva ..................24

Estrutura sistêmica, controle metodológico e integração tecnológica transformam a gestão climática em ativo estratégico para a competitividade empresarial

Tecendo oportunidades: inovação social para atrair a próxima geração da indústria têxtil........28

Formação estruturada de jovens, engajamento interno e impacto social mostram como o setor pode renovar talentos, fortalecer a cultura organizacional e garantir competitividade no longo prazo

O que o novo comportamento do consumidor exige da indústria têxtil ..................................... 30

Ciclos mais rápidos de moda pressionam empresas a combinar inovação, estabilidade produtiva e responsabilidade socioambiental

Lideranças femininas no setor têxtil e de confecção: diversidade como estratégia de competitividade..32

Pesquisa da Abit mostra protagonismo das mulheres na base produtiva e avanço gradual na gestão

Desafios de inovação: por que a moda visita o futuro sem nunca se mudar para lá?..........................36

Do laboratório ao mercado, a adoção de novos materiais enfrenta barreiras de escala, financiamento e coordenação entre ciência, design e indústria

Artesanias têxteis de Rodrigo Tremembé................40

Estilista do povo Tremembé leva para a moda contemporânea referências culturais, rituais e uma visão regenerativa de criação

A água que a moda consome: o que a indústria pode fazer a respeito...................................................44

Indicadores compartilhados, benchmarking entre empresas e metas comuns podem acelerar ganhos de eficiência no uso de recursos naturais na cadeia têxtil

Eficiência ambiental como vantagem competitiva na indústria têxtil....................................................48

Com mudanças em processos industriais e na gestão de sustentabilidade, a Lupo reforça como a agenda ESG pode impulsionar eficiência e posicionamento competitivo

Normas Técnicas: a base da confiança e da competitividade no setor têxtil.........................................53

Padronização, confiança e acesso a mercados: compreender o papel das normas técnicas é essencial para fortalecer a competitividade da cadeia têxtil e de confecção

Construção da matriz de materialidade do setor têxtil e de confecção no Brasil: rumo a uma agenda compartilhada de sustentabilidade...56

Iniciativa da Abit e Senai Cetiqt mapeia impactos e riscos prioritários da cadeia produtiva, criando base para indicadores e monitoramento de desempenho

Inspeção têxtil na era dos dados: quando a inteligência artificial assume o controle da qualidade.........60

Sistemas automatizados com câmeras e algoritmos avançados ampliam a produtividade, reduzem subjetividade e fortalecem a gestão industrial orientada por dados

Crie Moda Autoral Trans Forma: capacitação, diversidade e sustentabilidade na moda paulista...........64

Oficina voltada a pessoas trans, travestis e não binárias transforma reutilização de materiais em plataforma de criação, aprendizado e visibilidade no setor

Tarifa abre a porta, sustentabilidade decide o jogo: a hora da têxtil brasileira no mercado europeu......68

Novas regras comerciais com a Europa elevam o nível de exigência e colocam comprovação ambiental e governança no centro da inserção internacional

31 anos da Agenda Legislativa da Indústria: a construção permanente da competitividade da economia brasileira..........................................................................72

Instrumento consolida a interlocução com o Legislativo, reduz incertezas regulatórias e impulsiona avanços estruturais no país

56

76

Efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o petróleo e a economia brasileira

Tensões internacionais ampliam riscos inflacionários e afetam custos de energia, logística e insumos

82

Curtas

Empresas investem e são reconhecidas por iniciativas da agenda ESG e ODS.

JANELA DE OPORTUNIDADES

CAMINHOS

PARA VENCER O CUSTO BRASIL E LIDERAR A MODA ÉTICA

O cenário é de urgência: relatório de Competitividade Brasil da CNI coloca o Brasil na 18ª e última posição em um ranking que compara as principais economias concorrentes no mercado global. Este diagnóstico revela fragilidades persistentes em pilares como educação, ambiente econômico e infraestrutura, evidenciando o peso do “Custo Brasil” sobre o setor produtivo. Nesta entrevista exclusiva à Abit Review, a economista com olhar acadêmico e atuação de mercado, Carla Beni, desconstrói a ideia de um “desmonte industrial” estático. Pelo contrário, a mestra pela UNICAMP, professora da FGV e Conselheira do CORECON-SP aponta para uma resiliência da cadeia têxtil e de confecção, apesar das adversidades. Beni mergulha nos gargalos que mantem o País na lanterna da competitividade, mas foca, sobretudo, nos caminhos para a superação.

AR - O Brasil ocupa a última posição no ranking de competitividade da CNI entre 18 economias. O que esse resultado revela sobre o atual estágio de desmonte industrial do País? E em relação ao setor têxtil e de confecção, que é historicamente um grande empregador?

Carla Beni - Os dados do ranking da CNI são um chamado importante para a reflexão. O fato de ocuparmos posições desafiadoras em pilares como ambiente econômico e educação reflete obstáculos estruturais conhecidos, o chamado ‘Custo Brasil’, que ainda limita nossa velocidade de crescimento. Contudo, para uma análise completa, é preciso observar como o setor têxtil tem demonstrado uma resiliência extraordinária e capacidade de adaptação diante desse cenário. Longe de um ‘desmonte’ estático, o que vemos é uma transformação profunda. O Brasil consolidou-se recentemente como um dos principais destinos globais de Investimento Direto Estrangeiro (IDE), ocupando posições de destaque mundial. No setor têxtil e de confecção, esse movimento é nítido: grandes players internacionais estão investindo em polos de produção local, reconhecendo a nossa capacidade produtiva e a necessidade de reduzir custos logísticos globais. Os números de 2024 e 2025 são muito positivos: o faturamento da cadeia atingiu R$ 215 bilhões, com um crescimento sólido de 7% ao ano. No primeiro semestre de 2025, vimos a produção têxtil avançar expressivos 11,4%. Isso demonstra que, apesar dos desafios de competitividade sistêmica, a indústria brasileira está reagindo com investimentos e produtividade. Trazer esses dados não é ignorar as dificuldades, mas sim valorizar uma cadeia que vai da excelência no plantio do algodão até o reconhecimento internacional nas passarelas. O fenômeno de desindustrialização observado nas últimas décadas é um movimento complexo e global, fruto da transição para um modelo econômico mais financeirizado, mas o setor têxtil brasileiro prova que, com inves-

timento em inovação e integração logística, podemos ser competitivos e continuar como um dos maiores empregadores do País.

AR - Acredita que o Brasil tem condições de reverter esse quadro ainda nesta década? Se sim, quais seriam as medidas necessárias por parte do governo, dos empresários e até mesmo da academia?

Carla Beni - Acredito que sim, o Brasil tem uma janela de oportunidade única nesta década, mas a reversão não virá de uma medida isolada, e sim de um pacto de coordenação entre os setores público, privado e acadêmico. Temos ativos que o mundo hoje valoriza, como a matriz energética limpa e uma das cadeias têxteis mais completas do planeta. Para que isso se transforme em competitividade real, as ações precisam ser divididas em três frentes:

Pelo Governo: o foco deve ser a simplificação e a redução do ‘Custo Brasil’. A implementação plena da Reforma Tributária é um passo crucial para desonerar investimentos e exportações. Além disso, precisamos de políticas de neoindustrialização que incentivem a inovação e garantam segurança jurídica para o capital de longo prazo.

Pelos Empresários: o caminho é o investimento contínuo em modernização tecnológica e sustentabilidade. O setor têxtil precisa liderar a transição para a economia circular e a digitalização dos processos (Indústria 4.0). A competitividade hoje não nasce apenas do custo baixo, mas da agilidade em responder ao mercado e do valor agregado à marca brasileira.

Pela Academia: é fundamental estreitar a distância entre o laboratório e a fábrica. Precisamos que as universidades foquem em pesquisa aplicada que resolva dores reais da indústria — como o desenvolvimento de novas fibras sustentáveis e processos químicos menos poluentes — além de formar talentos preparados para a nova economia digital.

Se conseguirmos alinhar a nossa capacidade produtiva com as demandas globais por ESG (Sustentabilidade, Social e Governança) e eficiência logística, não apenas reverteremos o quadro atual, mas colocaremos o Brasil como um hub global de moda ética e competitiva até 2030.

AR - A professora tem apontado que o financiamento, especialmente a taxa de juros e o spread bancário, é uma problemática central. Como essa barreira financeira impede que as empresas invistam na renovação de maquinário e na absorção de novas tecnologias?

Carla Beni - Essa é, sem dúvida, a principal trava estrutural para o crescimento do País. Quando analisamos o ranking da CNI, o ‘ambiente econômico’ aparece como nosso maior gargalo justamente porque o custo do capital no Brasil é proibitivo. Do ponto de vista de um economista, vivemos um cenário de estrangulamento da economia real. Com a taxa Selic e o spread bancário nos níveis atuais, o custo de oportunidade é devastador. É muito difícil convencer um investidor a assumir o risco de modernizar uma planta têxtil ou importar maquinário de última geração se o capital parado, remunerado por títulos públicos, oferece retornos de dois dígitos com risco quase zero. Isso desestimula a inovação e premia a inércia financeira. No setor têxtil, a tecnologia avança em ciclos rápidos. Para sermos competitivos frente à Ásia, precisamos de máquinas mais eficientes e sustentáveis. Porém, o financiamento de longo prazo com juros reais tão elevados torna o ROI (Retorno sobre Investimento) inviável para o médio empresário. O resultado é um parque industrial que envelhece precocemente por falta de acesso a crédito competitivo. Além da produção, o spread impacta a outra ponta. A inadimplência das famílias não é apenas um dado social, é uma barreira de demanda. O crédito caro retrai o consumo de vestuário e bens duráveis, criando um ciclo onde a indústria não investe porque o custo é alto e a demanda é incerta.

Enquanto não enfrentarmos essa distorção do sistema financeiro, continuaremos exportando poupança e importando bens de capital. Reverter esse cenário é urgente para que o capital volte a servir à produção, e não o contrário.

AR - O relatório da CNI destaca a alta complexidade tributária como um problema estrutural preocupante. De que maneira o chamado “Custo Brasil” tira a competitividade dos produtos industriais, assim como com os artigos têxteis e confeccionados importados, principalmente da Ásia?

Carla Beni - Esta é uma questão fundamental, pois a complexidade tributária brasileira atua como uma “âncora” que impede a indústria de navegar com a mesma velocidade que seus concorrentes globais. Há uma assimetria de competitividade: Enquanto o produtor brasileiro lida com uma das legislações tributárias mais complexas do mundo, gastando milhares de horas por ano apenas para cumprir obrigações burocráticas, os artigos importados, especialmente os asiáticos, frequentemente entram no País com estruturas de custos muito mais enxutas e, por vezes, beneficiados por subsídios em seus países de origem. Essa disparidade cria uma ‘corrida de obstáculos’ onde o brasileiro larga muito atrás.

A Reforma Tributária, que iniciou sua fase de implementação este ano, é o passo mais concreto que já demos para romper esse ciclo. A transição para o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) promete eliminar a cumulatividade e simplificar radicalmente o custo de conformidade. No entanto, para o setor têxtil, o sucesso dessa transição depende criticamente da calibragem das alíquotas e da agilidade na devolução de créditos tributários. Se bem executada, a reforma tem o potencial de ‘limpar’ o resíduo tributário que hoje encarece a produção, permitindo que a indústria nacional dispute o mercado global — e o doméstico — com base na sua eficiência produtiva e criativa, e não mais no fôlego para suportar distorções fiscais.

AR - O Brasil ficou em último lugar nos critérios de educação e formação de mão de obra, segundo o levantamento. Como essa deficiência educacional impacta a produtividade no chão de fábrica, na indústria de uma forma geral e nas tecelagens e confec-

ções, considerando a capacidade instalada a partir dos processos da Indústria 4.0?

Carla Beni - Para responder a essa questão, precisamos primeiro revisitar o conceito de produtividade. Desde que François Quesnay cunhou o termo em 1766, e Adam Smith o refinou em 1776 com a divisão do trabalho, entendemos produtividade como a relação matemática entre o que se produz e os insumos utilizados. No entanto, no século 21, essa visão puramente quantitativa precisa ser questionada. Quando o relatório da CNI coloca o Brasil em último lugar em educação, ele expõe um gargalo que vai além da métrica fria. Na Indústria 4.0, a produtividade não é apenas ‘produzir mais com menos’, mas sim a capacidade de interagir com sistemas complexos. Minhas ponderações sobre esse cenário são: Uma bordadeira no Brasil não é menos produtiva ou talentosa que uma bordadeira na Itália em termos de habilidade manual. Jamais. A deficiência educacional que o ranking aponta não é de ‘capacidade’, mas de acesso às ferramentas tecnológicas. O impacto no chão de fábrica é que a nossa mão de obra, muitas vezes, é privada da formação técnica necessária para operar máquinas de última geração que exigem programação e análise de dados em tempo real.

Precisamos perguntar: qual o custo humano e ambiental de uma produtividade baseada apenas em escala? A falta de investimento em educação nos prende a um modelo de baixo valor agregado. Uma mão de obra bem formada permite que a confecção brasileira migre da ‘escala exaustiva’ para a ‘maestria tecnológica’, onde a qualidade e a sustentabilidade geram mais valor que a simples quantidade.

A Indústria 4.0 nas tecelagens — com sensores, IA e automação — exige um trabalhador que seja um ‘resolvedor de problemas’. A deficiência educacional cria um descompasso: temos a capacidade instalada (máquinas modernas), mas falta o letramento digital para extrair o potencial máximo desses equipamentos.

Portanto, reverter o último lugar na educação não é apenas para ‘bater metas de produção’, mas para dar dignidade ao trabalhador, permitindo que ele seja o protagonista de uma indústria mais inteligente, menos braçal e ambientalmente responsável. A educação é o que transforma o ‘insumo trabalho’ em conhecimento aplicado.

AR - As más condições das rodovias e a pouca eficiência dos portos foram citadas como entraves ao desenvolvimento. Qual o peso real desse custo logístico para uma indústria?

Carla Beni - O peso desse custo é, literalmente, o que nos tira do mercado global. Não importa quão eficiente seja o empresário dentro da sua fábrica se, ao cruzar o portão, ele perde toda essa competitividade para a infraestrutura precária. Para o setor têxtil, o impacto é devastador por três motivos principais:

1. O setor têxtil trabalha com coleções e tendências rápidas (fast ou ultra-fast fashion). Rodovias ruins aumentam o tempo de transporte e a incerteza. Isso obriga a empresa a manter estoques maiores para não parar a produção, imobilizando um capital que, como discutimos, custa caríssimo no Brasil devido aos juros. Caminhão parado ou lento é dinheiro perdendo valor.

2. Enquanto um porto eficiente na Ásia ou na Europa movimenta mercadorias com precisão cirúrgica, nossos gargalos portuários geram taxas extras (como o demurrage) e burocracia. Isso encarece tanto a importação de fibras especiais e maquinário quanto a exportação do nosso produto acabado. É um ‘dumping logístico’ que jogamos contra nós mesmos.

3. Estradas precárias aumentam o consumo de combustível e a emissão de CO2 por peça produzida. Em um mundo que exige rastreabilidade e baixa pegada de carbono, nossa logística deficitária torna o produto brasileiro ‘ambientalmente mais caro’ de forma desnecessária.

Em resumo, a logística ineficiente atua como uma alfândega interna. Ela taxa o produto brasileiro em cada buraco da rodovia e em cada dia de atraso no porto. Investir em infraestrutura não é apenas ‘obras públicas’, é reduzir o preço do vestuário na ponta para o consumidor e viabilizar a exportação da nossa moda com agilidade competitiva.

AR - A Abit Review tem dado visibilidade a temas relacionados à bioeconomia, novos materiais como o micélio. De que forma o Brasil pode aproveitar as oportunidades em recursos naturais citadas no relatório da CNI para liderar a inovação em têxteis sustentáveis?

Carla Beni - Para entender como o Brasil pode liderar, precisamos primeiro entender o que é o micélio. De forma simples, o micélio é a estrutura ‘raiz’ dos fungos. Enquanto o cogumelo é o fruto visível, o micélio é uma rede subterrânea de hifas (filamentos microscópicos) que cresce de forma acelerada, agindo como um aglutinante natural de matéria orgânica. Na indústria têxtil, o micélio não é apenas uma matéria-prima; ele é uma tecnologia de biofabricação. Ao cultivá-lo em moldes sobre resíduos agrícolas (como palha de arroz ou bagaço de cana), o fungo ‘tece’ uma estrutura sólida e flexível que, após ser tratada e prensada, resulta em um material com a mesma textura, maciez e resistência do couro animal, mas com uma pegada de carbono drasticamente menor.

