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ARMARINHO
SALVADOR DOMINGO 12/12/2010
Vamos combinar?
PEDRO FERNANDES
TRICÔ Jum Nakao, designer
“VISTO AS PESSOAS NO PENSAMENTO, NA DIGNIDADE” Luciano da Matta / Ag. A TARDE
Seis anos se passaram desde quando Jum Nakao rasgou suas roupas de papel em plena São Paulo Fashion Week, no desfile que marcou tanto a sua saída do mundinho fashion quanto a própria história da moda produzida no País. Apesar do impacto causado, o designer, que hoje se dedica às artes plásticas e ao ensino, não acredita que o sistema da moda tenha mudado, mas não perde a esperança de contribuir por meio da educação. “É um trabalho de gota em gota”, diz. Na semana passada, Jum esteve em Salvador para uma oficina de figurino do Teatro Castro Alves, participou do evento Conversas Plugadas, na Sala do Coro, e conversou com a coluna sobre design de móveis, consumo irracional e saudade de fazer roupas.
Você diz que deixou o sistema da moda porque não era possível mudar nada de lá de dentro. Mas, de certa forma, A Costura do Invisível só causou tanto impacto por ter se realizado dentro do sistema. Você ainda pensa assim? Acredito que existam formas mais eficientes como essa que eu optei que é através da educação. Tranformando o indivíduo é possível transformar o sistema. Além de pensar em educação, também penso no lado da sociedade. Por isso também atuo nas artes plásticas. Você acha que tem atingido seu objetivo de mudar os indivíduos por meio da educação? Aos pouquinhos. A mudança é gradativa. Quando você está falando em educação, em
“Se as pessoas tiverem mais informação, elas serão mais criteriosas em suas escolhas” sensibilização em relação à realidade através das artes, é uma coisa de grão em grão. De gota em gota. Mas é a forma de fazer a minha parte. As pessoas me perguntam se valeu a pena abdicar de minha carreira na moda. Olhando para o mercado eu diria que as coisas não mudaram. Não vou ser irrealista. Ao
mesmo tempo pretendo ser realista na medida que me permite continuar a sonhar. O mercado estimula um consumo irracional ou só responde a uma demanda? Se as pessoas tiverem mais informação elas serão mais criteriosas em suas escolhas. O mercado simplesmente trabalha em função da qualificação da sociedade. Sem educação ela se torna mais suscetível a manipulação do mercado. Você tem feito trabalhos como designer de móveis e objetos de decoração. Como esses objetos se diferenciam do que você fazia em moda? Eu acho que é a mesma coisa. São como palavras diferentes para dizer a mesma coisa.
Mas produzo mobiliário dentro dos mesmos valores e conceitos que eu utilizava para produzir moda. Eles estão mais associados ao meu olhar que ao material. Você não tem saudade de fazer roupas? Eu digo que se antes eu fazia CDs, hoje faço shows ao vivo. Nesses seis anos sem fazer roupa eu vesti muito mais gente que em 20 anos de moda. Visto as pessoas onde importa, no pensamento, na dignidade. Sinto saudade. Um dia eu volto. O que permanece invisível e precisa ser visto? As potencialidades que as pessoas não percebem que têm, e por isso se tornam passivas.
Danuza Leão Escritora e cronista
Em três semanas, Dilma toma posse. Até lá, quem manda, ela ou Lula? A presidente eleita se pronunciou sobre a condenação de Sakineh, a iraniana condenada à morte, e a favor dos direitos humanos (só não ficou claro se essa posição vale para todos os países). Posição diferente da de Lula, que afirmou na época que não iria se intrometer nos negócios internos do Irã, pois isso seria uma 'avacalhação'. Como pegou mal, ofereceu asilo político à iraniana – uma piada – e depois da declaração de Dilma, ficou calado. Parecia que Dilma começava a se libertar, mas o novo ministério é praticamente o mesmo, apenas as peças mudaram de lugar. Soube-se que ela daria quatro ministérios ao PMDB, mas acabou dando cinco, como queria o partido. O ministro Mantega declarou que ia desacelerar as obras do PAC. Lula disse que não acredita que Dilma corte um centavo dessas obras, das quais ela é a 'mãe'. Alguma coisa está errada, e não ouso dizer que estamos à beira de uma 'avacalhação' porque essa palavra não deve ser pronunciada em público, nem escrita. Aliás, todos gostaríamos de saber por que razão a primeira entrevista de Dilma foi dada a um jornal americano, e não à imprensa do país que a elegeu. Já pensou se Obama, eleito, escolhesse falar apenas a um jornal, e brasileiro? Dilma disse que escolheria um ministério fundamental-
mente técnico e que nele as mulheres teriam muito espaço; não é o que está acontecendo. Até agora, o melhor que Dilma fez foi mudar o cabelo, que em vez de ser escovado em direção às estrelas e só se manter com a ajuda de muito laquê, está mais natural, pois nenhum cabelo cresce para cima. E vamos esperar pelo vestido da posse – vermelho, claro, como é de praxe no partido. Se um finlandês chegasse ao Brasil, ficaria muito curioso para saber a razão de tanta pressão dos partidos por ministérios, sobretudo pelos com grande orçamento para fazer grandes obras, e perguntaria o por quê. Nunca ninguém fez essa pergunta a Michel Temer, por exemplo, porque toda a população brasileira está cansada de saber a resposta, e tão acostumada com isso que acha normal. Esse finlandês teria dificuldade também para entender o costume brasileiro de dar cargos importantes aos políticos que não foram eleitos. A senadora Ideli Salvatti, por exemplo, candidata derrotada ao governo de Santa Catarina, vai para o pitoresco Ministério da Pesca. Tudo indica que Mercadante será ministro de Ciência e Tecnologia, e o ministro da Educação, Fernando Haddad, diz que para que o desempenho dos alunos brasileiros seja melhor, precisa de mais verbas. E agora? As exibições finais de Lula nos estertores do seu mandato estão passando da conta, mas ainda vão piorar, como aliás já se sabia que ia ser. O 'cacarejo', como bem definiu o WikiLeaks, está muito além da conta e a grande curiosidade é saber o que vai fazer Lula quando acordar, dia 2 de janeiro. Podia bem ler um livro.