2 Saídas possíveis para uma sociedade hipermoderna SALVADOR SÁBADO 12/3/2011
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LIVRO Sem pessimismo, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy fazem análise realista do panorama cultural, econômico e político mundial
PEDRO FERNANDES
Profusão de signos, crises nas bolsas internacionais, gripe suína, aquecimento global, subcelebridades, cultura de marcas, Stella McCartney para C&A. Esse é o cenário que configura a era do “hipermoderno”, conceito trabalhado pelos franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy no livro A Cultura-Mundo – Resposta a uma Sociedade Desorientada (Cia. das Letras, 2011). O conceito não é novo, muito menos o fenômeno, que se pronuncia há cerca de três décadas, a partir da emergência da mundialização promovida pelas empresas transnacionais, do fim das utopias socialistas e dos modelos de contrassociedade. De acordo com os autores, seus quatro sintomas, o hipercapitalismo, a hipertecnicização, a hiperindividualização e o hiperconsumo são os responsáveis pela configuração de um novo estado da cultura, a “cultura-mundo”. Ela é marcada tanto por uma sensação de progresso, quanto por uma certa desorientação em relação ao caminho que se está a seguir. Essa hipertrofia gera desregulação. “O desnorteio hipermoderno aumenta paralelamente com a excrescência do universo tecno-mediático-mercantil e com o estilhaçamento dos enquadramentos coletivos, a individualização da existência, deixando os indivíduos à mercê de si mesmos“. Por outro lado, quanto mais o mundo se globaliza, afirmam Lipovetsky e Serroy, mais os particularismos e exigências identitárias ganham relevo, induzindo uma nova relação entre cultura e política. Uma das consequências, por exemplo, do recuo do religioso sobre as vidas comuns é a exacerbação do fun-
A cultura-mundo é produto da era “hipermoderna”, caracterizada pela hipertrofia de signos, da tecnologia e do consumo O livro propõe um caminho do meio entre cultura mercantil e cultura do espírito, do homem
damentalismo. Observa-se nesses tempos descritos pelos autores que a cultura do individualismo progride mesmo nos países do Oriente. Tomemos como exemplos atualíssimos as revoluções no Egito e na Líbia. A insurgência contra os regimes ditatoriais revela uma vontade de democracia, vontade do indivíduo de tomar suas próprias decisões sobre a política, a economia.
Cultura de marcas
Porém, se há mais liberdade, mais democracia, mais desenvolvimento tecnológico, mais consumo, contemporizam, não há “mais felicidade”. Há mais incerteza. Assim o consumo aparece como resposta. A cultura torna-se mundo de marcas e o mercantil torna-se cultural. No centro de tudo está a cultura, que se não deixou cair as barreiras hierárquicas entre
alta e baixa cultura, experimenta uma mercantilização que as equipara. Para os autores, embora se reconheça a diferença, contempla-se um Van Gogh da mesma forma que se ouve Madonna. Turistas visitam a capela Sistina da mesma maneira que visitam as flaship stores de marcas famosas. A experiência estética está atrelada à experiência de consumo. Exemplo disso são as marcas, de aparelhos eletrônicos às lojas de departamento, com suas concept stores criadas por arquitetos famosos e coleções de moda assinadas por estilistas de alta costura, vendidas a preços populares. E isso não é necessariamente ruim.
Resistência
O que o livro propõe é um caminho do meio entre cultura mercantil e cultura do espírito,
do homem. A língua, a história, a literatura e a religião são postas como os elementos de resistência para os que argumentam que as indústrias da informação e do consumo homogenizam a cultura mundial. Se há Apple, Coca-Cola e McDonalds em todo o mundo, não significa que os usos desses signos transnacionais sejam os mesmos em todos os lugares. O jeans global é vestido por todos, mas sempre em negociação com a indumentária local. Da mesma forma que há CNN, há a rede Al Jazeera que surge como uma alternativa local de interpretação dos fatos. Enquanto os EUA exportam séries e filmes, México e Brasil exportam telenovelas para o Leste Europeu. Se por um lado há o universalismo do mercado, por outro há o universalismo dos direitos humanos. O cenário parece apocalípti-
co, mas não resiste a uma análise mais detalhada. Sem pessimismo, mas sem a adesão dos integrados, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy conseguem traçar um panorama cultural, político e econômico em que há esperança para essa tal sociedade desorientada.
Redefinição
Aos que sofrem das incertezas que acompanham a hipermodernidade, põe-se o desafio de superar o consumo como resposta única a esses males. Vencê-los cabe ao indivíduo e ao Estado. Assim, a solução proposta passa pela redefinição da cultura do trabalho e do mérito, pela promoção da justiça e do desenvolvimento social e, por fim, pelo investimento em educação e pesquisa. A ideia é direcionar a economia para a economia do conhecimento.
Jen Davis / Divulgação
A CULTURA-MUNDO – RESPOSTA A UMA
Times Square, NY: a cultura torna-se mundo de marcas
SOCIEDADE DESORIENTADA / GILLES LIPOVETSKY E JEAN SERROY
Companhia das Letras/ 208 páginas/ R$ 39,50
Que fim levou o corpo no Carnaval de Salvador? Mary Weinstein Jornalista, doutoranda em Cultura e Sociedade/Ufba mweinstein@grupoatarde.com.br
A coreógrafa carioca Deborah Colker que, literalmente, subiu pelas paredes em Casa (1999), e reinventou a roda em Rota (1997), e que, recentemente, foi ao Canadá criar para o Cirque du Soleil, veio ver o cotidiano do baiano que se apresenta no Carnaval. Ela subiu no trio elétrico da colega Daniela Mercury, onde outros 30 dançarinos reforçavam o requinte cênico que a cantora procura mostrar todo ano. Deborah pode ter sido o que houve de novo – foi uma novidade – na performance carnavalesca deste ano e, a partir dessa experiência entre coreógrafa e público, o que poderá ocorrer com as artes do espetáculo dela, ninguém sabe. Mas, e com as artes do corpo no meio desse Carnaval? Seria só meter o cotovelo e sair abrindo caminho?