Liderar a inovação em têxteis sustentáveis significa converter nosso ‘capital natural’ em ‘propriedade intelectual’. O Brasil tem a oportunidade de deixar de ser apenas um exportador de fibras brutas (como o algodão) para ser um exportador de biotecnologia têxtil, ocupando o topo da cadeia de valor da moda ética mundial. Stella McCartney e Adidas já usam esta tecnologia, provando que a demanda global já existe. Algumas vantagens que temos ajudam a explicar o entusiasmo que eu tenho na possibilidade do Brasil liderar esta inovação.

Temos vantagem competitiva em biodiversidade. O Brasil possui mais de 300 plantas fibrosas e uma variedade imensa de espécies de fungos nativos ainda não explorados comercialmente. Isso nos permite desenvolver materiais exclusivos, com propriedades térmicas e de resistência superiores às de espécies asiáticas ou europeias.

Temos abundância de descarte para a biofabricação. Como somos um gigante agrícola, geramos milhões de toneladas de biomassa residual. O micélio utiliza esses resíduos como substrato para crescer. Ou seja, transformamos o que seria descarte do agronegócio em artigos têxteis de alto valor agregado.

AR - Qual a sua avaliação sobre as políticas atuais de incentivo à neoindustrialização para o setor de transformação como, por exemplo, o edital de inovação tecnológica disponibilizado pela Finep? Subvenção

econômica para estudos como esse é uma boa alternativa?

Carla Beni - Minha avaliação é que estamos vivendo uma retomada necessária da intencionalidade pública no desenvolvimento industrial. As políticas de neoindustrialização, como o programa Nova Indústria Brasil (NIB), deixam de ser genéricas para se tornarem orientadas por missões estratégicas. O setor de transformação, e especificamente o têxtil, é um dos maiores beneficiários potenciais dessa nova visão. Sobre o papel da Finep e o uso de subvenção econômica, minha posição é de defesa enfática por três razões centrais: Compartilhamento do Risco Tecnológico: Inovar na indústria de transformação — seja desenvolvendo tecidos inteligentes ou escalando o uso de micélio — envolve um risco que o setor privado, muitas vezes sufocado pelas taxas de juros que discutimos, não consegue carregar sozinho. A subvenção atua onde o mercado falha: ela fornece o fôlego financeiro para que o erro faça parte do processo de aprendizado técnico, algo vital para saltos disruptivos.

Alinhamento com as Fronteiras Globais: O edital da Finep, ao focar em digitalização (Missão 4) e bioeconomia (Missão 2), coloca a confecção brasileira na mesma mesa de inovação que a Europa e os EUA. Sem esses recursos não reembolsáveis, o Brasil ficaria restrito a comprar tecnologia de prateleira do exterior, mantendo-nos na periferia da cadeia de valor.

Indução de Investimento Privado: A subvenção econômica funciona como um selo de confiança. Quando o Estado aporta recurso em um projeto de PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação), ele sinaliza para o mercado que aquela tecnologia é estratégica, atraindo outros investimentos privados e fortalecendo o ecossistema de startups e universidades (a hélice tripla que mencionamos anteriormente).

Em suma, a subvenção para estudos e inovação tecnológica não é apenas uma ‘boa alternativa’; ela é o único caminho viável para um país que deseja fazer a transição de uma economia de baixo custo para uma economia de alto valor agregado. É a ferramenta que permite transformar o nosso capital natural em propriedade intelectual brasileira.

É importante ressaltar que a subvenção não deve ser um ‘cheque em branco’. Sou entusiasta das cláusulas de condicionalidade nesses editais. Ao atrelar o recurso a metas claras — como a manutenção de empregos qualificados, a redução comprovada de resíduos no tingimento ou o cumprimento de metas de descarbonização — garantimos que o benefício para a empresa se reverta em um ganho direto para a sociedade. Assim, a política industrial deixa de ser apenas um incentivo financeiro e passa a ser um contrato de progresso socioambiental.

AR - O País foi mal avaliado em critérios como relações de trabalho, diversidade e inclusão. Como o avanço nessas agendas sociais pode se transformar em um diferencial competitivo para as marcas de moda brasileiras no mercado externo?

Carla Beni - Essa avaliação do ranking da CNI nos mostra que ainda tratamos a agenda social como um ‘custo’, quando deveríamos tratá-la como nosso maior ativo de diferenciação. O mercado de luxo global está mudando: o consumidor não compra mais apenas estética, ele compra a ética da jornada. Minha visão para o futuro têxtil brasileiro é a união do micélio com o crochê. Explico:

O desfile de inverno 2026 da Stella McCartney, ao abrir com o crochê que remete às colchas de nossas avós, sinaliza que o ‘feito à mão’ é o novo ápice do luxo. O Brasil tem uma diversidade cultural e artesanal imensa, mas que

muitas vezes opera na informalidade ou em condições precárias. Avançar na agenda de relações de trabalho e inclusão significa dar dignidade e rastreabilidade a esse artesão. No mercado externo, uma peça de crochê que carrega a história de uma comunidade incluída e bem remunerada vale muito mais do que uma peça de escala industrial. A baixa avaliação em diversidade e inclusão é um erro estratégico. A moda brasileira é vibrante justamente pela nossa pluralidade. Marcas que incorporam essa diversidade na gestão e na criação entregam coleções com mais repertório e autenticidade. No exterior, o Brasil ‘copiando a Europa’ não tem força; o Brasil que apresenta sua identidade diversa é imbatível.

O diferencial competitivo da marca brasileira lá fora será a capacidade de contar uma história onde a tecnologia de ponta (micélio) convive com o afeto do artesanal (crochê), tudo sob um guarda-chuva de justiça social e respeito ao trabalhador. Isso não é apenas inclusão, é estratégia de posicionamento de alto valor.

Nesse cenário, o papel das cooperativas de mulheres e associações de artesãs é o verdadeiro motor dessa transformação. Elas são as guardiãs desses saberes ancestrais, como o crochê e a renda, e representam a base da nossa pirâmide produtiva. Ao fortalecer essas redes com crédito, formalização e acesso ao mercado, não estamos apenas promovendo inclusão social; estamos escalando um modelo de negócio feminino e coletivo que é a antítese do fast fashion predatório. O Brasil que

exporta a moda feita por essas mãos exporta dignidade, afeto e uma estética que o mundo deseja, mas que só nós sabemos produzir.

AR - Em suas análises recentes, a professora alertou que os conflitos globais trazem prejuízo à economia. Como a estabilidade geopolítica afeta as cadeias globais de valor? E em relação a suprimentos têxtil e a volatilidade dos preços das commodities (como o algodão e fibras sintéticas)?

Carla Beni - Minha análise é que a instabilidade externa deve ser o maior argumento para a nossa reindustrialização. Reduzir a dependência de insumos voláteis e fortalecer a produção local não é apenas uma escolha econômica; é uma estratégia de segurança nacional. Ao produzirmos ‘da fibra à passarela’ em solo brasileiro, protegemos nossa economia das tempestades geopolíticas e garantimos a previsibilidade que o investidor tanto busca. Explico.

A estabilidade geopolítica é o alicerce de qualquer planejamento industrial de longo prazo. Quando o cenário global se fragmenta em conflitos, passamos de uma era de ‘eficiência máxima’ para uma era de ‘resiliência máxima’. As cadeias globais de valor, que antes buscavam o menor custo em qualquer lugar do mundo, agora buscam segurança e proximidade. No setor têxtil, essa volatilidade é observada em duas frentes críticas: O algodão é uma commodity cotada em dólar na Bolsa de Nova York. Conflitos geopolíticos geram instabilidade cambial e pressões inflacionárias nos insumos agrícolas (como fertilizantes), o que encarece a pluma antes mesmo de ela virar fio. Já as fibras sintéticas (poliéster, poliamida) são derivadas do petróleo; qualquer tensão no Oriente Médio ou no Leste Europeu dispara o custo de produção do setor, comprimindo as margens da indústria de transformação que não consegue repassar esses custos ao consumidor final na mesma velocidade. A segunda frente está relacionada com a quebra da Logística Global: Conflitos em rotas marítimas vitais aumentam o valor dos fretes e o tempo de espera. Para o setor têxtil, que depende de coleções sazonais, um atraso de 30 dias pode significar o fechamento de uma estação com prejuízo. É o que chamamos de ‘risco de ruptura’.

É neste cenário de incerteza global que o Brasil pode se destacar. Se tivermos estabilidade interna e políticas de incentivo corretas, podemos nos posicionar como um porto seguro.

AR - Qual a importância de uma gestão de caixa eficiente para que os empresários brasileiros sobrevivam a períodos de juros elevados e baixo consumo?

Carla Beni - Em um cenário de juros elevados e consumo retraído, o fluxo de caixa deixa de ser apenas um relatório contábil e passa a ser o instrumento de soberania do empresário. A importância de uma gestão de caixa eficiente reside em três pilares fundamentais:

Redução da Dependência de Capital de Giro Bancário: Com a Selic em patamares altos e spreads bancários elevados, tomar dinheiro emprestado para cobrir o dia a dia da operação é ‘queimar margem’.

Uma gestão eficiente permite que a empresa se autofinancie, evitando que o lucro do setor têxtil — que já é pressionado pela concorrência — seja transferido para o sistema financeiro na forma de juros.

Gestão de Estoque e Ciclo Financeiro: No setor de confecção, o dinheiro costuma ficar ‘preso’ no estoque de matéria-prima (algodão/tecidos) e no prazo concedido ao varejo. Uma gestão de caixa ri gorosa equilibra esse ciclo: comprar bem, girar rápido e receber cedo. Em períodos de baixo consumo, o estoque parado é ‘dinheiro per dendo valor’, e o caixa é o que dá fôlego para a empresa atravessar os meses de baixa sem recorrer ao endividamento.

Poder de Barganha e Oportunidade: Quem tem caixa em tempos de crise tem poder. O empresário com liquidez consegue negociar melhores preços com fornecedores e pode in vestir em modernização (como as máquinas da Indústria 4.0), quando os concorrentes es tão apenas tentando sobreviver.

Em resumo, a gestão de caixa é a blindagem contra a volatilidade. Ela garante que a empre sa tenha fôlego para não tomar decisões de sesperadas (como queimas de estoque com margem negativa) e mantém a porta aberta

para a inovação, mesmo quando o cenário macroeconômico sopra contra.

AR - Qual deve ser a prioridade para a indústria voltar a ser competitiva globalmente e também para o setor têxtil e de confecção em particular?

Carla Beni - Minha análise aponta que o Brasil possui todas as ferramentas para liderar a nova era da moda global, desde que saibamos orquestrar nossa excelência produtiva com inteligência estratégica. Acredito firmemente que a indústria têxtil brasileira, ao unir a biotecnologia do micélio com o afeto ancestral do crochê, está pavimentando um caminho único de reindustrialização verde e inclusiva. Ao enfrentarmos os gargalos do ‘Custo Brasil’ com reformas e subvenções à inovação, e ao protegermos nosso fluxo de caixa com gestão rigorosa, deixamos de ser apenas um elo na cadeia de suprimentos para nos

O NOVO HORIZONTE DO

SEGURO PATRIMONIAL NA INDÚSTRIA TÊXTIL

ENTRE O RIGOR TÉCNICO E O MARCO LEGAL

A indústria têxtil brasileira, grande pilar econômico nacional e um dos maiores empregadores do país, enfrenta hoje um paradoxo: enquanto a produção se moderniza, o acesso à proteção patrimonial torna-se cada vez mais restrito. Atualmente, estima-se que uma parcela significativa das empresas do setor opere sem seguro adequado ou com apólices subdimensionadas.

Estimativas de especialistas do mercado de seguros industriais indicam que nos últimos três anos, o prêmio do seguro para este setor cresceu, em média, 25% ao ano, superando drasticamente o IPCA. A pressão por reajustes supra inflacionados se deve, principalmente, pelo crescimento no pagamento de indenizações, que somente em 2023 alcançou mais de R$ 200 bilhões; pelo alto risco inerente de incêndio (fibras, poeira de algodão e estoques inflamáveis); e o elevado custo de reposição de máquinas importadas.

A dificuldade não é apenas financeira; é também técnica. Seguradoras têm elevado o rigor técnico para a aceitação de riscos, exigindo implantação rigorosa do Plano de Gerenciamento de Riscos (PGR), sistemas de combate a incêndio (Sprinklers, Hidrantes e Detecção de Fumaça), além de Laudos de Instalações Elétricas (NR-10) e de Vasos de Pressão (NR-13).

Sem esse compliance técnico, o empresário têxtil frequentemente se depara com a recusa de cobertura, ficando exposto a sinistros que podem levar à falência da operação.

Um dos grandes motores de mudança neste cenário é a reestruturação do IRB(Re). Após um profundo processo de saneamento financeiro e turnaround entre 2020 e 2024, a companhia voltou a apresentar lucros consistentes e um caixa fortalecido. Para a indústria têxtil, isso é um divisor de águas por dois motivos centrais:

• Aumento da Capacidade Interna: Com o balanço saneado, o IRB(Re) recuperou sua capacidade de reter riscos maiores dentro do Brasil. Isso reduz a dependência excessiva de resseguradoras globais para apólices de alto valor, o que pode estabilizar os preços e aumentar a oferta de limites de cobertura para grandes parques fabris.

• Novas Seguradoras de Grandes Riscos: O IRB(Re) anunciou recentemente a criação de uma seguradora focada exclusivamente em danos gerais de grande risco. Esse movimento injeta concorrência direta no setor, facilitando a aceitação de riscos complexos que antes eram rejeitados pelas seguradoras de varejo.

Certamente, um outro fator que positivamente impactará o mercado é o advento do novo Marco Legal dos Seguros (Lei 15.040/2024), pois aprimora a abertura iniciada em 2007, transformando o Brasil em um ambiente muito mais atrativo para o capital estrangeiro. Os principais pontos positivos desta nova legislação são:

• Padronização Internacional: Ao alinhar as regras brasileiras a padrões globais, o Marco Legal torna o Brasil um “porto seguro” para resseguradoras estrangeiras, que antes temiam a insegurança jurídica do Código Civil antigo.

• Liberdade Contratual em Grandes Riscos: A nova lei permite maior flexibilidade. Indústrias têxteis podem agora negociar cláusulas específicas diretamente com resseguradores internacionais, criando apólices “sob medida” que fogem das amarras de produtos massificados.

• Agilidade na Indenização: Com prazos rígidos de 30 dias para a decisão sobre a cobertura, o ressegurador estrangeiro tem mais previsibilidade. Essa eficiência reduz o risco sistêmico e, consequentemente, tende a reduzir o valor do prêmio no longo prazo.

Para que as empresas têxteis aproveitem esse novo mercado, a adoção de normas internacionais é indispensável. A implementação da ISO 31000 (Gestão de Riscos) permite que a indústria identifique e trate vulnerabilidades de forma preventiva. Somado a isso, o cumprimento rigoroso da NR-01 (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais) e normas complementares de segurança contra incêndio garantem uma melhor classificação de risco. Indústrias que apresentam laudos técnicos robustos e sistemas de proteção validados conseguem maior aceitação, menores prêmios e coberturas mais amplas, incluindo Lucros Cessantes e Danos Elétricos.

Reconhecendo a urgência de orientar o setor, a ABIT, o SINCOR, a CNseg e o SENAI “Francisco Matarazzo” uniram-se para criar o Guia de Boas Práticas para Contratação de Seguro Patrimonial à Indústria Têxtil. Este documento reúne informações técnicas validadas que servem como diretriz para uma gestão de riscos eficaz. O guia detalha os critérios que influenciam a decisão das seguradoras e resseguradoras na tomada de riscos, explicando como o investimento em prevenção reflete diretamente na aceitação de coberturas essenciais, como a Básica Obrigatória, Responsabilidade Civil, Roubo e Furto e a proteção contra a interrupção de negócios.

A partir da publicação deste guia, o setor passa a contar com uma referência técnica que apresenta a padronização dos critérios de aceitação de riscos na contratação securitária, desenvolvida com base na normatização e boas práticas internacionais, inclusive validada pelas seguradoras e resseguradoras atuantes no Brasil, oportunizando ao empresário têxtil a possiblidade de deixar de ser um mero espectador passivo, para se tornar um gestor ativo de sua proteção patrimonial.

