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SALVADOR QUINTA-FEIRA 19/5/2011
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ENTREVISTA Nando Reis, cantor e compositor
QUIS PRIVILEGIAR MÚSICAS QUE ACHO LINDAS FORA DO CIRCUITO POP ROCK
PEDRO FERNANDES
Nando Reis está de volta a Salvador para apresentar seu último disco, Bailão do Ruivão, com regravações de canções pouco familiares ao seu repertório, mas que fazem parte do cânone do cancioneiro popular brasileiro. Entre as canções estão Muito Estranho, Frevo Mulher e Chorando Se Foi (gravado com participação da banda Calypso). “São as coisas que me tocam de uma forma que as pessoas não suspeitam”, disse Nando Reis em entrevista por telefone, na qual também falou sobre sua dificuldade em tocar covers e sobre elitismo cultural. O show acontece domingo, às 19 horas, na Concha Acústica do TCA (R$ 30, meia).
Você disse que essas músicas chegaram para você via rádio da cozinha. Você costuma ouvir música brega no dia a dia, ou é uma coisa que continua a te chegar somente pelo rádio? Não ligo mais o rádio. É muito chato. Compro muita coisa e ouço no carro ou em casa.
Você já tocava algumas dessas músicas em shows anteriores. Você fez disso um ensaio para esse projeto ou a ideia nasceu desses momentos? Há dez anos que venho tocando músicas de outros autores no bis dos show e geralmente era uma coisa bem distante do rock'n´roll, dessas coisas que eu faço. E fui acumulando essas músicas. E era engraçado porque eu tocava e as pessoas achavam que eu estava tirando uma onda. E, no final de 2009, fui convidado pra tocar numa festa e resolvi juntar uma parte dela com músicas do meu repertório e foi um barato. Então decidi gravar o bailão, que é o apelido que a gente dava para o bis. Daí entramos para a concepção de gravar ao vivo, a escolha do repertório. De 60 músicas ficamos com 19.
As coisas novas chegam de que maneira até você? Acabo sabendo delas. Não sei. É uma pergunta que não sei te responder. Será que é por isso que conheço tão poucas coisas novas? Para você é mais fácil ou mais difícil tocar covers? É mais difícil. Eu gosto de tocar minhas músicas. Estou me divertindo tocando o Bailão, mas não é o que eu gosto mais de fazer. Como eu componho e gosto do que componho, e tenho uma banda com a qual gosto de tocar, acho que tenho mais prazer em cantar o que o que escrevo. É mais fácil.
Qual foi o critério de escolha? Sobraram as que tiveram melhor resultado, dentro de um critério de um disco que não fosse nostálgico, que não tivesse um conceito, a não ser o de contar a história da música na minha vida e evidentemente uma parte da história que não é tão nítida para quem percebe o tipo de som que faço e ouço. É um lado B da sua musicalidade. São as músicas que me tocam de uma forma que as pessoas não suspeitam. Essa informação é relevante se você juntar com os meus próprios discos. Aí dá para entender um pouco mais quem eu sou. Li que você disse que as pessoas faziam uma interpretação irônica de algumas dessas músicas que você já tocava em seus shows e que isso te incomodava. Você acha que a ironia é uma via de consumo cultural válida? Acho que é válido, mas não é a minha praia. Nunca gostei de música de piada, de paródia. Não é a minha veia. A própria MTV tem uma quantidade enorme de produtos feitos de paródia. Tem muita gente que produz, consome e se alimenta disso. Na verdade, quero saber sobre a apropriação irônica de um produto que não foi feito com
Divulgação
O critério foi contar a história da música na minha vida e que não é tão nítida para o som que faço
A força do artista na verdade é destituir a música dessa aura artística e fazer com que ela toque as pessoas
essa finalidade. Mas hoje a gente vê um monte de coisas na internet, obviamente toscas, e essas coisas viram objeto de culto irônico, e fazem sucesso, pelo menos por um período. Eu não tenho essa atração pela internet. Volta e meia meus filhos vêm me mostrar alguma coisa ou outra que eles encontraram por aí. Sei que existe essa nova forma de expressão e difusão que a internet promove. Elas até viram uma espécie de bordão. Tem uma travesti que mergulha na piscina e fala um negócio X, que tem milhões de views, e isso é uma coisa que se realimenta. É um universo que é revelador de um tipo de atração e de envolvimento que as pessoas têm com o que é produzido. Me dou conta que existe, mas
não sou sociólogo para pensar sobre isso e também não me atrai nada disso. Há um preconceito contra banda de baile. As pessoas curtem a música, mas excluem a banda artisticamente. Como se apenas divertir não fosse digno ou fosse pouco artístico. Você percebe isso? Eu tenho minha visão particular sobre música. E a minha história de admiração sobre a música passa pelos bailes de carnaval que eu frequentava na adolescência, em Jaú, interior de São Paulo. Meu maior barato era ficar assistindo a banda tocar. Nunca me ocorreu dissociar a música e se quem tocava era artista ou não. Essa ideia de que o artista é um representante de uma música genuína
não faz parte da forma como eu penso. A força do artista na verdade é destituir a música dessa aura artística e fazer com que ela toque as pessoas. É isso que interessa e conta para mim. Não sou um purista, nem ingênuo, mas não penso assim. O repertório do disco e do show é uma apologia ao brega, afirma sua validade? Não. Eu não quero esse lugar, não é um disco didático. Como tenho uma história com o rock'n'roll, quis privilegiar músicas que acho lindas fora desse circuito de gênero do pop rock. Não é uma coisa cult lado b. É mostrar uma informação que tem importância e dou ênfase, mais até que outras que seriam redundantes eu gravar.
Você convidou o Calypso, que tem um público gigante, mas para quem muita gente ainda torce o nariz. Tem algum compositor ou compositora hoje que você acha que é subestimado por esse elitismo? É tão engraçado. São duas mãos. Da mesma maneira que sou subestimado porque faço sucesso. É tudo uma palhaçada. Eu não ligo para isso mais. Deve ter um monte de gente subestimada e vai sempre ter, porque é assim que funciona aqui no Brasil. Essa ideia dessa coisa preconceituosa aqui no Brasil é super cansativa. Há 25 anos que assisto essa merda. De todos os lados. Do mais moderno, depois fui chamado de dinossauro. É uma guerra. E aqui quem faz sucesso parece que se vendeu ao dinheiro. Fazer sucesso é que é pecado para a crítica brasileira. Vai rolar um Bailão do Ruivão Volume 2? Nossa! Não está nos meus planos. Mas não descarto nada. Tem outras coisas que eu gostaria e poderia cantar, mas acho pouco provável que eu vá fazer um projeto igual. Já foi, já fiz esse. No momento não tenho nenhuma vontade. Quero agora fazer meu disco novo.