Nos músculos das malhas desenhadas e coladas nos corpos dos percussionistas do Cortejo Afro, uma anatomia cor de rosa do nosso Carnaval se delineava. Se via que a força dos blocos afros não só provém da música e da dança, mas também da criatividade e ousadia artisticamente inovadora. Para se apreciar desde a fantasia e o vigor dos drummers até o flanar dos dançarinos anônimos no chão, precisava-se apenas do movimento do olhar.
Olhar antropológico
Com a ajuda do teatro antropológico de Eugênio Barba, po-
Colker já marcou presença nas Oficinas de Dança (anos 1980) que aconteciam na Bahia
demos identificar o gestual extraordinário que se perde no corpo a corpo do Carnaval baiano. Em modo contínuo, porque o carnaval prossegue o ano inteiro, o movimento passa a ser ordinário, no sentido de ser usual, incorporado ao dia a dia. Na medida em que a festa se assume como rotineira, o rebolado – desde o ano passado, “rebolation” – cai no trivial e reaparece integrado ao vocabulário ordinário de todos os dias. Assim, é preciso que o corpo dê um jeito para se superar e virar espetáculo de novo. A produção cênica não cessa. O ordinário se re-elabora na postura dos cantores dos trios que se deslocam em palcos ambulantes que transitam pela cidade. Eles se relacionam com o público sempre da mesma forma, no espaço exíguo, em que se confundem entre músicos, instrumentos, figurinos, back vocals e aparelhagens, no lugar mais disputado do Carnaval, o mesmo que preenche o campo midiático. Outro palco, mesma disputa. Na geografia do trio elétrico,
Mila Cordeiro / Ag. A TARDE / 7.3.2011
Deborah Colker no trio elétrico
o corpo do personagem central – do cantor – é mal visto, por causa da angulação que se estabelece com o chão, onde está a plateia. Quem está no asfalto – e não no alto – é quem balança o chão da praça, e, verdadeiramente, faz a festa. Para muitos, é o espetáculo em si. Nessa de o corpo do artista ser um objeto de apreciação tão elevado, leva a melhor quem está nos camarotes, que a tudo assiste de cima ou de longe. Bom lembrar que, ao contrário dos carros alegóricos, o trio elétrico foi criado para produzir som. Nem cantor existia na época. No transe e no trânsito do trio, a dança acontece numa interação entre os próprios foliões e artistas. Desde o “mete o cotovelo e vai abrindo o caminho”, (anos 70), até a fuga da Mulher Maravilha com o Super-Homem, com gestual cheer leaders, dos americanos, de agora, muita dança rolou e, de extraordinário, sobrou, na Avenida Oceânica, a mise en scène de Carlinhos Brown, que, neste espaço, igualmente restrito, fica para uma próxima matéria.
CURTAS Feira de Artesanato está de volta Passados os agitos carnavalescos, uma boa opção de passeio que pode agradar a toda a família, neste final de semana, é a Feira Baiana de Artesanato, promovida pelo Instituto Mauá e que reúne artesãos baianos, no bairro da Pituba, na orla de Salvador. Hoje e amanhã, a feirinha estará no Jardim dos Namorados, no horário das 16 às 21 horas, com direito ainda a barracas de culinária e a shows musicais, a partir das 19 horas. O evento reúne uma amostra da produção artesanal de artistas de todo o Estado.
Camila Jasmin / Divulgação
Feirinha é opção para toda a família no Jd. dos Namorados
Comemoração especial para Salvador A partir de segunda-feira, o Espaço Cultural da Barroquinha abre a sua programação cultural gratuita pelo aniversário de Salvador, dia 29 de março. A agenda, organizada pela Fundação Gregório de Mattos, prevê 17 dias de atividades. Ao longo da segunda quinzena, das 12 às 18 horas, a exposição fotográfica Salvador, ontem e hoje mostrará o cotidiano da cidade nas primeiras décadas do século 20 e nos dias atuais. Dia 20, a Orquestra Juvenil da Bahia (Neojibá) se apresentará no Farol da Barra, às 18 horas, com 150 músicos, sob a regên-
cia de Ricardo Castro. No dia 29, o maestro Fred Dantas e sua orquestra se apresentam no Espaço Cultural da Barroquinha.
No Dia Nacional da Poesia, segunda, às 14 horas, poetas participam do Viva Poesia, no Espaço Barroquinha
Hebe está de volta, terça, na Rede TV! A partir desta terça-feira, o Brasil vai voltar a sorrir e a se emocionar com a dama da televisão brasileira, Hebe Camargo. Três meses após deixar o SBT, emissora na qual trabalhou durante 25 anos, a apresentadora mais gracinha da televisão fará a sua grande reestreia na Rede TV!, para a alegria de milhares de fãs que ficaram “órfãos” de sua energia contagiante. A reestreia será exibida com tecnologia full HD 3D. O programa é semanal e terá quadros como “Amor para Recordar” e convidados especiais.
22h
é o horário do programa de Hebe Camargo, que volta à telinha na estreia do seu programa na Rede TV!
“Estou aqui após um ano em que tive problema de saúde, mas cheia de vida” HEBE CAMARGO, apresentadora