Por Arthur Vinícius Dias Diretor de Unidade de Formação Profissional do SENAI “Francisco Matarazzo”

ECONOMIA CIRCULAR

COMO A LEI DE INCENTIVO À RECICLAGEM PODE

TRANSFORMAR O SETOR TÊXTIL BRASILEIRO

POR ROBERTO LIMA

A indústria têxtil e de confecção do Brasil, a maior cadeia completa do Ocidente, vive um momento de virada estratégica com a regulamentação da Lei de Incentivo à Reciclagem (Lei 14.260/2021). O assunto foi tema central da live “Conversa Aberta”, promovida pela Abit, e revelou como o setor pode liderar a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) ao transformar o que antes era visto como resíduo em ativos econômicos de alto valor.

O debate, mediado por Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit, reuniu vozes do governo e da iniciativa privada para detalhar as oportunidades trazidas por este novo marco legal. “Esta lei tem como objetivo fortalecer a cadeia de reciclagem do Brasil, estimular a economia circular e fomentar investimentos em iniciativas que promovam a transformação de subprodutos industriais em novos produtos”, destacou Pimentel.

ASSISTA O CONVERSA ABERTA NA ÍNTEGRA

Recebida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) como um “presente” do Legislativo, a lei permite que empresas e pessoas físicas destinem parte do seu imposto de renda para projetos de reciclagem. Para as pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real, o limite é de 1% do imposto devido, enquanto pessoas físicas podem destinar até 6%.

imposto em investimento na cadeia de reciclagem”, explicou Dornelas. Ela defende que o Brasil tem condições únicas de fechar o ciclo de produção. “Diferente da Europa e dos Estados Unidos, que tentam fazer isso desesperadamente, nós temos tudo aqui: da produção da matéria-prima à indústria e ao varejo”, enfatiza.

Liege Castelani, analista de infraestrutura do Departamento de Gestão de Resíduos do MMA, enfatizou a amplitude da norma. “A lei tem o objetivo de fazer investimento em todas as cadeias de resíduos sólidos, do início ao fim: do processo produtivo até a destinação final”. Segundo ela, o ministério já conta com cerca de 300 propostas em fase de captação, sendo que 15 projetos são voltados especificamente para a gestão de resíduo têxtil, um número considerado expressivo para o primeiro ano de operação. Castelani também ressaltou a transparência do modelo. “O recurso captado é utilizado dentro de um sistema onde se sobe a nota fiscal e o pagamento ao fornecedor é feito diretamente, o que traz tranquilidade para o ministério e para o patrocinador”, disse.

O setor têxtil global consumiu mais de 130 milhões de toneladas de fibras em 2024, das quais o Brasil transformou cerca de 2 milhões. No entanto, a taxa de reciclagem industrial ainda é baixa, estimada em menos de 1%. Para Karina D’Ornelas, gerente de sustentabilidade da Riachuelo/Guararapes, a nova lei oferece a chance de reverter esse cenário, que gera um prejuízo anual estimado em R$ 5 bilhões devido ao descarte inadequado.

A Guararapes já utiliza o incentivo em parceria com a plataforma Cotton Move. “A legislação é brilhante porque traz uma adicionalidade estratégica. Aquilo que eu poderia usar como CAPEX (despesa de capital) em inovação e eficiência, estou transformando

A implementação da economia circular em um país de dimensões continentais impõe desafios hercúleos. “A lei vai nos permitir escalar essa operação. Nossa esperança é triplicar nossos atuais 900 pontos de entrega voluntários e conectar novos parceiros, como as cooperativas”, afirmou José Guilherme Teixeira, fundador e CEO da Cotton Move.

Um ponto fundamental da lei é a obrigatoriedade da participação de cooperativas e associações de catadores. Teixeira ressaltou a necessidade de qualificar esses atores para que não atuem apenas na triagem, mas como empreendedores. Fernando Pimentel reforçou a importância da viabilidade econômica: “Este ecossistema tem que ser rentável para os catadores. Ninguém vai catar para não ganhar dinheiro. O mercado tem que vir junto com as tecnologias e as regulações”, salienta o diretor da Abit.

A transição para um modelo circular exige superação técnica, especialmente na reciclagem de fibras sintéticas e mistas, que são mais complexas que o algodão. Além disso, há o desafio de convencer o consumidor de que o produto reciclado possui a mesma qualidade e estética que o virgem.

“Sustentabilidade só vai existir se tiver resultados sustentáveis das empresas. Não é operação de caridade. Se não ganhar dinheiro, não vai ter investimento”, alerta Pimentel, reforçando que a aplicação correta da lei fortalecerá quem opera com conformidade e ajudará o Brasil a ser um exemplo global em descarbonização e redução da pegada de carbono. “A lei de incentivo à reciclagem não é apenas uma ferramenta de gestão de resíduos; é, como definido no debate, uma estratégia de inovação e eficiência produtiva que coloca a moda brasileira na vanguarda do ESG”, acrescenta.

DE

EMISSÕES NA INDÚSTRIA GOVERNANÇA

DADOS, RASTREABILIDADE E VANTAGEM COMPETITIVA

A gestão de emissões de gases de efeito estufa na indústria deixou de ser uma iniciativa de reporte e passou a integrar a arquitetura de governança corporativa. Em ambientes industriais complexos, caracterizados por múltiplas unidades produtivas, cadeias globais de suprimentos e alta intensidade energética, a mensuração de carbono exige estrutura, padronização metodológica e controle sistêmico.

O desafio central não está na aplicação das metodologias internacionais de contabilização de emissões, mas na integridade e consistência dos dados primários que alimentam o inventário. Consumo energético por centro de custo, combustíveis utilizados em processos térmicos, emissões fugitivas, transporte inbound e outbound, aquisição de matérias-primas e serviços terceirizados precisam estar integrados em uma base confiável e auditável.

Quando a coleta de informações ocorre de forma descentralizada por meio de planilhas isoladas, extrações manuais de sistemas e ausência de critérios uniformes, o risco não é apenas operacional. A inconsistência de dados compromete a materialidade do inventário, fragiliza auditorias independentes e limita a comparabilidade entre períodos e unidades produtivas.

Sob a ótica de governança, a gestão de emissões requer definição clara de responsabilidades entre áreas industriais, suprimentos, controladoria e compliance porque os dados climáticos passaram a ter implicações regulatórias, financeiras e reputacionais. Sem essa delimitação, aumentam os riscos de inconsistência metodológica, dupla contagem, lacunas de reporte e exposição a questionamentos de auditores e investidores.

Exige também controles internos estruturados, validação cruzada de dados, trilha de evidências documentais e aderência a critérios metodológicos consistentes ao longo do tempo, não apenas para assegurar precisão técnica, mas para garantir comparabilidade, rastreabilidade e confiabilidade perante o mercado.

Governança climática, nesse contexto, é governança de dados operacionais com impacto estratégico, obedecendo a padrões exigidos por investidores, regulações emergentes e cadeias globais de valor.

A rastreabilidade ao longo da cadeia produtiva é outro elemento crítico. Em diversos segmentos industriais, a maior parcela das emissões está associada ao Escopo 3, especialmente aquisição de insumos, processamento terceirizado e logística. A ausência de mecanismos formais de due diligence e qualificação de fornecedores reduz a confiabilidade do inventário e amplia a exposição a riscos reputacionais e regulatórios.

A integração tecnológica passa a ser determinante. Sistemas estruturados permitem consolidar dados de ERP, compras, gestão energética e desempenho de fornecedores em um ambiente único, com critérios parametrizados e verificações automáticas. Essa digitalização reduz interferências manuais, aumenta a padronização e fortalece a auditabilidade das informações.

A aplicação de inteligência analítica sobre esses dados amplia a capacidade de gestão. A identificação de variações atípicas de consumo energético, discrepâncias entre unidades produtivas e desvios em fatores de emissão permite atuar de forma preventiva. A gestão de carbono deixa de ser um exercício estático de reporte anual e passa a integrar o ciclo contínuo de melhoria operacional.

Do ponto de vista estratégico, a robustez do inventário impacta diretamente a competitividade industrial. Investidores e grandes compradores avaliam não apenas metas declaradas, mas a consistência metodológica, a rastreabilidade das informações e a capacidade de demonstrar redução efetiva de emissões ao longo da cadeia de valor.

Empresas industriais que estruturam governança de emissões com base em dados integrados, validação sistemática e rastreabilidade ampliada conseguem identificar pontos críticos de impacto, priorizar investimentos em eficiência energética e mitigar riscos regulatórios com maior previsibilidade.

Essa validação sistemática não se limita a conferências periódicas: envolve monitoramento contínuo, cruzamento automatizado de informações entre áreas, detecção de inconsistências em tempo real e atualização dinâmica de indicadores conforme novos dados operacionais são incorporados. Esse nível de controle reduz distorções, antecipa desvios e fortalece a confiabilidade dos relatórios.

Com dados auditáveis e acompanhados em tempo real, a tomada de decisão deixa de ser reativa e passa a ser orientada por evidências consistentes, aumentando a segurança estratégica diante de exigências regulatórias e pressões de mercado.

Estamos diante de uma mudança estrutural na gestão industrial. O carbono tornou-se indicador transversal de eficiência, risco e posicionamento estratégico. A vantagem competitiva não está apenas na capacidade produtiva, mas na capacidade de mensurar, comprovar e gerir impactos com precisão técnica.

Na indústria contemporânea, governança de emissões significa controle sistêmico, integridade de dados e integração ao processo decisório. É essa base que sustenta credibilidade, resiliência e competitividade em cadeias produtivas cada vez mais orientadas por critérios ambientais e de transparência.

Por Fernanda Amaral

Territory Manager da Achilles Information Limited no Brasil

TECENDO OPORTUNIDADES INOVAÇÃO SOCIAL PARA ATRAIR A PRÓXIMA GERAÇÃO DA INDÚSTRIA TÊXTIL

A indústria têxtil brasileira é essencial para a economia do país e, há alguns anos, enfrenta desafios crescentes para atrair e formar mão de obra qualificada. Esse cenário se intensifica com a entrada das novas gerações no mercado de trabalho, aumentando significativamente a rotatividade. Diante desse contexto comum ao setor, o investimento em programas estruturados de formação dentro das próprias empresas torna-se uma estratégia fundamental não apenas para o desenvolvimento e o impacto social, bem como para a sustentabilidade e a perenidade do negócio.

Na Capricórnio Têxtil, tive a oportunidade de implementar e acompanhar o Programa Formare, iniciativa da Fundação Iochpe voltada à qualificação profissional de jovens em situação de vulnerabilidade

socioeconômica. Desde o início da parceria, o programa já qualificou duas turmas, totalizando 17 jovens formados, com o engajamento de 42 colaboradores voluntários atuando como educadores dentro da empresa.

Olhando para além dos números, os resultados refletem transformação, tanto na trajetória dos jovens, que ampliam suas perspectivas de futuro e saem do programa com a certeza de que podem chegar aonde quiserem, quanto para os colaboradores voluntários, que, ao compartilhar suas experiências, também se desenvolvem ao interagir com as novas gerações. Esse processo fortalece habilidades de liderança, comunicação, escuta ativa e empatia, ao mesmo tempo em que reforça o senso de propósito no trabalho.

Para a Capricórnio, a transformação se manifestou na cultura organizacional, tornando-a mais inclusiva e alinhada ao seu papel como agente de desenvolvimento social e preparada para gerar valor compartilhado entre negócio e sociedade.

O Programa Formare permite que os jovens vivenciem o dia a dia da indústria por nove meses, compreendendo processos produtivos e administrativos, rotinas e responsabilidades corporativas, e abre possibilidades de carreira em um setor que muitas vezes a nova geração sequer considera como opção de carreira.

Até o final de 2025, 17 jovens foram formados, e cinco deles foram posteriormente contratados pela empresa por meio do programa de jovem aprendiz, reforçando o papel do Formare como ponte entre educação e empregabilidade.

Esse modelo de inovação social conversa diretamente com a agenda que ajudo a conduzir no Comitê de Sustentabilidade da ABIT. Em 2026, o eixo temático do primeiro semestre é Responsabilidade Social Corporativa (RSC), e iniciativas como o Projeto Formare demonstram que o impacto social pode ser estruturado de forma estratégica, alinhado ao negócio e capaz de gerar valor compartilhado para empresas e sociedade. Para mim, é um exemplo de como iniciativas locais podem impulsionar todo o setor e colocar em prática o princípio de pensar globalmente e agir localmente.

Minha trajetória profissional também se conecta a essa agenda. Iniciei minha carreira na Capricórnio Têxtil na área de Pesquisa e Desenvolvimento de Produtos, onde me aproximei das pautas de sustentabilidade. Nos últimos anos, atuei na estruturação da área

de sustentabilidade da empresa, integrando temas, projetos e indicadores ambientais, sociais e de governança ligados à estratégia corporativa e aos processos industriais.

Hoje, ao coordenar iniciativas de sustentabilidade e responsabilidade social, percebo que programas como o Formare não apenas transformam a vida dos jovens participantes, mas também ajudam a transformar o próprio setor têxtil, tornando-o mais inclusivo, atrativo e preparado para o futuro.

Minha jornada como mulher jovem em posição de liderança em um setor desafiador reflete a necessidade urgente de diversidade e renovação. Ao longo dessa trajetória, enfrentei desafios relacionados à construção de credibilidade, o que reforçou minha convicção sobre a importância da diversidade para a inovação e a competitividade. Acredito que a liderança feminina e novas perspectivas são fundamentais para impulsionar a inovação e a construção de um futuro mais sustentável.

Essa vivência também reforça a urgência de renovação das lideranças nas empresas, tema cada vez mais presente no debate sobre o futuro das organizações. Acredito que precisamos de uma nova geração de líderes intermediários nas empresas, com coragem de fazer o certo, de inovar, de trazer os desafios para a mesa e discutir os caminhos para a solução com governança, com geração de valor e capacidade de engajar a alta liderança em transformações disruptivas e atreladas a mudanças socioculturais e tecnológicas.

O desafio agora é ampliar esse movimento. Para garantir a continuidade e a relevância do setor nas próximas décadas, é necessário construir pontes entre a indústria e as novas gerações, mostrando que há espaço para propósito, inovação e desenvolvimento profissional dentro das fábricas. O Formare é um exemplo concreto de como construir essa ponte, e seus resultados demonstram que responsabilidade social e estratégia empresarial podem, e devem, caminhar juntas.

Por Gabryella Cerri Mendonça Coordenadora de Sustentabilidade na Capricórnio Têxtil

O QUE O NOVO

EXIGE DA INDÚSTRIA TÊXTIL COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR

A indústria têxtil vive uma transformação estrutural. E essa transformação não nasce dentro das fábricas, mas no comportamento do consumidor.

Hoje, quem compra está mais informado, conectado e menos disposto a esperar. As coleções são mais frequentes, os ciclos de compra são mais curtos e o comércio eletrônico ampliou a velocidade das decisões. Esse novo ritmo altera completamente a lógica da cadeia produtiva e exige respostas diferentes de todos os seus elos.

Dados do próprio setor apontam que atualmente são produzidas cerca de 100 bilhões de peças por ano, o dobro do que era produzido no início dos anos 2000. Ao mesmo tempo, o tempo médio de uso das roupas diminuiu significativamente. Isso significa maior volume, maior rotatividade e menor margem para erros. Nesse contexto, entendo que a principal exigência do mercado hoje é a previsibilidade.

Não basta produzir rápido. É preciso produzir exatamente o que foi especificado, dentro do prazo acordado e com consistência técnica. A cadeia têxtil opera com estoques mais enxutos e menos espaço para retrabalho. Uma pequena variação no fio impacta o desempenho da malharia, a qualidade da peça final e, consequentemente, a percepção do consumidor.

A Incofios, como uma indústria de fiação, está na base dessa engrenagem. O ritmo da cadeia começa na matéria-prima e no fio. Se essa etapa não for estável, todo o restante do processo sofre.

A meu ver, responder a esse novo comportamento exige três pilares: gestão estruturada, tecnologia aplicada e desenvolvimento de pessoas.

Como gestor, acredito que é necessário integrar áreas, planejar com precisão e reduzir variabilidade. A produção enxuta

deixou de ser uma escolha e passou a ser uma condição de sobrevivência. Trabalhar com indicadores claros, controle de processo e melhoria contínua não é mais diferencial, é requisito.

Na tecnologia, a digitalização e a automação ajudam a aumentar a estabilidade do processo. Investimentos em inovação, ajustes técnicos mais rápidos e uso de ferramentas que reduzam paradas e variações fazem diferença real no resultado final. Não se trata de modernização estética, mas de garantir regularidade industrial.

O terceiro pilar, e talvez o mais importante, são as pessoas. Um processo só é previsível quando a equipe é treinada, engajada e consciente da responsabilidade técnica que carrega. A formação contínua, o desenvolvimento de lideranças e a cultura de qualidade são fundamentais para sustentar padrões elevados sob pressão de prazo.

Porém, além da velocidade, há outro elemento que o novo consumidor exige: responsabilidade.

Sustentabilidade deixou de ser discurso e passou a ser critério de decisão. O mercado quer rastreabilidade, transparência e redução de impacto ambiental. Isso influencia desde a escolha da fibra até o modelo logístico adotado. A indústria precisa equilibrar agilidade e consciência ambiental, eficiência produtiva e uso responsável de recursos.

Acredito que a competitividade futura da

indústria têxtil brasileira estará diretamente ligada à sua capacidade de combinar esses fatores: rapidez com estabilidade, inovação com consistência, produtividade com responsabilidade.

O maior risco não está na velocidade do mercado, mas na falta de adaptação. Empresas que não estruturarem seus processos para garantir previsibilidade terão dificuldade de manter relevância em um cenário cada vez mais exigente.

O consumidor pode ser imediatista, mas não tolera inconsistência. Ele quer novidades, mas espera padrão. Quer velocidade, mas não aceita perda de qualidade.

Como gestor que acompanha de perto essa transformação, entendo que nossa responsabilidade é sustentar essa equação com método, disciplina e visão de longo prazo.

A transformação da indústria têxtil não é apenas tecnológica. Ela é também cultural e estratégica. E começa com a compreensão de que o comportamento do consumidor redefiniu as regras do jogo.

Por Edson Augusto

Incofios

LIDERANÇAS FEMININAS

NO SETOR TÊXTIL E DE CONFECÇÃO

DIVERSIDADE COMO ESTRATÉGIA DE COMPETITIVIDADE

A agenda ESG transformou a forma como avaliamos competitividade industrial. Sustentabilidade, governança e inovação deixaram de ser elementos acessórios e passaram a compor o núcleo estratégico das organizações. No setor têxtil e de confecção, essa transformação assume contornos particulares, pois se trata de uma cadeia produtiva historicamente promotora do trabalho feminino. A discussão sobre lideranças femininas, portanto, não é apenas um tema social; é uma variável econômica e institucional que impacta diretamente na produtividade, na cultura organizacional e no posicionamento estratégico.

A enquete realizada pela Abit, em outubro de 2025, contou com a participação de 32 empresas do setor, oferece um retrato interessante desse momento de transição, no qual a sociedade busca valorizar ainda mais a mulher. Os dados indicam que as mulheres já constituem maioria ou parcela expressiva do quadro funcional, a depender da companhia. Em 65% das respondentes, elas representam mais de 50% da força de trabalho. Esse dado confirma o protagonismo feminino na base produtiva da cadeia têxtil e de confecção.

Mais relevante ainda é constatar que 97% das empresas afirmam possuir mulheres em cargos de liderança; coordenação, gerência ou diretoria. Isso demonstra avanço significativo na superação de barreiras históricas de segregação vertical. Entretanto, a presença formal não encerra o debate. O desafio contemporâneo consiste em assegurar que essa inserção seja acompanhada de autonomia decisória, participação estratégica e influência real na definição de investimentos, inovação e planejamento corporativo, além da equidade salarial.

Quando centramos a análise no grau de institucionalização da agenda de diversidade, percebemos um estágio intermediário de maturidade. Apenas 48% das empresas declararam possuir políticas formais de diversidade e inclusão voltadas à igualdade de gênero, enquanto 34% ainda não possuem políticas estruturadas e 17% encontram-se em desenvolvimento. Isso revela que parte relevante dos avanços ocorre por dinâmica cultural ou iniciativa individual, e não necessariamente por integração plena à governança corporativa. É evidente, portanto, que ações afirmativas são necessárias, mais ainda insuficientes, e precisam persistir ao longo do tempo.

No campo das ações concretas, o combate ao assédio aparece como medida predominante (72%), seguido por políticas de igualdade salarial (45%) e programas de liderança feminina (31%). Notamos uma trajetória evolutiva: inicia-se pela mitigação de risco institucional, avança-se para correção de distorções estruturais e, posteriormente, investe-se no desenvol-

vimento de lideranças. O desafio é fazer tudo isso ao mesmo tempo. Essa sequência indica amadurecimento organizacional, mas também evidencia espaço para ampliação de programas estruturados de formação executiva feminina.

A dimensão econômica da diversidade é igualmente relevante. Nós, como economistas, sabemos bem o potencial disto. Para 59% dos respondentes, maior diversidade de gênero impacta positivamente produtividade e lucratividade. Mulheres ocupam posições estratégicas em cada ponto do processo produtivo e das estruturas de negócios, a depender da tarefa e da aptidão necessária. Essa percepção está alinhada com evidências internacionais que associam diversidade a melhor qualidade de decisão, maior capacidade de inovação e menor risco daquela atrelado ao pensamento homogêneo. Em um setor pressionado por diferenciação, sustentabilidade e adaptação tecnológica, como é o caso da moda, lideranças diversas ampliam repertórios estratégicos e fortalecem a resiliência organizacional.

Ainda assim, persistem obstáculos estruturais. A principal barreira identificada para a ascensão feminina é a jornada dupla [por vezes tripla] com a família (69%), seguida por cultura organizacional (38%) e o preconceito (34%). Esses dados indicam que o entrave não é predominantemente técnico. Não se trata de escassez de competência, mas de fatores institucionais e culturais que limitam a progressão profissional. O enfrentamento dessas barreiras exige políticas integradas de conciliação entre vida profissional e pessoal, programas de retorno pós-licença maternidade, mentoria estruturada, revisão de práticas organizacionais que reproduzem vieses históricos.

A própria enquete aponta caminhos. Entre as medidas sugeridas para ampliar a presença feminina na liderança, destacam-se a criação de programas internos de desenvolvimento e liderança feminina (72%), a oferta de benefícios que conciliem carreira e vida pessoal (59%) e campanhas de conscientização para redução de vieses (52%). O setor reconhece, portanto, que a consolidação da diversidade exige intencionalidade estratégica.

Entendemos que a indústria têxtil e de confecção já superou a etapa da sensibilização. A agenda de diversidade encontra-se incorporada ao discurso empresarial e, em parte, às práticas organizacionais. O próximo passo é consolidar mecanismos permanentes de formação de lideranças femininas, com metas mensuráveis, indicadores vinculados a relatórios ESG e integração ao planejamento estratégico das empresas. Isso inclui ampliar a participação feminina em conselhos, comitês de inovação e fóruns decisórios, bem como estimular parcerias com instituições de ensino para fortalecer a formação técnica e gerencial de mulheres em áreas industriais e tecnológicas.

Formar mais lideranças femininas não é apenas uma pauta de equidade; é uma estratégia de competitividade. Em um cenário de neoindustrialização, digitalização produtiva e exigências crescentes de compliance socioambiental, organizações que estruturam políticas consistentes de diversidade tendem a apresentar maior adaptabilidade e desempenho sustentável no longo prazo.

Os resultados positivos nos balanços contábeis serão consequencia dessas práticas, não há dúvidas. Diversidade não é custo. É ativo estratégico, é governança aprimorada, é diferencial competitivo. No setor têxtil e de confecção, onde as mulheres são protagonistas históricas da produção e do consumo, a consolidação de sua liderança nos níveis estratégicos representa não apenas justiça institucional, mas também inteligência econômica.

PRINCIPAIS NÚMEROS DA PESQUISA

POSSUEM MAIS DE 50% DE MULHERES NO QUADRO FUNCIONAL 65% 32

EMPRESAS PARTICIPANTES (OUTUBRO/2025) 97%

TÊM MULHERES EM CARGOS DE LIDERANÇA 48%

POSSUEM POLÍTICAS FORMAIS DE DIVERSIDADE 72%

ADOTAM AÇÕES DE COMBATE AO ASSÉDIO

ASSOCIAM DIVERSIDADE À MAIOR PRODUTIVIDADE 59% 69%

APONTAM JORNADA DUPLA COMO PRINCIPAL BARREIRA

Por Mariana Petrenko Economista da Abit

DESAFIOS DE INOVAÇÃO

POR QUE A MODA VISITA O FUTURO

SEM NUNCA SE MUDAR PARA LÁ?

No último ano, ao produzir exposições de biomateriais em eventos como a FebraTêxtil, minha intenção - e a de parceiros - era criar pontes diretas entre produtores, designers e indústria. Acreditávamos que unir essas pontas seria o suficiente para garantir investimento e interesse industrial. Mas o pragmatismo que ouvi, de diretores de fast-fashion a engenheiros automotivos, me revelou um abismo. A pergunta: ‘Isso tem escala?’ não era simplesmente uma dúvida logística desconectada do conhecimento sobre o uso da terra. Era o sintoma de um ecossistema de inovação sem arquitetura.

Percebi que antes de conectar as pontas, era preciso entender o que impedia parcerias de longo prazo no setor - e foi esse deslocamento que levou minha atuação ao que chamo hoje de Arquitetura de Ecossistemas e Gestão de Risco. Meu trabalho é tornar visível o que fragmenta: mapear os processos, nomear os descompassos e criar as condições para que os especialistas se encontrem em torno do problema certo. Ao longo desse processo, identifiquei

três desafios que se repetem independentemente do biomaterial, da região ou do elo da cadeia. Não são problemas técnicos. São problemas de arquitetura e enquanto não forem nomeados, continuarão sendo confundidos com falha de tecnologia, de capital ou de apoio à inovação.

O primeiro desafio é o da escala mal endereçada. O mercado trata processos produtivos completamente distintos como se fossem a mesma coisa. E é esse equívoco que mata iniciativas antes que encontrem o parceiro industrial certo. Com a aprovação do PNDBio pela Comissão Nacional de Bioeconomia, em 5 de março de 2026, após quase dois anos de construção coletiva, o Brasil finalmente tem um mapa oficial para categorizar o que nunca deveria ter sido comparado. O plano estrutura quatro eixos: Sociobioeconomia, Biomassa, Bioindústria e Biomanufatura, e Ecossistemas Terrestres e Aquáticos. Cada um responde à pergunta da escala de forma radicalmente diferente. Uma fibra de território como o tucum não compete com o cânhamo no volume e nem deveria. O pro-

blema não é a fibra. É a ausência de quem mapeie qual eixo cada iniciativa habita e o que é necessário para que se desenvolva dentro do mesmo.

O segundo desafio é o do preço descontextualizado. Comparar o custo de uma fibra inovadora ao do algodão ou do poliéster, que acumulam décadas de subsídios governamentais, demanda garantida e infraestrutura global estabilizada, é como exigir meritocracia de quem nunca teve o mesmo ponto de partida. É uma comparação que ignora deliberadamente as condições de origem. O PNDBio cria o contexto institucional, mas instrumentos como as Patentes Verdes já existem como programa permanente desde 2016, e se popularizaram no ecossistema de bioeconomia durante a COP30. Para o produtor de biomaterial que desenvolve um processo inovador, o acesso a esse mecanismo representa vantagens concretas: proteção da inovação em menos de 12 meses, maior segurança jurídica, valorização do ativo em

rodadas de investimento e prioridade em editais e linhas de fomento. Que um instrumento dessa relevância tenha demorado a chegar ao vocabulário de quem mais precisava é compreensível num ecossistema ainda fragmentado. E é precisamente o tipo de desconexão que o PNDBio, ao assumir o papel de instância coordenadora, se propõe a resolver.

No entanto, o terceiro desafio é, talvez, o menos óbvio e o mais difícil de questionar, pois costuma se disfarçar de colaboração legítima. É fato que o produtor precisa das marcas, pois é na aplicação do material em projetos reais de design que ele obtém dados de desempenho, ganha visibilidade e atrai o olhar do investidor. Há um valor genuíno nessa simbiose, mas o problema reside no que ela omite.

O biomaterial protagoniza o desfile como o principal storytelling de sustentabilidade da temporada, mas não chega às lojas. O produtor, peça fundamental dessa engrenagem, raramente é citado. O designer colhe os louros da inovação, as revistas de moda celebram a estética de sustentabilidade, mas a transparência sobre o estágio daquela tecnologia, muitas vezes ainda em fase piloto, é sacrificada em nome da narrativa. O resultado é um desequilíbrio: a marca comunica sustentabilidade, o produtor ganha portfólio, mas o próximo passo raramente é formalizado. Tudo isso alimenta a percepção do consumidor de que a sustentabilidade comunicada nem sempre corresponde ao que efetivamente chega ao mercado.

O problema não é o interesse das marcas em inovação, mas tratar o biomaterial como tendência. Na temporada seguinte, já não é novidade, e a marca segue em

busca do próximo. A diferença entre esse comportamento e investir seriamente no desenvolvimento de um material é exatamente o que separa o ‘Turismo de Inovação’ de uma parceria real. A inovação é visitada, fotografada e citada, mas nunca realmente habitada. Para quem busca sustentabilidade, a transparência é a nova moeda de luxo. Sem o compromisso de investir no desenvolvimento da cadeia produtiva, o que vemos não é vanguarda, é uma conveniência que o setor ainda não teve coragem de nomear.

Esses três desafios - escala, preço e narrativa - não possuem solução dentro de uma única especialidade. O engenheiro têxtil resolve o processo, não o mercado. O designer valida a estética, não a cadeia. O produtor sustenta o território ou o laboratório, não o financiamento. O que falta - e o que o PNDBio agora torna urgente - é a

função de quem transita entre esses mundos com precisão suficiente para fazer a pergunta que cada um deles ainda não conseguiu formular para o outro.

A resposta passa por garantir que o encontro entre biodiversidade e indústria deixe de ser um match pontual de feira para se tornar um compromisso baseado em soberania técnica, respeitando os limites inegociáveis da nossa terra e a inteligência da nossa ciência.

Por Clarissa Magalhães Jornalista, Mestre em Gestão Ambiental e Arquiteta de Ecossistemas e Gestão de Risco

ARTESANIAS TÊXTEIS DE RODRIGO TREMEMBÉ

Eu não cresci dentro de uma família ligada à costura ou à produção de roupas com máquinas. Quando falo de têxtil hoje, falo de tecido, linha, modelagem, criação de vestimenta. Mas a minha relação com a roupa começou de outro lugar.

Sou do povo Tremembé, no Ceará, e minha primeira experiência com vestimentas aconteceu dentro da aldeia, principalmente na escola indígena. Era ali que produzíamos nossas próprias roupas tradicionais. Aprendíamos a fazer vestimentas para momentos específicos: festas, rituais, celebrações e encontros do nosso povo. A roupa tinha um sentido claro, era parte da cultura, e do corpo coletivo da comunidade.

Essa vivência marcou meu olhar. Desde cedo entendi que vestir também pode ser uma forma de pertencimento.

Foto: Jadson Tremembé

Rodrigo Tremembé foi um dos expositores da Bienal Révélations, no Grand Palais, em Paris, na França, em 2025

Foto: Acervo pessoal

A moda, no entanto, só entrou na minha vida muito mais tarde. Foi em 2021, durante a pandemia. Naquele período de isolamento, comecei a observar com mais atenção os espaços da moda: revistas, campanhas, passarelas, redes sociais. Aos poucos percebi algo que me incomodava profundamente. Eu não me via ali.

Não via corpos como o meu. Não via pessoas indígenas sendo representadas na contemporaneidade. Quando apareciam, quase sempre estavam presas a estereótipos. No meu caso, existe ainda uma outra camada: o tom da minha pele. Muitas vezes ele é usado para questionar minha identidade indígena, como se existisse apenas uma única forma de ser indígena.

Essa tensão se tornou ainda mais evidente quando sofri um episódio de racismo em uma rede social. Comentários colocavam em dúvida minha identidade por causa da minha aparência. Aquilo me atravessou de uma maneira muito forte. Foi naquele momento que percebi que precisava reagir de alguma forma. Foi assim que decidi entrar na moda.

Minha entrada nesse campo não foi movida por mercado ou tendência. Foi uma decisão política. Eu queria ocupar esse espaço. Queria criar imagens onde corpos indígenas pudessem existir com autonomia. Queria transformar o tecido em linguagem e em posicionamento.

Comecei então a desenvolver minhas próprias coleções.

A primeira se chamou Navura – Beber Moda Indígena. O nome faz referência a um momento específico do nosso ritual, o Torém. O Navura é um gesto de finalização, um momento simbólico dentro da ritualística do povo Tremembé. Essa coleção nasceu dessa memória e dessa espiritualidade. Foi o início do meu caminho dentro da moda.

Depois veio a coleção Torém, inspirada diretamente no ritual do nosso povo. Cada vestimenta dessa série dialogava com um cântico tradicional do Torém. As roupas buscavam traduzir visualmente aquilo que existe no canto, no movimento e na roda. Para nós, o Torém é um momento de encontro, de força coletiva e de continuidade cultural.

Hoje estou trabalhando na minha terceira coleção. Ainda não posso revelar muitos detalhes, porque ela será apresentada em um grande evento de moda aqui no Ceará. Posso dizer apenas que estou experimentando mais profundamente os tingimentos naturais e investigando novas possibilidades dentro do têxtil.

Ao longo desse processo, fui entendendo cada vez mais o lugar que desejo ocupar na moda. Para mim, a moda precisa ser política. Precisa ser um espaço de visibilidade cultural. Um espaço de resistência e de afirmação.

Quando um corpo indígena entra em uma passarela, algo se desloca. Quando uma vestimenta carrega referências do nosso território, ela também carrega história, memória e presença.

Eu acredito que a moda pode funcionar como uma forma de demarcação simbólica de espaço. Um modo de dizer que estamos aqui, criando, pensando e produzindo cultura no presente.

Ao mesmo tempo, penso muito no futuro desse campo. O caminho que desejo seguir passa por uma moda mais consciente. Uma moda ecoeficiente, regenerativa, que dialogue com a natureza e respeite os ciclos do território.

Talvez isso também venha da forma como fomos ensinados a viver. Nos povos indígenas, a relação com a terra sempre foi de cuidado e reciprocidade. Levar esse pensamento para o universo da moda me parece não apenas necessário, mas urgente.

Meu trabalho segue nessa direção: usar o tecido como linguagem, a vestimenta como narrativa e a moda como um espaço possível para ampliar a voz do meu povo.

Por Rodrigo Tremembé Estilista indígena Foto: Micaela Menezes

A ÁGUA QUE A MODA CONSOME

O QUE A INDÚSTRIA PODE FAZER A RESPEITO

Quando penso em uma camiseta no cabide de uma loja, penso também em 2.700 litros de água. Essa é a quantidade estimada necessária para produzir uma única peça de algodão, água suficiente para abastecer uma pessoa por dois anos e meio (European Parliament). Uma calça jeans, considerando todo o ciclo de vida até o pós-consumo, demanda 5.200 litros (ABNT). São números que me acompanham cotidianamente no trabalho que desenvolvemos no Instituto Akatu, e que ajudam a entender por que a indústria têxtil merece atenção especial quando o tema é gestão hídrica.

O setor de moda e têxteis mundial consome 215 trilhões de litros de água ao ano, o equivalente a 86 milhões de piscinas olímpicas, de acordo com o United Nations Environment Programme (UNEP). Uma análise conduzida pela Quantis em 2018 mostrou que as maiores pressões sobre os recursos hídricos ocorrem na produção de fibras, responsável por 30% da captação de água doce, e nos processos de tingimento e acabamento, com 27%. O WWF, em análise própria de Avaliação do Ciclo de Vida, chegou à mesma conclusão: a maior parte do uso consuntivo de água (aquela que é retirada do ciclo natural e não retorna a ele) ocorre já na produção das matérias-primas.

Traduzindo em escala global: a indústria têxtil é responsável por 3,5% do impacto total de escassez hídrica causado por todas as atividades de manufatura no mundo, frequentemente operando em regiões que já enfrentam estresse hídrico severo (Circularity Gap Report). As etapas de tingimento e acabamento sozinhas consomem aproximadamente 93 bilhões de metros cúbicos de água por ano.

São dados expressivos. E aqui reside o ponto que mais me interessa discutir: o que fazemos com eles? Conhecer o problema é o primeiro passo, mas não o mais difícil. O desafio real é construir sistemas que transformem esse conhecimento em melhoria contínua, rastreável, comparável e coletiva. Isoladamente, empresas tomam boas decisões. Setorialmente, elas mudam padrões.

No Instituto Akatu, trabalhamos com essa lógica há mais de duas décadas: o consumo é o elo entre sistemas produtivos e transformação cultural. Quem muda o consumo, muda o sistema. E quem transforma o sistema precisa de ferramentas para medir, engajar e evoluir. É a partir dessa convicção que desenvolvemos, junto com a Abrafati (Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas), o Programa Setorial de Sustentabilidade (PSS), iniciado em 2021.

O PSS é uma iniciativa pioneira no Brasil: um sistema estruturado de avaliação da sustentabilidade aplicado a um setor industrial inteiro, com indicadores próprios, ciclos anuais de avaliação, benchmarking entre empresas e ações táticas para avanço coletivo. Não é um relatório. É um programa vivo, que evolui a cada ciclo.

Entre os eixos avaliados estão, justamente, os temas ambientais mais críticos para indústrias intensivas em recursos: gestão hídrica, efluentes, energia, emissões e resíduos. No ciclo de 2025, o programa atingiu a adesão de 100% das empresas fabricantes de tintas associadas à Abrafati, isto é, 36 empresas respondendo ao mesmo sistema de avaliação. A mediana do setor alcançou 146 pontos em um total de 249 possíveis, representando 58% de avanço, evolução consistente desde os 49% registrados em 2022, no primeiro ciclo de avaliação.

O que torna essa experiência relevante para além da indústria de tintas é a lógica que a sustenta. Um Programa Setorial de Sustentabilidade funciona porque cria uma linguagem comum entre empresas que competem entre si, mas compartilham os mesmos desafios ambientais. No caso da água, isso significa que empresas diferentes podem medir seu consumo hídrico, compará-lo com as práticas do setor, identificar onde estão as maiores oportunidades de melhoria e trabalhar coletivamente para avançar.

No PSS Abrafati, esse movimento já produziu resultados concretos: houve avanço nos indicadores de gestão de resíduos industriais e de saúde e segurança do consumidor entre os ciclos de 2024 e 2025, e o programa está sendo expandido agora para os fornecedores de matéria-prima, ampliando o escopo de avaliação para toda a cadeia de valor. Porque o problema da água não começa na fábrica. Começa muito antes.

Essa é exatamente a lógica que a indústria têxtil precisa adotar com urgência. Não como crítica, mas como oportunidade: o setor tem escala, visibilidade e pressão de consumidores e reguladores suficientes para liderar uma transformação real no uso eficiente da água. E as ferramentas para isso já existem. O que falta, muitas vezes, é a estrutura coletiva para aplicá-las de forma sistemática.

A experiência acumulada pelo Instituto Akatu na construção e gestão de programas setoriais nos mostra que três elementos são indispensáveis para que uma iniciativa desse tipo gere impacto real: recorrência, comparabilidade e engajamento ampliado.

Recorrência porque sustentabilidade não se resolve em um ciclo: ela precisa de acompanhamento anual para revelar tendências e consolidar aprendizados. Com-

parabilidade porque sem benchmarking entre pares, as empresas perdem a referência de onde estão e para onde podem ir. E engajamento ampliado porque, como vimos no PSS Abrafati, quando a adesão chega a 100%, o setor inteiro avança junto, inclusive as empresas menores, que frequentemente não teriam capacidade de construir esses sistemas sozinhas.

Para a indústria têxtil, um programa nesse formato poderia mapear o consumo hídrico ao longo de toda a cadeia, da produção de fibras ao tingimento, do beneficiamento ao varejo, estabelecer metas coletivas de redução e criar condições para que boas práticas se tornem padrão setorial, e não exceção.

A água não é um recurso infinito. A capacidade de criar soluções coletivas e estruturadas para usá-la melhor, contudo, está ao nosso alcance, desde que decidamos ativá-la juntos.

No Akatu, partimos de uma premissa que orienta tudo o que fazemos: o problema nunca foi o consumo em si. Parar de consumir não é resposta, e nunca será. O problema é consumir sem saber o que está por trás de cada escolha, e produzir sem um sistema que aponte onde estão as oportunidades de fazer melhor. Programas setoriais existem exatamente para isso: para que empresas, fornecedores e toda uma cadeia possam enxergar juntos o que isoladamente seria invisível, e avançar de forma coletiva, contínua e sistêmica.

EFICIÊNCIA AMBIENTAL COMO VANTAGEM

COMPETITIVA

NA INDÚSTRIA TÊXTIL

A indústria têxtil vive um momento decisivo. As demandas por eficiência produtiva, competitividade e responsabilidade socioambiental já não podem ser tratadas como agendas paralelas, elas precisam caminhar juntas, integradas ao modelo de negócios e às decisões industriais.

Na Lupo, essa visão vem sendo construída ao longo de décadas e ganha uma nova etapa com o nosso mais recente Relatório de Sustentabilidade. Ele, em conjunto com as nossas metas revisitadas, reflete um processo de amadurecimento da companhia na forma de estruturar a agenda ESG e a importância estratégica que a empresa enxerga em propostas claras, metas objetivas e processos sistematizados.

Um dos avanços mais relevantes desse movimento está na transformação de processos produtivos tradicionais. Na nossa linha esportiva, eliminamos o tingimento convencional em mais de um terço da produção ao substituir esse processo pelo uso de fios pré-pigmentados. Essa mudança representa um ganho significativo de eficiência ambiental: conseguimos reduzir em até 50% o consumo de água, além de diminuir drasticamente o uso de energia e a geração de resíduos químicos. Em um setor historicamente intensivo em recursos naturais, repensar processos dessa forma é essencial para reduzir impactos estruturais da indústria de vestuário.

Outro eixo importante é o avanço da circularidade dentro da operação industrial. Nos últimos anos ampliamos o reaproveitamento de resíduos plásticos e têxteis, que passam por reprocessamento e são reinseridos na cadeia produtiva. Um exemplo concreto desse movimento foi a produção de 130 mil cabides a partir de resíduos industriais próprios. Materiais que anteriormente seriam descartados foram transformados em novos produtos utilizados nas lojas da rede, fechando ciclos produtivos com ganhos ambientais, operacionais e reputacionais.

Essas iniciativas fazem parte de uma agenda mais ampla de transformação que inclui avanços em logística reversa, rastreabilidade da cadeia, uso de algodão 100% responsável e eliminação progressiva de químicos de alto impacto. Todas

essas frentes estão organizadas dentro da nossa Estratégia de Sustentabilidade 2027, que estabelece metas claras para os próximos anos.

Estruturar essa jornada exigiu também um aprofundamento na forma como avaliamos riscos, impactos e oportunidades. Em 2024 concluímos uma nova matriz de materialidade construída a partir da abordagem de dupla materialidade, que considera tanto os impactos das atividades da empresa sobre o meio ambiente e a sociedade quanto os efeitos dos temas ESG sobre o desempenho financeiro e a geração de valor do negócio.

Esse processo envolveu benchmarking setorial, entrevistas com lideranças, análises técnicas socioambientais e a consolidação de temas prioritários organizados em pilares estratégicos com metas e responsáveis definidos. A matriz foi aprovada pela Diretoria Industrial, pela Presidência e pelo Conselho de Administração, que passaram a acompanhar a evolução dessas agendas de forma trimestral.

A formalização dessa governança contou com o apoio técnico da consultoria especializada em sustentabilidade RICCA, que nos auxiliou na estruturação de diretrizes mais claras e alinhadas a referenciais internacionais. O objetivo é garantir que uma cultura ética e sustentável, já presente na organização, seja cada vez mais transparente, mensurável e integrada à gestão.

Os resultados mostram que crescimento e responsabilidade podem caminhar juntos. Em 2024, mesmo em um cenário desafiador para o setor, a Lupo registrou receita bruta de R$ 1,89 bilhão, ampliou sua rede de lojas, fortaleceu a presença digital, especialmente com o e-commerce exclusivo da Lupo Sport, e manteve presença em mais de 34 mil pontos de venda no Brasil.

Para empresas industriais com mais de um século de história, como é o caso da Lupo, sustentabilidade também significa preservar um legado enquanto se constrói o futuro. Isso exige inovação constante, revisão de processos e uma visão de longo prazo capaz de equilibrar competitividade, responsabilidade ambiental e geração de valor para a sociedade.

O caminho da sustentabilidade na indústria não passa apenas por compromissos públicos, mas por mudanças concretas na forma de produzir. É nesse nível que as transformações mais relevantes acontecem e é nele que estamos concentrando nossos esforços.

NORMAS TÉCNICAS A BASE DA CONFIANÇA E DA COMPETITIVIDADE NO SETOR TÊXTIL

Ao longo da minha atuação no setor têxtil, tenho observado que as normas técnicas muitas vezes são percebidas apenas como exigências formais ou obrigações regulatórias. No entanto, minha experiência mostra que elas são instrumentos estratégicos para garantir qualidade, segurança, competitividade e acesso a mercados. Mais do que documentos técnicos, as normas estruturam o funcionamento do mercado e trazem previsibilidade às relações comerciais.

As normas surgiram da necessidade de padronizar medidas, processos e características técnicas, garantindo que produtos diferentes, fabricados por empresas distintas, atendam a critérios mínimos de qualidade, desempenho e segurança.

Em muitos casos, as normas técnicas também representam um primeiro passo para a construção de regulamentos. Ao consolidarem consensos técnicos e estabelecerem metodologias e critérios comuns, frequentemente servem de referência para autoridades regulatórias na elaboração de regulamentos técnicos.

No Brasil, esse processo de normalização é conduzido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), por meio de suas Comissões de Estudos (CE) organizadas nos diferentes Comitês Brasileiros (CBs). No setor têxtil, essa atuação ocorre no âmbito do CB-17 – Comitê Brasileiro de Têxteis e do Vestuário.

Um exemplo dessa aplicação é a ABNT NBR 15800 – Vestuário – Referenciais de medidas do corpo humano – Vestibilidade para bebês, crianças e adolescentes, que estabelece parâmetros de medidas corporais para apoiar o desenvolvimento de produtos mais adequados a essas faixas etárias. Tenho acompanhado as discussões sobre a revisão dessas normas nas comissões de estudo, o que reforça a importância da participação do setor produtivo na construção de referências alinhadas à realidade da indústria, especialmente em um contexto de crescimento do comércio eletrônico.

Ao participar das reuniões do CB-17, assim como de outros comitês, percebo um ponto em comum entre todos os setores: sem padronização de processos e produtos, não há mercado estruturado.

No cenário internacional, destacam-se organismos como a International Organization for Standardization (ISO) e American Society for Testing and Materials (ASTM), que contribuem para a harmonização global de requisitos técnicos. Essas instituições não criam regras de forma isolada. Ao contrário, consolidam o consenso técnico ao reunir diferentes atores, como indústria, varejo, governo, instituições acadêmicas e consumidores. Assim, as normas resultam do equilíbrio entre diferentes visões, interesses e realidades do mercado.

Em um setor globalizado como o têxtil, as normas também representam requisitos importantes para acesso a mercados externos. Muitos países exigem conformidade

com padrões internacionais como condição para importação. A harmonização com normas internacionais facilita exportações, reduz barreiras técnicas ao comércio e posiciona a indústria nacional em condições mais equilibradas de competitividade.

Com o avanço das agendas ESG e das demandas por maior rastreabilidade nas cadeias produtivas do setor, as normas técnicas também passaram a incorporar critérios ambientais, sociais e de governança. Requisitos relacionados ao controle de substâncias restritas, a processos produtivos mais limpos e a certificações ou programas ambientais, como OEKO-TEX, ZDHC e GOTS, têm sido cada vez mais demandados por consumidores e compradores.

Iniciativas como o passaporte digital de produtos reforçam a importância da padronização e da transparência das informações ao longo da cadeia produtiva.

Nesse contexto, as normas funcionam como ferramentas importantes de transparência e comprovação técnica, contribuindo para reduzir riscos de greenwashing e fortalecer a credibilidade do setor.

Além disso, em muitos casos, essas referências técnicas também servem de base para a construção de regulamentos e legislações relacionadas à sustentabilidade. Ao consolidarem critérios, metodologias e definições comuns, as normas contribuem para que políticas públicas e instrumentos regulatórios sejam elaborados com maior consistência técnica e alinhamento com as práticas do setor.

Nos cursos de etiquetagem têxtil que ministro, essa relação entre norma e segurança de mercado fica muito clara. A etiquetagem não é apenas um detalhe operacional, trata-se de um requisito técnico e legal. Informações como composição, tratamento de cuidado, identificação do fabricante ou importador, país de origem e tamanho são obrigatórias. O Regulamento Técnico Mercosul de Etiquetagem de Produtos Têxteis, por exemplo, estabelece que as instruções de cuidado devem seguir a norma ABNT NBR NM ISO 3758:2013 – Códigos de cuidado usando símbolos.

Quando as empresas compreendem a lógica normativa por trás dessas exigências, deixam de enxergá-las como burocracia e passam a utilizá-las como ferramenta de transparência com o consumidor, proteção da marca e organização interna de processos. Na prática, observo que muitas inconsistências na etiquetagem decorrem da falta de conhecimento sobre quais informações devem ser inseridas corretamente, e é justamente nesse ponto que a capacitação técnica faz diferença.

A participação ativa das empresas no processo de elaboração e revisão das normas técnicas é fundamental para garantir que os requisitos reflitam a realidade da indústria. Ao integrar as comissões de estudo, o setor produtivo contribui com sua experiência prática e acompanha de perto a evolução dos requisitos técnicos, antecipando mudanças e se preparando para sua implementação.

Mais do que acompanhar normas já publicadas, participar do processo de normalização é uma forma estratégica de contribuir para a construção de referências que impactam diretamente o funcionamento do mercado.

Na minha visão, normas técnicas não representam apenas custos ou obrigações regulatórias: são investimentos estratégicos. Elas estruturam relações comerciais, protegem consumidores, fortalecem a indústria e ampliam oportunidades de acesso a mercados. Em um setor global e cada vez mais exigente em termos de qualidade, sustentabilidade e transparência, compreender e acompanhar as normas técnicas torna-se um diferencial competitivo.

Mais do que cumprir requisitos, participar do processo de normalização é uma forma de contribuir ativamente para a construção das regras que orientarão o futuro do setor têxtil, muitas das quais, com o tempo, podem também servir de base para regulamentos e legislações.

Por Rachel Runge

Engenheira Têxtil e Coordenadora de Assuntos Regulatórios na Abit

CONSTRUÇÃO DA MATRIZ DE

MATERIALIDADE DO SETOR TÊXTIL E DE CONFECÇÃO

O conceito de materialidade ganhou protagonismo no debate corporativo sobre sustentabilidade. Hoje, ele orienta não apenas a estrutura dos relatórios, mas também a estratégia das organizações, ajudando a identificar o que realmente importa em termos de impactos, riscos e prioridades de investimento. Além disso, orienta a discussão sobre para quem as informações são relevantes e quem define essa relevância1

De origem contábil-financeira – onde se refere às informações financeiras relevantes para decisões de investidores2 - o conceito de materialidade foi incorporado aos frameworks globais de sustentabilidade e, nesse processo, ampliado e desafiado pela inclusão de questões ambientais e sociais. Esses frameworks orientam as empresas a medir e comunicar seus impactos sociais e ambientais e suas práticas de governança, promovendo maior padronização e transparência para investidores e demais stakeholders.

Essa expansão, porém, não ocorreu de forma uniforme: cada framework adotou

interpretações próprias, resultando em abordagens distintas e, muitas vezes, divergentes sobre o que deve ser considerado material. O SASB (Sustainability Accounting Standards Board), por exemplo, foca no que afeta diretamente a capacidade das empresas de gerar valor — a chamada materialidade financeira. Já a GRI (Global Iniciative Report) amplia o olhar e inclui impactos sociais, ambientais e econômicos, mesmo quando não geram efeitos financeiros imediatos — a chamada materialidade de impacto3

Em 2021, a União Europeia, por meio do Grupo Consultivo Europeu de Relatórios Financeiros (EFRAG), avançou ao propor o conceito de dupla materialidade, que inclui tanto a materialidade de impacto quanto a materialidade financeira. A proposta sintetiza essa tensão ao reconhecer simultaneamente ambas as dimensões e introduz a ideia de materialidade dinâmica, segundo a qual impactos hoje não financeiros podem tornar-se financeiramente relevantes ao longo do tempo.

1BROWN, J.; DILLARD, J. Integrated reporting: on the need for broadening out and opening up. Accounting, Auditing & Accountability Journal, v. 27, n. 7, 2014.

2IASB – International Accounting Standards Board. Materiality Practice Statement. 2021.

3COOPER, S.; MICHELON, G. Conceptions of materiality in sustainability reporting frameworks: commonalities, differences and possibilities. In: Handbook of Accounting and Sustainability. 2022. Abit

As diferenças conceituais são acompanhadas de variações nas recomendações sobre o processo de avaliação da materialidade, especialmente em relação ao ponto de vista a ser privilegiado na seleção dos temas materiais. A GRI enfatiza uma abordagem ampla e inclusiva, baseada no engajamento multistakeholder - indivíduos ou grupos cujos interesses são afetados ou podem ser afetados pelas atividades da organização - enquanto o SASB prioriza a visão dos investidores. Essa escolha faz toda a diferença na construção da materialidade: os temas considerados relevantes dependem diretamente de quem é ouvido e de quais interesses são colocados no centro da decisão4.

No entanto, há um ponto de convergência: ouvir os stakeholders é indispensável no processo de avaliação da materialidade. São eles que revelam expectativas, riscos emergentes e impactos que muitas vezes não aparecem nos indicadores tradicionais. O GRI destaca, por exemplo, que “levar em consideração as opiniões das partes interessadas é fundamental para desenvolver uma compreensão robusta dos impactos econômicos, ambientais e sociais de uma empresa”5.

No setor têxtil e de confecção, essa discussão é especialmente urgente. Trata-se de uma cadeia diversa e exposta a desafios socioambientais — uso intensivo de recursos naturais, condições de trabalho, circularidade, inovação e competitividade global. Ter clareza sobre os temas materiais permite caracterizar impactos e riscos, orientar decisões setoriais, alinhar práticas e fortalecer a reputação do setor. A definição de temas materiais no nível setorial também facilita a identificação de problemas comuns, já que empresas do mesmo setor compartilham modelos de negócio, ambiente regulatório e desafios semelhantes6.

Foi atento a isso que o Observatório da Indústria Têxtil e de Confecção do SENAI CETIQT, em parceria com a Abit, iniciou o projeto de construção dos indicadores de sustentabilidade do setor T&C. Uma das etapas já concluídas foi a elaboração da matriz de materialidade do setor no Brasil. O processo incorporou intencionalmente a tensão entre materialidade financeira e de impacto, buscando identificar temas que representem simultaneamente riscos à continuidade das empresas e impactos socioambientais relevantes produzidos por elas.

MATRIZ DE TEMAS E TÓPICOS MATERIAIS DO

CONFECÇÃO NO BRASIL

ÁGUA E EFLUENTES

RESÍDUOS, MATERIAIS E ECONOMIA CIRCULAR

BIODIVERSIDADE

SEGURANÇA DE DADOS

RELAÇÕES COMUNITÁRIAS

RASTREABILIDADE DA CADEIA DE SUPRIMENTOS

A construção da matriz utilizou três referências principais: o Materiality Finder do SASB, o registro de KPIs da ICMA (International Capital Market Association) e as Normas Setoriais para Têxteis e Vestuário do GRI (em revisão). A partir delas, foram realizados exercícios de enquadramento e comparação para evitar sobreposições e lidar com sua interconexão. Também foram analisados os temas materiais reportados, em 2024, nos relatórios de sustentabilidade de 27 empresas brasileiras do setor, além de diálogos frequentes com a Abit e empresas parceiras, de maneira a assegurar a aderência dos tópicos e temas à realidade da cadeia produtiva têxtil e de confecção no país.

Após exercícios de enquadramento, análise semântica e validação dos temas materiais com a Abit, foram consolidados cinco temas materiais e dezesseis tópicos associados, apresentados na imagem abaixo, que serão acompanhados por meio de 102 indicadores, que refletem tanto os impactos socioambientais mais relevantes quanto os riscos estratégicos associados à continuidade e competitividade das empresas.

A consolidação da matriz setorial de materialidade representa um avanço significativo ao estabelecer parâmetros comuns para o setor têxtil e de confecção e promover maior coesão em torno de uma agenda compartilhada de sustentabilidade. Ela oferece clareza estratégica, orienta investimentos, fortalece a governança e amplia a capacidade do setor de responder às demandas sociais e ambientais contemporâneas. Esse esforço também marca um passo importante para institucionalizar indicadores de sustentabilidade e monitorar o desempenho socioambiental do setor.

Por Aglaé Isadora Tumelero

Doutora e Mestre em Ciência Política e Especialista em Inteligência e Análise de Dados no SENAI CETIQT

4PUROILA, J.; MÄKELÄ, H. Matter of opinion: exploring the socio-political nature of materiality disclosures in sustainability reporting. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 2019.

5GRI – Global Reporting Initiative. G4 Sustainability Reporting Guidelines. 2013c.

6ECCLES, R. et al. The need for sector-specific materiality and sustainability reporting standards. Journal of Applied Corporate Finance, 2012.

CAPITAL HUMANO INOVAÇÃO GOVERNANÇA

SAÚDE E SEGURANÇA DOS COLABORADORES

PRÁTICAS E RELAÇÕES DE TRABALHO

REMUNERAÇÃO E JORNADA LABORAL

NÃO-DISCRIMINAÇÃO, IGUALDADE DE OPORTUNIDADES E GÊNERO

RESILIÊNCIA DO MODELO DE NEGÓCIOS

INOVAÇÕES EM MATERIAIS, PRODUTOS E PROCESSOS

ÉTICA E TRANSPARÊNCIA

GESTÃO DE RISCOS ESG

GESTÃO DO AMBIENTE LEGAL E REGULATÓRIO

INSPEÇÃO TÊXTIL NA ERA DOS DADOS QUANDO A

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ASSUME O CONTROLE DA QUALIDADE

Por muito tempo, a etapa de revisão de malhas e tecidos foi tratada como um processo essencial, porém excessivamente dependente da experiência individual do operador. Enquanto a indústria têxtil avançava em automação e gestão, a inspeção permanecia vulnerável à subjetividade, à variação de critérios e às limitações humanas. Foi a partir desse cenário — e das dores recorrentes relatadas por nossos clientes — que desenvolvemos, na Delta Máquinas Têxteis, a revisadeira de malha e tecidos Smart Vision iConcept View.

Ao longo dos anos, ouvimos de forma muito clara os principais desafios enfrentados pelas confecções e malharias: falta de padronização nos processos de inspeção, dificuldade em garantir qualidade de forma consistente, baixa produtividade dos métodos convencionais e alta rotatividade de colaboradores. Em um setor marcado por margens pressionadas e prazos cada vez mais curtos, treinar continuamente novos operadores para uma atividade que exige atenção extrema e critério técnico tornou-se um obstáculo significativo.

A inspeção manual, além de demandar tempo, está sujeita à fadiga, à variação entre turnos e à interpretação individual do que é ou não aceitável. O resultado são divergências internas, retrabalho, desperdício e, em alguns casos, impactos diretos na reputação da marca junto ao cliente final. A necessidade de transformar essa realidade foi o ponto de partida para a Smart Vision.

Desenvolvida com base nas demandas reais da indústria, a revisadeira veio para revolucionar o processo de inspeção de malhas e tecidos. Equipada com câmeras de alta definição integradas à Inteligência Artificial, a máquina realiza a inspeção automatizada com precisão superior à capacidade humana, identificando falhas e defeitos ao longo do rolo e registrando cada ocorrência no software.

O que antes dependia exclusivamente da visão do operador passa a ser um processo objetivo, rastreável e mensurável. A Smart Vision elimina completamente a necessidade da inspeção visual humana, garantindo padronização total dos critérios de análise. Não há variação entre turnos, não há influência de cansaço ou subjetividade. O processo torna-se consistente e auditável – e o colaborador pode ser alocado em outras frentes, garantindo maior aproveitamento do talento humano em etapas mais estratégicas da produção.

A máquina entrega uma leitura completa do material revisado. De forma automatizada, informa variações de largura do rolo, peso, gramatura e rendimento, além de registrar todas as não conformidades encontradas. Todos os parâmetros e controles da operação podem ser facilmente acessados em uma interface intuitiva na tela, permitindo acompanhamento em tempo real.

Esse nível de detalhamento impacta diretamente a produtividade. A inspeção flui com maior velocidade e confiabilidade. Ao reduzir retrabalhos e desperdícios, a indústria ganha eficiência operacional e previsibilidade de custos — um fator decisivo em um ambiente competitivo.

Outro diferencial estratégico é a integração do sistema ao ERP do cliente: inspeção e gestão industrial agem juntas e os

VELOCIDADE DE INSPEÇÃO

REVISÃO TRADICIONAL (MANUAL) REVISÃO AUTOMATIZADA (SMART VISION)

APROXIMADAMENTE 20 METROS POR MINUTO, DEPENDENDO DA EXPERIÊNCIA DO OPERADOR

ATÉ 40 METROS POR MINUTO

IDENTIFICAÇÃO DE DEFEITOS PADRONIZAÇÃO DA ANÁLISE

DEPENDENTE DA ATENÇÃO DO REVISOR, COM POSSIBILIDADE DE FALHAS HUMANAS

DETECÇÃO AUTOMATIZADA POR SISTEMA DE VISÃO

PODE VARIAR ENTRE OPERADORES

AVALIAÇÃO PADRONIZADA E OBJETIVA

dados coletados alimentam relatórios, indicadores de desempenho e análises de eficiência, fortalecendo uma cultura orientada por dados. Com isso, torna-se possível consolidar informações sobre a incidência de defeitos por tipo de malha, fornecedor ou lote, cruzando dados com produtividade e rendimento. Essa visão integrada permite identificar padrões, antecipar problemas e tomar decisões com base em fatos concretos — e não em percepções.

Quando falamos em Indústria 4.0, falamos de processos conectados, decisões baseadas em dados e automação inteligente. A Revisadeira de Malha e Tecido Smart Vision está alinhada a esse conceito ao transformar uma etapa tradicionalmente operacional em um centro de informação estratégica.

Na Delta, acreditamos que inovação só faz sentido quando resolve problemas reais e gera impacto mensurável. A Smart Vision nasceu das dores do setor e representa uma resposta concreta às exigências atuais da indústria têxtil: mais qualidade, mais padronização, mais produtividade e menos dependência de variáveis humanas.

A inspeção passa a ser um diferencial competitivo. É assim que entendemos o futuro da indústria: tecnologia aplicada com inteligência para produzir melhor, com mais segurança e eficiência.

Por Fábio Kreutzfeld CEO da Delta Máquinas Têxteis

REGISTRO DE DADOS

GERALMENTE MANUAL OU LIMITADO

REGISTRO AUTOMÁTICO DE LARGURA, PESO, GRAMATURA E RENDIMENTO

PONTUAÇÃO DA QUALIDADE

AVALIAÇÃO SUBJETIVA

PONTUAÇÃO TÉCNICA AUTOMÁTICA DO ROLO REVISADO

INTERRUPÇÕES NO PROCESSO

PODE HAVER

PAUSAS PARA AJUSTES OU CONFERÊNCIA

INSPEÇÃO CONTÍNUA, SEM INTERRUPÇÕES

DEPENDÊNCIA DE MÃO DE OBRA

ALTA DEPENDÊNCIA DE OPERADORES ESPECIALIZADOS

PROCESSO AUTOMATIZADO, COM MENOR INTERVENÇÃO HUMANA

INTEGRAÇÃO COM DADOS DA PRODUÇÃO

LIMITADA OU INEXISTENTE

POSSIBILIDADE DE INTEGRAÇÃO COM SENSORES E SOFTWARES DE GESTÃO

CRIE MODA AUTORAL TRANS FORMA

CAPACITAÇÃO, DIVERSIDADE E SUSTENTABILIDADE

NA MODA PAULISTA

Existe um pensamento que sempre me motivou a trabalhar com moda. Uma inquietação, um desejo de fazer algo novo. A possibilidade de criar um espaço que pudesse abrigar corpos, ideias, ideais, narrativas, histórias, promessas, concretudes e subjetividades, tudo isso usando a roupa como suporte. Pode parecer simples, mas não é. Nunca foi. Pode parecer pretensioso também. E é. Tem que ser.

Foi pensando assim que inventamos a Casa de Criadores, lá em 1997. Um espaço que nasceu com a missão de promover a moda autoral brasileira, sem que tivéssemos, naquele momento, a real dimensão da revolução que estávamos começando.

De lá para cá, muita coisa mudou, evoluiu, aflorou. Talvez a principal delas seja a filosofia que hoje nos guia: “Ǫual moda, para qual mundo?”. A pergunta, criada pela artista e pensadora contemporânea Karlla Girotto, carrega em si uma reflexão profunda sobre o papel da moda na sociedade atual. Mais do que produzir roupas, trata-se de pensar que tipo de mundo queremos construir.

Na Casa de Criadores, nos interessa promover uma moda decolonial, capaz de gerar mudanças estruturais e sistêmicas. Uma moda que combata o racismo, o etarismo, a LGBTfobia, especialmente a transfobia, e

que coloque no centro do debate o bem-estar coletivo, a diversidade e a preservação do planeta. Pensamos a moda de forma transversal, considerando as relações afetivas, culturais, políticas e econômicas que atravessam a vida das pessoas.

Com essa visão, passamos a buscar programas, instituições e políticas públicas que compartilhassem desse olhar. Foi assim que encontramos um parceiro fundamental, o Sebrae, instituição que há mais de 50 anos fomenta o empreendedorismo e o fortalecimento de pequenos negócios no Brasil.

Dentro dessa trajetória, o Sebrae SP criou o programa Crie Moda Autoral, voltado a capacitar e apoiar empreendedores da moda autoral brasileira no desenvolvimento e na profissionalização de seus negócios. Em paralelo, sabendo que a Casa de Criadores já desenvolvia diversas iniciativas de formação e capacitação, o Sebrae SP nos procurou com uma proposta muito especial: criar, em parceria, uma oficina voltada para pessoas transgênero, travestis e não binárias.

A ideia fez todo sentido para nós. Afinal, estamos falando de um público que sempre esteve presente na história da Casa de Criadores, seja nas passarelas, nos bastidores, na plateia ou na criação.

Assim nasceu a Oficina Crie Moda Autoral Trans Forma, uma parceria entre a Casa de Criadores e o Sebrae SP que une capacitação profissional, inclusão social e sustentabilidade.

A oficina reúne cerca de 30 participantes, selecionados por critérios socioeconômicos, e tem como ponto de partida o reaproveitamento de materiais e matérias-primas, com foco em práticas de upcycling e transmutação têxtil.

Durante o processo, os alunos têm contato direto com estilistas da Casa de Criadores, que atuam como professores e mentores, compartilhando conhecimentos em áreas como criação, modelagem, corte, costura e desenvolvimento de coleção.

Imagine o cenário: enquanto uma edição da Casa de Criadores acontece, no mesmo espaço onde o evento se realiza está sendo desenvolvida uma oficina composta por alunos trans, travestis e não binários que aprendem a costurar a partir da reutilização de tecidos e, muitas vezes, da própria roupa. Ao longo do curso, eles desenvolvem vários looks e, ao final, ganham um desfile para apresentar seus trabalhos. O detalhe mais bacana é que esse desfile acontece dentro da programação oficial do evento, diante de imprensa, público e profissionais do mercado. Para quem está apenas começando, é uma oportunidade extraordinária. E é exatamente isso que fazemos.

Entre os professores estão o estilista Jorge Feitosa, que trabalha com reaproveitamento de tecidos e retalhos gerados na própria produção; Alexandre dos Anjos, artista e designer cuja pesquisa conecta arte, moda e identidade negra por meio de roupas pintadas manualmente; e Vicenta Perrotta, criadora que há anos investiga temas como sustentabilidade, corpos dissidentes e ruptura com padrões de gênero.

Mais do que ensinar técnicas, a oficina propõe uma reflexão sobre o papel da moda no mundo contemporâneo. A indústria da moda é hoje um dos setores mais poluentes do planeta, responsável por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa e por milhões de toneladas de resíduos têxteis descarta-

dos todos os anos. Além disso, a cadeia produtiva ainda convive com desigualdades sociais profundas e oportunidades desiguais de acesso ao mercado.

Existe também uma crise menos visível, uma crise simbólica da moda. Em meio à produção acelerada e à repetição de tendências, a roupa muitas vezes perde seu significado cultural e sua capacidade de narrar identidades, territórios e experiências.

É justamente nesse ponto que a moda autoral brasileira assume um papel fundamental. Historicamente, ela nasce da necessidade de expressão, autonomia criativa e afirmação identitária, muitas vezes à margem das grandes estruturas produtivas. Com poucos recursos, mas muita inventividade, estilistas autorais transformam limitação em potência.

Na Casa de Criadores, acreditamos que a moda pode ser linguagem cultural, gesto político e espaço de experimentação. Cada coleção, cada desfile, cada peça pode carregar uma narrativa sobre quem somos e sobre o mundo que queremos construir.

Projetos como o Crie Moda Autoral Trans Forma ampliam esse entendimento para

além da passarela. Eles mostram que a moda também pode ser ferramenta de formação profissional, geração de renda e fortalecimento de comunidades.

Ǫuando uma pessoa trans, travesti ou não binária aprende a costurar, modelar ou desenvolver uma coleção, não estamos apenas ensinando técnicas. Estamos criando caminhos de autonomia, pertencimento e possibilidade.

No fundo, é isso que sempre me moveu na moda: a ideia de que a roupa pode ser mais do que objeto. Ela pode ser abrigo, discurso, identidade e transformação.

Por André Hidalgo Diretor artístico da Casa de Criadores

TARIFA ABRE A PORTA, SUSTENTABILIDADE

Estou certo de que Vinicius me perdoaria se me ouvisse confessar: serei, talvez, o português mais brasileiro do ecossistema global Têxtil-Vestuário-Moda.

Talvez por isso, há mais de 15 anos aposto nas possibilidades inatas do Brasil para se afirmar como uma referência maior em sustentabilidade e bioeconomia no setor.

E há mais de 20 anos acredito que chegará o dia em que a indústria brasileira despertará para os mercados externos. Eu acreditava — hoje tenho certeza. Em 2026, algo mudou com o acordo UE-Mercosul.

Ainda assim, o debate em torno desse acordo continua excessivamente preso a uma lógica do século XX: quem ganha tarifas, quem perde tarifas, quem exporta mais, quem enfrenta mais concorrência.

Tudo isso importa, claro. Mas, para o setor têxtil, o ponto decisivo é outro.

Com a conclusão das negociações em 6 de dezembro de 2024, a autorização da assinatura pelo Conselho da União Europeia em 9 de janeiro de 2026, a assinatura em Assunção em 17 de janeiro e a aprovação, pelo Senado brasileiro, do acordo comercial provisório em 4 de março de 2026, ficou evidente que a discussão deixou de ser apenas diplomática.

CHEGOU A HORA DAS EMPRESAS.

Nesta nova fase, a sustentabilidade deixou de ser um adorno de marca: passou a ser condição de acesso, permanência e consolidação no mercado europeu — um mercado exigente, competitivo, mas também uma enorme oportunidade para os operadores brasileiros.

Isso está inscrito no próprio desenho do acordo. O novo Anexo de Comércio e Desenvolvimento Sustentável reforça compromissos ambientais e trabalhistas, promove o trabalho digno e aponta explicitamente para a valorização de produtos sustentáveis no comércio birregional, incluindo oportunidades para pequenos produtores, cooperativas, povos indígenas e comunidades locais.

A mensagem é simples: a Europa está migrando de uma sustentabilidade declaratória para uma sustentabilidade documentada.

Também é importante destacar que a União Europeia, sem reduzir o nível de exigência do seu mercado interno, comprometeu-se a utilizar dados de autoridades do Mercosul para avaliar a conformidade das importações. Traduzindo para a indústria têxtil: já não basta alegar boas práticas — será cada vez mais necessário comprová-las de forma verificável, comparável e auditável.

Esse é, aliás, um sinal claro de confiança institucional, que valoriza o papel de entidades como ABIT, ABRAPA e ANEA, além do sistema científico e tecnológico brasileiro, que vem construindo um caminho relevante.

É justamente aqui que o Brasil pode transformar uma fragilidade histórica em vantagem competitiva.

O país detém a maior cadeia têxtil completa do hemisfério ocidental — da produção de fibras ao varejo. Isso não é apenas um slogan: em um ambiente regulatório que exige rastreabilidade, composição, origem, conformidade e transparência ambiental ao longo de toda a cadeia, a integração produtiva se torna um ativo estratégico. Cadeias mais curtas e articuladas reduzem pontos cegos, facilitam a padronização de dados e aumentam a capacidade de resposta a compradores, reguladores e financiadores.

Do lado europeu, a mensagem é igualmente clara. Em abril de 2025, a Comissão Europeia adotou o plano de trabalho 2025–2030 do regulamento de ecodesign para produtos sustentáveis, colocando os têxteis — com foco em vestuário — entre os grupos prioritários. No mesmo pacote, a informação sobre desempenho ambiental tende a ser estruturada por instrumentos como o Passaporte Digital de Produto, cuja consulta pública foi lançada também em abril de 2025. Já a revisão da Waste Framework Directive, em vigor desde 16 de outubro de 2025, introduziu regras comuns de responsabilidade estendida do produtor para têxteis.

No algodão, o Brasil já mostra que esse caminho é possível. O ecossistema liderado pela Abrapa e pelo programa Algodão Brasileiro Responsável cobre praticamente toda a produção nacional na safra 2023/2024. O SouABR leva essa lógica até o consumidor final, com produtos rastreáveis por QR code, permitindo acompanhar a trajetória da fibra da fazenda ao varejo.

Isso não resolve, sozinho, o desafio da sustentabilidade no setor — mas desmonta um argumento recorrente: o de que o país não teria escala, governança ou tecnologia para garantir transparência. Tem, sim. O que falta é expandir essa lógica para além da fibra e consolidá-la em toda a cadeia de transformação.

Isso não significa que os desafios estejam superados — nem no Brasil, nem na própria União Europeia. Mas iniciativas como a parceria entre ABDI e ABIT para mapear a cadeia de reciclagem e circularidade do setor têxtil brasileiro, e apoiar ações de logística reversa, mostram uma orientação estratégica clara: identificar lacunas e preparar o caminho.

O Brasil já possui ativos importantes em produção responsável e rastreabilidade de matéria-prima. O próximo passo é conhecer melhor, medir melhor e organizar melhor o pós-consumo: reciclagem, reintrodução de materiais e gestão de resíduos têxteis. Em um contexto internacional em que a exigência só tende a aumentar, isso será decisivo.

Por isso, o melhor uso estratégico do acordo UE-Mercosul não passa por vender a ilusão de que a tarifa, por si só, fará o trabalho. Nem por insistir em uma retórica vazia de “moda sustentável” como peça de marketing.

O caminho mais inteligente é outro: tratar a sustentabilidade como infraestrutura industrial.

Isso significa investir em sistemas de rastreabilidade interoperáveis, métricas compartilhadas, certificação com credibilidade, dados ambientais e sociais auditáveis, logística reversa e design de produto voltado para durabilidade, reparabilidade e reciclabilidade.

Quem fizer isso primeiro não estará apenas atendendo às exigências europeias — estará construindo uma posição mais forte em qualquer mercado relevante.

O acordo UE-Mercosul pode, sim, abrir uma janela importante para o têxtil brasileiro. Mas essa janela não será ocupada por quem falar mais alto sobre sustentabilidade. Será ocupada por quem conseguir traduzi-la em evidência, padrão, eficiência e confiança.

Durante muito tempo, o setor tratou a sustentabilidade como reputação. Agora, precisa tratá-la como arquitetura de competitividade.

Tarifa ajuda. Câmbio ajuda. Marca ajuda. Mas, na próxima fase do comércio têxtil, o que realmente decide vai muito além disso.

E, por fim, este “português mais brasileiro que existe” não poderia encerrar sem um desejo: que o desenvolvimento e os negócios entre a indústria têxtil do Brasil e da União Europeia sigam — com visão de futuro — a linha que Cabral um dia traçou no Atlântico.

Por Braz Costa

Diretor geral do Centro tecnológico das industrias

Têxtil e do vestuário de Portugal (CITEVE)

31 ANOS DA AGENDA LEGISLATIVA DA INDÚSTRIA

A CONSTRUÇÃO PERMANENTE DA COMPETITIVIDADE DA

ECONOMIA BRASILEIRA

Em 2026, celebramos o 31º ano da Agenda Legislativa da Indústria - o principal instrumento de representação institucional da indústria dentro do processo legislativo brasileiro. Criada em 1995, a Agenda surgiu da necessidade de organizar a atuação do setor produtivo diante de cenários macroeconômicos complexos e frequentemente marcados por entraves à atividade empresarial no país.

Foi nesse período que ganhou força a expressão “Custo Brasil”, utilizada para sintetizar distorções legais, regulatórias e estruturais que aumentam o custo de produzir no país. Desde então, a Agenda Legislativa tornou-se uma referência no Congresso Nacional para a identificação desses obstáculos e para a articulação institucional necessária à sua superação.

Os números demonstram a dimensão desse trabalho. Ao longo de sua trajetória, a Agenda já avaliou cerca de 160 mil proposições legislativas em tramitação no Congresso Nacional. Somente em 2025, a Confederação Nacional da Indústria acompanhou 10.774 proposições. Desse total, 1.254 foram identificadas como de interesse direto da indústria.

Para a construção da Agenda de 2026, 648 proposições foram analisadas em maior profundidade, resultando na priorização de 135 matérias consideradas estratégicas, submetidas à deliberação da Diretoria da CNI.

A construção da Agenda é resultado de um processo amplamente participativo. Nesta edição, 153 entidades — entre federações estaduais da indústria, sindicatos nacionais e associações setoriais — participaram do

processo de priorização. Foram registrados cerca de 20 mil votos nas fichas eletrônicas de avaliação e, em média, cada entidade indicou aproximadamente 30 proposições prioritárias. O Seminário de Construção da Agenda reuniu mais de 450 participantes, consolidando uma agenda representativa e tecnicamente qualificada.

A Agenda desempenha dois papéis complementares no processo legislativo: contribui para a aprovação de medidas importantes para o ambiente de negócios e atua para aperfeiçoar propostas que, em sua formulação inicial, poderiam gerar custos excessivos ou insegurança jurídica para o setor produtivo.

No caso do setor têxtil e de confecção, um exemplo relevante de conquista institucional acompanhada ao longo das edições da Agenda foi a prorrogação da desoneração da folha de pagamentos para setores intensivos em mão de obra. É uma política essencial para preservar a competitividade de cadeias produtivas com forte geração de empregos formais.

Outro avanço foi a aprovação da tributação das compras internacionais de baixo valor, medida que ficou conhecida como “taxa das blusinhas”. Com a sanção da Lei nº 14.902, de 2024, originada do PL 914/2024, passou a incidir Imposto de Importação de 20% sobre mercadorias de até US$ 50, faixa que até então recebia tratamento tributário favorecido e gerava forte assimetria concorrencial.

Exemplo recente mostra como a atuação institucional também busca aprimorar propostas legislativas inicialmente identificadas como problemáticas. É o caso do

Projeto de Lei nº 3529/2024, que trata da obrigatoriedade de inclusão de etiquetas acessíveis para pessoas com deficiência visual em peças de vestuário.

Embora a proposta apresente desafios operacionais relevantes para a cadeia produtiva, o substitutivo aprovado na CDC da Câmara dos Deputados, avançou ao prever um prazo de transição de dez anos para a implementação das novas exigências. Isso permite que a indústria e o comércio se adaptem gradualmente às mudanças, reduzindo riscos de desorganização produtiva e custos abruptos.

Esse tipo de aperfeiçoamento ilustra bem o papel da Agenda Legislativa da Indústria: participar do processo democrático de construção das normas, contribuindo para que iniciativas legítimas de política pública sejam implementadas com equilíbrio, pre visibilidade e viabilidade econômica.

A Agenda também evoluiu em sua própria abordagem. Nos primeiros anos, seu cará ter era predominantemente reativo, volta do principalmente ao acompanhamento de projetos em tramitação e à identifica ção de riscos regulatórios. Com o ama durecimento institucional da iniciativa, a Agenda passou a incorporar um compo nente cada vez mais propositivo.

Hoje convivem na Agenda duas dimen sões importantes. Nos temas estrutu rantes da economia — como tributação, inovação, competitividade e ambiente re gulatório — o documento assume caráter mais propositivo. Já na dimensão setorial,

a Agenda frequentemente atua de forma mais reativa, respondendo a projetos que impactam cadeias produtivas específicas.

Ao completar 31 anos, a Agenda Legislativa da Indústria reafirma seu papel como instrumento consolidado de articulação institucional, construído com a participação ativa das entidades representativas e orientado por evidências técnicas e conhecimento prático, direto do chão de fábrica. Ela contribui decisivamente para qualificar o debate legislativo e fortalecer um ambiente de negócios mais favorável ao investimento, à geração de empregos e ao desenvolvimento econômico do Brasil.

ORIENTE MÉDIO

SOBRE O PETRÓLEO E A ECONOMIA BRASILEIRA EFEITOS DO CONFLITO NO

A recente escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio voltou a gerar preocupações sobre possíveis disrupções no mercado global de energia. Em geral, episódios de instabilidade internacional elevam a volatilidade do preço do petróleo, refletindo a incorporação de prêmios de risco geopolítico pelos mercados financeiros. Ainda assim, a intensidade e a duração desses movimentos dependem fundamentalmente da ocorrência de interrupções efetivas na produção ou no transporte internacional de petróleo. Na ausência de choques concretos de oferta, os impactos tendem a ser temporários e gradualmente dissipados.

Como o petróleo exerce papel central na formação dos preços de combustíveis e nos custos logísticos da economia, oscilações em suas cotações internacionais podem se transmitir para a inflação doméstica. Além do canal energético, tensões geopolíticas também podem afetar mercados de insumos estratégicos, como fertilizantes, cujo fornecimento global é concentrado e vulnerável a disrupções logísticas. Dada a elevada dependência brasileira de importações desses insumos, choques de oferta podem elevar custos agrícolas e, indiretamente, pressionar preços de alimentos.

Para setores industriais intensivos em energia, logística e insumos petroquímicos — como a indústria têxtil —, esses movimentos podem afetar custos e competitividade. Conflitos envolvendo países produtores costumam provocar reações imediatas nos mercados, sobretudo quando ocorrem em regiões estratégicas, como o Golfo Pérsico, onde se localiza o Irã e por onde passa parcela relevante do comércio global de petróleo.

QUADRO 1:

No Brasil, o principal canal de transmissão desses choques ocorre por meio do preço dos combustíveis que representam cerca de 6% da cesta do IPCA (cerca de 5% referentes à gasolina e 0,23% ao diesel). Além disso, o transporte rodoviário — predominante no país — amplia a transmissão de aumentos no preço do diesel para diferentes cadeias produtivas.

Postos e distribuidoras no Brasil já começaram a elevar preços ao consumidor, antecipando custos de reposição mais elevados em um ambiente de forte valorização do petróleo no mercado internacional. Em cadeias altamente integradas como a de combustíveis, a formação de preços costuma incorporar rapidamente expectativas futuras de custo, mesmo antes de reajustes formais nas refinarias.

Nesse contexto, medidas pontuais, como a redução temporária de tributos sobre o diesel, podem suavizar parcialmente o impacto no curto prazo, mas dificilmente neutralizam completamente os efeitos de um choque externo prolongado sobre

MÉDIA BRENT PRÉ-ATAQUE (01/01 ATÉ 11/03)

70,46

CENÁRIOS

CENÁRIO 1 CENÁRIO 2 CENÁRIO 3

os preços de energia.

Para capturar o impacto de um choque no preço internacional do petróleo sobre o IPCA foi utilizado um modelo de Vetores Autorregressivos (VAR). Foram usadas as cotações mensais do Brent e dados do IPCA, entre janeiro de 2010 e janeiro de 2026. O modelo estimou com significância que, em caso de um período prolongado da guerra, um choque inesperado no preço do petróleo, equivalente a um desvio padrão dos resíduos (7,96%), levaria a um aumento de 0,07 ponto percentual no IPCA apenas no período seguinte (mês seguinte), fazendo com que as expectativas para o IPCA voltem à trajetória normal no longo prazo conforme resultado da função impulso resposta (Quadro 2).

O Quadro 1 considera os possíveis cenários. A média da cotação do Brent em 2026 no período pré-ataque (até 27/02), foi de 68,69. No período pós-ataque até o dia 28/02, esse valor subiu para US$ 84,49. Assumindo um período prolongado da guerra, esse aumento teria um impacto

no IPCA de 0,18 ponto percentual. Dessa forma, considerando cenários de aumento do Brent para US$ 100 e para US$ 120, o IPCA teria aumentos de 0,37 e 0,62 pontos percentuais, respectivamente.

Além do mais, os efeitos da guerra também se estendem ao mercado de fertilizantes impactando a atividade agrícola. A elevada dependência externa do Brasil no mercado de fertilizantes constitui um canal potencial de transmissão de choques geopolíticos para a inflação doméstica de alimentos. Estima-se que cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no país sejam importados, com participação relevante de fornecedores localizados no Oriente Médio e em outras regiões sujeitas a instabilidades geopolíticas. Em um cenário de intensificação ou persistência de conflitos nessas áreas, interrupções logísticas ou restrições de oferta podem pressionar os preços internacionais desses insumos, elevando os custos de produção agrícola no Brasil.

Para avaliar esse mecanismo de trans-

MÁXIMO PÓS-ATAQUE (28/02 ATÉ 05/03)

05/03)

VARIAÇÃO ENTRE MÉDIA E MÁXIMO

IMPACTO NO IPCA

Fonte: Elaboração GO Associados

QUADRO 2: FUNÇÃO IMPULSO RESPOSTA

Fonte: Elaboração GO Associados

QUADRO 3: FUNÇÃO IMPULSO RESPOSTA

Fonte: Elaboração GO Associados

missão, foi estimado um modelo VAR com dados mensais considerando a resposta do IPCA de alimentos a choques nos preços internacionais de fertilizantes. A partir das funções impulso-resposta, observa-se que o repasse para os preços ao consumidor ocorre de forma defasada, refletindo a existência de estoques e o tempo necessário para que o aumento dos custos de insumos se traduza em reajustes ao longo da cadeia produtiva. Os resultados indicam que o impacto se torna estatisticamente significativo aproximadamente a partir do quarto mês após o choque, sugerindo uma transmissão gradual dos custos ao longo do tempo.

Um choque positivo nos preços de fertilizantes gera um aumento máximo de cerca de 0,09 ponto percentual no IPCA de alimentos. Esse resultado sugere que episódios prolongados de tensão geopolítica em regiões produtoras podem contribuir para pressões adicionais sobre os preços de alimentos no Brasil, ainda que com alguma defasagem temporal.

Diante disso, no caso da indústria têxtil, três canais merecem atenção. Etapas industriais como fiação, tecelagem, tingimento e acabamento demandam consumo significativo de energia. A elevação dos preços de combustíveis e eletricidade pode pressionar os custos de produção.

O segundo canal é logístico. A indústria depende intensamente do transporte rodoviário para movimentação de matérias-primas e distribuição de produtos. A alta do diesel tende a elevar custos ao longo de toda a cadeia.

Por fim, há o impacto sobre insumos petroquímicos. Fibras sintéticas como poliéster e poliamida são derivadas do petróleo e, portanto, sensíveis às oscilações dessa commodity. Além disso, aumentos nos custos agrícolas podem pressionar o preço do algodão, principal fibra natural utilizada pela indústria têxtil brasileira.

Por Gesner Oliveira professor da FGV EAESP e sócio da GO Associados

Por Rafael Prado economistas e consultores na GO Associados

Por Francielly Almeida economistas e consultores na GO Associados

Por Márcio Estevão economistas e consultores na GO Associados

Por Luccas Saqueto economista e coordenador de Governança Corporativa na GO Associados

CURTAS

Este espaço da Revista Abit Review vai noticiar algumas iniciativas das empresas que estão investindo em ações dentro da agenda ESG, como eventos, certificações, prêmios, boas práticas junto a comunidades, colaboradores, e outras ações.

AUDACES

A Audaces, multinacional brasileira com foco em tecnologia para a indústria da moda, iniciou 2026 com reestruturação de governança e passou a operar em duas verticais, softwares e hardwares, cada uma com liderança executiva própria. Presente em mais de 120 países, a empresa projeta crescimento médio de 30% ao ano e prevê investir R$ 1 bilhão até 2030 em expansão internacional e inovação. Sob a presidência global de Matheus Diogo Fagundes, embaixador da Abit, a companhia amplia o uso de inteligência artificial para redução de desperdícios, aumento de eficiência produtiva e digitalização da cadeia da moda. A unidade fabril em Palhoça (SC) segue recebendo investimentos em modernização e práticas sustentáveis.

INSTITUTO LINS FERRÃO

O Instituto Lins Ferrão, instituição sem fins lucrativos de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, vinculada ao Grupo Lins Ferrão, disponibilizou em 2025 um novo cordão de crachá, confeccionado a partir de resíduos têxteis reaproveitados e com mão de obra social, para os colaboradores administrativos do Grupo e suas marcas Pompéia e Gang. Com os preceitos da economia circular, os resíduos têxteis são transformados novamente em fios que deram origem aos cordões. Toda a parte de acabamentos e aviamentos da peça foi confeccionada pelas mulheres do grupo AMAR Restinga, por meio de uma parceria com a Ciclo Reverso.

COLETE INTELIGENTE

Investigadores da Nottingham Trent University desenvolveram um colete têxtil inteligente capaz de monitorar a temperatura corporal e emitir alertas em tempo real sobre risco de hipotermia. A tecnologia integra quatro sensores térmicos incorporados ao fio do tecido. Os dados são transmitidos via Bluetooth a um microcontrolador, que envia informações para dispositivos móveis e pode acionar alarmes em caso de leituras anormais. O protótipo foi testado em atividades cotidianas e é voltado ao monitoramento de pessoas idosas e vulneráveis.

Divulgação: Universidade de Nottingham
Trent
Divulgação: Instituto Lins Ferrão
Divulgação: Audaces
POR TALEESSA SILVA

LOJAS RENNER S.A.

A Lojas Renner S.A. foi incluída na “A List” do CDP por desempenho e transparência em mudança climática e segurança hídrica. A organização avaliou, em 2025, mais de 22 mil empresas que reportaram dados ambientais, das quais 20 mil foram pontuadas. A classificação “A” considera critérios alinhados às recomendações da Task Force on Climate-related Financial Disclosures, incluindo governança, gestão de riscos, metas e ações verificáveis. Em 2025, 640 investidores, com US$ 127 trilhões em ativos, solicitaram ao CDP dados ambientais para subsidiar decisões de investimento.

CITEVE

O CITEVE, Centro Tecnológico sediado em Portugal, apresentou, no fim de 2025, o terceiro Relatório de Sustentabilidade do Setor Têxtil e do Vestuário, no âmbito do projeto Be@t. Na dimensão ambiental, 89% das 105 empresas participantes aplicam práticas sustentáveis nos processos produtivos; 11% dos materiais utilizados são reciclados e 25% de base biológica. O relatório aponta redução de emissões de escopos 1 e 2, menor consumo energético e hídrico e diminuição no uso de produtos químicos. No campo social, 48% da força de trabalho é composta por mulheres e 57% das empresas realizam doações ou apoios comunitários. Em governança, 95% adotaram códigos de ética e 30% divulgam publicamente informações sobre impactos e desempenho em sustentabilidade.

PROJETO REPENSE REUSE

O projeto Repense Reuse, da Humana Brasil, encerrou 2025 com 829 toneladas de resíduos têxteis recolhidos na Bahia, Pernambuco, Sergipe e Distrito Federal. A Bahia liderou o volume, com 546 toneladas, seguida por Pernambuco (107 t), Distrito Federal (97 t) e Sergipe (77 t). A iniciativa realiza coleta, triagem e reaproveitamento de roupas, calçados e acessórios, com foco na redução de resíduos enviados a aterros e no estímulo à economia circular. Em 2025, o programa ampliou pontos de coleta e centros de triagem nas regiões atendidas.

JEANOLOGIA

A Jeanologia, fornecedora de equipamentos industriais na Espanha, celebra 30 anos informando que mais de 40% do jeans produzido no mundo utiliza suas tecnologias. Entre as soluções desenvolvidas estão acabamento a laser, uso industrial de ozônio, sistema eFlow, reciclagem total de água com H2Zero e a ferramenta EIM para medição de impacto ambiental. A companhia também avança na integração de inteligência artificial e automação aos processos produtivos, com foco na redução de consumo de água, energia e produtos químicos.

Divulgação: Lojas Renner S.A

BMW GROUP

O BMW Group passou a incorporar malhas recicladas nos interiores de modelos lançados da MINI, no âmbito da estratégia “Secondary First”. O material contém 92% de poliéster reciclado e é aplicado em painéis internos, com redução de emissões e consumo de água em relação a insumos virgens. A tecnologia também é utilizada no BMW iX3, cuja versão Contemporary emprega malha com 75% de conteúdo reciclado no painel de instrumentos. O projeto MINI Knit foi premiado no SPE Automotive Awards 2025 na categoria de interiores automóveis.

CHIP EM FIBRA TÊXTIL

Investigadores da Universidade de Fudan, em Xangai, na China, desenvolveram circuitos em fibras têxteis capazes de processar informação, segundo estudo publicado na Nature. A tecnologia utiliza arquitetura espiral multicamadas para incorporar milhares de transistores em fibras flexíveis. Um chip de fibra com 1 milímetro pode conter 10 mil transistores, com potencial de expansão para milhões ao longo de um metro de fibra. Os dispositivos suportam flexão e estiramento e podem ser aplicados em wearables, interfaces cérebro-computador e têxteis inteligentes.

MONAMI

A produtora cultural Mona Camargo, criadora do projeto Monami, lançou a T-shirt “Mãe Atípica”, iniciativa que busca dar visibilidade à saúde mental na maternidade atípica e apoiar mulheres em situação de vulnerabilidade. O lançamento ocorreu na Feira na Rosenbaum, em São Paulo, no final de 2025. As camisetas foram produzidas em parceria com coletivos ligados ao Instituto Ecotece, como Retece e C.U.P.I.N.S, que atuam com economia solidária e inclusão produtiva. O projeto teve início em Portugal e aborda temas relacionados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).

RIOPELE

A Riopele, empresa têxtil portuguesa, inaugurou um novo parque fotovoltaico e passou a contar com cerca de 14 mil painéis instalados, totalizando 4,5 MW de capacidade. O investimento nos últimos três anos foi de aproximadamente 12 milhões de euros, direcionado aos principais polos industriais para produção de energia destinada ao autoconsumo. A estrutura ocupa 60 mil m² de coberturas e integra o plano de transição energética iniciado em 2019, que já soma mais de 18 milhões de euros. Segundo a empresa, a produção permitirá suprir entre 25% e 30% da demanda energética própria, com redução estimada de 1.750 toneladas de CO₂ por ano. Em 2025, a Riopele registrou volume de negócios de 99 milhões de euros.

Divulgação: Felipe Garcia @feehgarcia
Divulgação: Universidade de Fudan
Divulgação: BMW Group

SPARXELL

A Sparxell, empresa britânica especialista em cor, angariou aproximadamente 4,2 milhões de euros em uma ronda de financiamento destinada a acelerar a industrialização da sua plataforma de pigmentos à base de plantas como alternativa aos corantes sintéticos e prejudiciais. A Sparxell descreve a sua tecnologia como uma plataforma “bioinspirada” pioneira mundialmente, criada nos laboratórios do Departamento de Química Yusuf Hamied da Universidade de Cambridge, que utiliza celulose de origem vegetal e estrutura física, em vez de produtos químicos tóxicos, para criar cores vibrantes e de alto desempenho. Segundo a empresa, a abordagem reduz o consumo de água e energia, elimina microplásticos e poluição química e supera o desempenho de alternativas sintéticas.

DYELOOP

A tecnologia DyeLoop, desenvolvida na Universidade de Coimbra, será testada pela primeira vez em ambiente industrial na ATB (Acabamentos Têxteis de Barcelos), empresa têxtil portuguesa. O projeto prevê o reaproveitamento de efluentes ainda com cor no processo de tingimento, com reintegração de água, corantes e aditivos. O protótipo está na fase final de desenho e deve começar a ser construído no primeiro semestre de 2026, com financiamento de 1,4 milhões de euros da Fundação Calouste Gulbenkian. Os primeiros testes industriais estão previstos para 2027, com expectativa de reduzir mais de 50% dos custos e o consumo de água, energia e matérias-primas no tingimento têxtil.

AGULHAS DE PINHEIRO

Um projeto com financiamento de 1,4 milhões de euros do Fundo Social Europeu Plus, da União Europeia, e 143 mil de euros do Ministério da Ciência, Cultura e Turismo da Saxônia estuda, desde novembro de 2025, o desenvolvimento de fibras têxteis celulósicas a partir de agulhas de coníferas, principalmente de pinheiros nativos. Até agora consideradas resíduos florestais, as agulhas de coníferas locais apresentam um elevado potencial como matéria-prima renovável. Segundo a instituição, essa abordagem pode contribuir de forma relevante para os objetivos do Pacto Ecológico Europeu, como na utilização eficiente de recursos, na prevenção de resíduos e no reforço da economia circular.

UNIFI

A Unifi, produtora multinacional de fibras e fios sintéticos, divulgou o Resumo de Sustentabilidade de 2025, no qual informa ter reciclado volume equivalente a 1 bilhão de camisetas e desviado 46 bilhões de garrafas plásticas de aterros. A empresa anunciou a meta de reciclar 65 bilhões de garrafas até 2030, além de transformar resíduos equivalentes a 1,5 bilhão de camisetas no mesmo prazo. A marca Repreve respondeu por 31% da receita anual em 2025, com objetivo de superar 50% até 2030. O relatório é a sexta edição anual publicada pela companhia.

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